O mercado de pizza esfriou nos EUA, mas o negócio da Domino’s ainda merece atenção
Os americanos já não têm o mesmo apetite por pizza. E nem Wall Street. Ainda assim, pode haver valor nos restos desse setor.
As redes de pizza já dominaram um ritual tipicamente americano: um jantar em família sob o telhado vermelho da Pizza Hut ou uma entrega previsível da Domino’s em uma noite preguiçosa diante da TV. O crescente apetite dos americanos por pizzas de redes transformou a Domino’s Pizza em uma das melhores ações do setor de restaurantes por décadas.
Mas, nos últimos anos, DoorDash e Uber Eats destruíram a vantagem competitiva da entrega própria, colocando qualquer pizzaria de esquina em pé de igualdade com as marcas nacionais. Hoje, ao abrir um aplicativo de delivery, uma pizzaria local aparece ao lado da Domino’s [algo que sempre aconteceu no Brasil, mas que era raro nos EUA]. Para quem está sentindo o aperto econômico, também há cada vez mais opções na seção de pizzas congeladas dos supermercados.
O resultado é uma categoria parada no tempo. Dados da consultoria Technomic mostram que a participação da pizza nos gastos dos consumidores americanos com restaurantes diminuiu nos últimos anos, à medida que os clientes migraram para outras categorias, como frango e comida mexicana.
Os investidores estão jogando a toalha. A Yum Brands vendeu a Pizza Hut neste mês por US$ 2,7 bilhões. A Papa John’s colocou a firma à venda. Redes de porte médio estão fechando unidades. Até a líder do setor está sendo punida: as ações da Domino’s acumulam queda de quase 40% nos últimos 12 meses.
A desaceleração das vendas e uma mudança repentina na liderança aceleraram o movimento. Nesta semana, a Domino’s anunciou que o diretor de operações, Joe Jordan, substituirá o CEO Russell Weiner. Os investidores se surpreenderam com o momento da troca e interpretaram a mudança como um sinal de alerta, temendo que Jordan abandone as metas de crescimento de longo prazo.
Há motivos para a preocupação. As ações da Domino’s caíram em abril depois que o crescimento das vendas em lojas comparáveis nos Estados Unidos ficou em apenas 0,9% no primeiro trimestre, e a administração abandonou a meta anterior de crescimento de 3% para 2026.
A companhia divulgará os resultados do segundo trimestre no próximo mês, e o cenário de curto prazo parece desafiador. Segundo Logan Reich, analista da RBC Capital, a Domino’s agora compara seus resultados com um 2025 impulsionado por iniciativas importantes — como o lançamento da borda recheada, décadas após a Pizza Hut, e sua entrada no DoorDash — sem novos catalisadores óbvios pela frente.
Mas, olhando mais de perto, a Domino’s continua ampliando sua fatia do mercado. Mesmo que a expansão desacelere significativamente em relação às 175 novas lojas nos Estados Unidos previstas para este ano, a firma continua crescendo anualmente, enquanto Pizza Hut e Papa John’s encolhem.
A participação da Domino’s nas vendas entre as três maiores redes de pizza de capital aberto subiu para 54% em 2025, ante 38% em 2016, segundo dados do J.P. Morgan. No mesmo período, a Pizza Hut viu sua fatia cair de 41% para 27%.
À medida que os concorrentes intensificam suas promoções e ofertas de valor, a Domino’s pode continuar enfrentando pressão de curto prazo para acompanhá-los ou correr o risco de perder participação de mercado. A aposta da rede, porém, é que conseguirá sobreviver por mais tempo do que rivais que estão recorrendo a descontos agressivos e caminhando para o fechamento de lojas.
No fim das contas, tudo se resume à economia das franquias. A Domino’s é maior e sua cadeia de suprimentos verticalizada ajuda a manter baixos os custos dos ingredientes. Além disso, seu orçamento de publicidade supera o de seus dois maiores concorrentes somados.
A rentabilidade caiu para todas as redes de pizza, mas uma unidade típica da Domino’s ainda supera amplamente a Pizza Hut. Segundo a Evercore ISI, cada restaurante da Domino’s gera cerca de US$ 166 mil em lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda), contra aproximadamente US$ 55 mil por unidade da Pizza Hut.
A firma também é uma máquina de geração de caixa. Como os franqueados financiam a abertura das lojas, a operação corporativa exige poucos ativos. Isso mantém baixas as necessidades de investimento e libera grandes volumes de caixa para serem devolvidos aos acionistas. No ano passado, o fluxo de caixa livre atingiu US$ 672 milhões, cerca de três vezes mais do que há uma década.
Esse motor monetário protege os retornos quando o crescimento desacelera. A companhia aumenta seus dividendos ano após ano e continua recomprando ações. Em outras palavras, mesmo que o crescimento das vendas em mesmas lojas permaneça modesto, as recompras podem manter o lucro por ação crescendo em ritmo de um dígito médio.
O que acontecerá com a Domino’s quando a indústria se acomodar em uma nova realidade? A recente liquidação das ações reduziu sua avaliação para cerca de 14 vezes o lucro projetado, um nível que não era visto desde os anos posteriores à crise financeira de 2008-2009.
Concorrentes franqueadores, como Yum Brands e McDonald’s, são negociados a múltiplos próximos de 20 vezes. Para investidores pacientes entrarem nesse valuation mais baixo, a Domino’s não precisa voltar a ser uma ação de alto crescimento. Basta reajustar as expectativas e continuar sendo uma geradora consistente de lucros.
Os gostos dos americanos estão mudando, e a fatia disponível para as grandes redes de pizza está diminuindo. Mas a Domino’s ainda pode prosperar com a parte que lhe cabe.
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Autor: Karla Mamona