Na era do consumidor mais saudável, a nova corrida da indústria de alimentos acontece nos ingredientes
A indústria de alimentos está tentando descobrir como vender para um consumidor que come menos, procura mais proteína e se afasta dos ultraprocessados.
No caminho, quem ganhou importância foi uma cadeia menos visível mas não menos importante: a de ingredientes, aromas e tecnologias que tornam possível reformular os produtos. Com um desafio maior do que parece.
Uma cientista ouvida pelo podcast The Journal, do Wall Street Journal, contou que seria possível formular uma pizza com 120 gramas de proteína. O problema é que o produto consumiria praticamente o limite diário de calorias de uma pessoa. Outro protótipo, um burrito com 40 gramas de proteína, foi abandonado porque a tortilha não conseguia comportar tanto recheio.
A cena resume o momento vivido pela indústria. Não basta colocar mais proteína, fibras ou vitaminas em uma receita. É preciso preservar sabor, textura, praticidade, preço e, claro, a disposição do consumidor de comprar o produto novamente.
Durante décadas, essas firmas ajudaram a indústria a tornar os alimentos mais saborosos. Agora, precisam fazê-los também mais funcionais.
E isso virou um negócio ainda maior e que tem garantido o apetite de investidores no setor, enquanto os grandes conglomerados de fabricantes de alimentos industrializados patinam.
Os papéis da IFF, por exemplo, avançam 30% na Bolsa de Nova York em um ano. Na outra ponta, as ações da General Mills, dona dos sorvetes Häagen-Dazs e das massas congeladas Pillsbury, caem 28% no mesmo período.
As mudanças nos pratos dos consumidores têm sido aceleradas pelo avanço dos medicamentos à base de GLP-1, usados para tratamento de diabetes e perda de peso, como Ozempic e Mounjaro.
Analistas do JP Morgan estimam que esses medicamentos possam retirar entre US$ 30 bilhões e US$ 55 bilhões em receita anual da indústria de alimentos e bebidas até 2030.
No Brasil, analistas do UBS estima que o mercado de GLP-1 passe dos atuais R$ 11 bilhões para R$ 22,6 bilhões em 2030, uma expansão anual composta de aproximadamente 16%.
A consultoria Frost & Sullivan identifica uma migração para porções menores, produtos mais densos nutricionalmente e soluções com proteínas, fibras, probióticos e outros ingredientes funcionais.
Menos embalados, mais alimentos frescos
A transformação já aparece nos balanços e nos planos das grandes fabricantes. A gigante americana do molhos Kraft Heinz, por exemplo, reportou queda de 1,4% nas vendas no segundo trimestre, na comparação anual. E não é de hoje: nos últimos 11 trimestres, as vendas da Kraft Heinz caíram em dez.
A suíça Nestlé também está reformulando seu portfólio global, com venda de ativos e maior foco nos segmentos mais ligados à nutrição e saudabilidade.
No Brasil, a firma anunciou recentemente um investimento de R$ 1,6 bilhão até 2028 para ampliar a área de nutrição e saúde. O plano inclui uma nova fábrica de fórmulas infantis em Minas Gerais, a modernização da unidade de Araçatuba (SP) e a expansão da produção de whey protein.
A companhia prevê aumentar em 15% a fabricação de whey até 2029.
É uma reação, porque a mudança de comportamento também aparece no carrinho de compras. De 2022 a 2025, as vendas de biscoitos caíram mais de 10%, segundo a Scanntech, enquanto as vendas de frutas in natura cresceram 34%, e as de ovos, 24,3%.
Vitor Fagá, CEO do Cencosud, controlador das redes de supermercados Giga Atacadão, Prezunic e Bretas, disse ao InvestNews que o grupo percebeu maior demanda por perecíveis e passou a dar mais destaque a essas categorias.
Belmiro Gomes, CEO do Assaí, também tem relatado menor procura por alimentos industrializados e maior demanda por carne fresca, a tal ponto que o atacarejo vem ampliando a presença de açougues em suas lojas.
Do remédio ao laboratório
O consumidor está disposto a consumir industrializados que prometam entregar mais nutrientes. Uma pesquisa da Innova Market Insights mostra que a proteína lidera a intenção de consumo, com 58% das respostas. Vitaminas aparecem com 53%, e fibras, com 48%.
Além disso, 42% dos consumidores já consumiram alimentos ou bebidas fortificados. Os lançamentos com algum atributo de proteína associado a outro benefício cresceram 32%.
O mercado mundial de aditivos alimentares, segundo a Grand View Research, movimentou US$ 127,2 bilhões em 2025 e pode chegar a US$ 203,4 bilhões em 2033. No Brasil, a consultoria estima um mercado de até US$ 5,23 bilhões em 2030.
E a proteína é apenas uma parte dessa indústria. O mercado inclui adoçantes, sabores, enzimas, emulsificantes, estabilizantes, substitutos de gordura, probióticos, prebióticos e fibras.
“A fibra vai ser a nova queridinha da indústria de alimentos. Com o avanço dos medicamentos GLP-1, a demanda por saciedade e saúde intestinal tende a crescer, e a fibra aparece como um ingrediente importante para atender a esse consumidor”, afirma Adilson Dias, diretor comercial da DR Aromas & Ingredientes.
A firma, antiga Duas Rodas Industrial, tem fábricas no Brasil, no México e no Chile, escritório nos Estados Unidos e operações em mais de 70 países. Fundada em 1925, desenvolve mais de 5.000 soluções para alimentos, bebidas e suplementos.
Para criar todas essas formulações, a DR tem cerca de 400 profissionais na área técnica, entre engenheiros químicos, engenheiros de alimentos, nutricionistas, farmacêuticos e flavoristas.
E conta cada vez mais com ciência de alta tecnologia. Segundo Dias, projetos que antes levavam de 40 dias a seis meses podem ser desenvolvidos em até dez dias com o apoio de inteligência artificial.
A companhia cresce a taxas superiores a 10% ao ano e tem como meta dobrar o faturamento entre 2025 e 2028. Em 2023, último ano divulgado, a DR acumulou R$ 1,6 bilhão em vendas.
Para dobrar esse montante bilionário, a estratégia da multinacional brasileira passa pelo exterior. Cerca de 20% da receita já vem de outros países, e a firma pretende ampliar essa participação.
https://www.youtube.com/watch?v=qphhgau7YPE
Mas o mercado brasileiro também ganha relevância na estratégia dos grandes grupos globais, especialmente pela oferta de ingredientes e insumos naturais.
A IFF mantém operações industriais e centros de inovação na América Latina, incluindo um hub de cocriação em Barueri, em São Paulo. A firma trabalha com enzimas, fermentação, probióticos, culturas e bioingredientes.
Segundo Deia Vilela, vice-presidente da IFF Health & Biosciences para a América Latina, a biotecnologia pode ajudar a reduzir a dependência de insumos importados.
Em uma região sujeita a variações de safra, custos logísticos e oscilações cambiais, enzimas podem ajudar a padronizar farinhas e compensar perdas de rendimento ou textura, por exemplo.
O desafio é transformar essa base em ingredientes e moléculas de maior valor agregado, em vez de exportar apenas commodities.
Apetite para compras
Se as mudanças no consumo têm aumentado a demanda da indústria de alimentos por ingredientes e aromas, quem desenvolve tudo isso também entrou no radar do mercado – aquecendo as operações de fusões e aquisições.
Em maio, a IFF anunciou a venda de sua divisão de Food Ingredients para fundos assessorados pela CVC Capital Partners. A operação avaliou a unidade em aproximadamente US$ 4,3 bilhões, ou cerca de dez vezes o Ebitda (o resultado operacional).
O negócio faturou quase US$ 3,1 bilhões em 2025. A IFF manterá uma participação de 10% na firma, que fornece texturizantes, emulsificantes, soluções para alimentos à base de plantas e outros ingredientes especiais.
Em junho, a Ingredion anunciou a compra da Tate & Lyle por £ 2,7 bilhões em dinheiro. A operação criará um grupo com receita de US$ 9,9 bilhões.
A combinação reúne tecnologias de redução de açúcar, fibras, fortificação, textura, desenvolvimento de receitas e sistemas com múltiplos ingredientes.
Dados da S&P Global reforçam o interesse dos investidores por essa transformação. As transações envolvendo produtoras de alimentos embalados e carnes somaram US$ 5,92 bilhões até julho de 2026, próximas dos US$ 6,75 bilhões de todo o ano de 2025.
O capital está escolhendo firmas ligadas a alimentos funcionais, proteínas, fibras e produtos considerados mais saudáveis.
No Brasil, algumas gigantes também investiram de olho nessa tendência.
A JBS criou a Genu-in em 2022, com um investimento de R$ 400 milhões, para transformar pele bovina em peptídeos de colágeno e gelatina. A fábrica de Presidente Epitácio, no interior paulista, já opera próxima do limite e exporta para mais de 20 países.
A MBRF, por sua vez, comprou 50% da Gelprime por R$ 312,5 milhões. A companhia anunciou mais R$ 187,5 milhões para ampliar a fábrica de Londrina, em um investimento total de R$ 500 milhões.
A meta é mais que triplicar a capacidade da unidade, para 30 mil toneladas anuais, e alcançar cerca de 5% da produção global de colágeno e gelatina.
Nos dois casos, as firmas aproveitam uma vantagem que já possuíam: acesso à matéria-prima animal e escala industrial. A pele, antes destinada a aplicações de menor valor, passa a ser transformada em ingrediente para alimentos, bebidas, suplementos, cosméticos e medicamentos.
A indústria de alimentos está mudando sua composição, mas tenta preservar a aparência, o sabor e a textura que o consumidor já conhece para que um sorvete “turbinado” continue parecendo sorvete, por exemplo.
O que muda é o que está por trás do produto: uma indústria discreta para o consumidor, mas cada vez mais importante para as fabricantes… e especialmente mais valiosa para investidores.
O que achou dessa notícia? Deixe um comentário abaixo e/ou compartilhe em suas redes sociais. Assim deixaremos mais pessoas por dentro do mundo das finanças, economia e investimentos!
Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: Raquel Brandão
