Balneário Camboriú: a era de ouro dos arranha-céus chegou ao limite?

O mercado imobiliário mais extravagante do Brasil nos últimos anos dá sinais de cansaço justamente no momento em que lança seu projeto mais ambicioso. Em maio de 2026, Balneário Camboriú (SC) perdeu, pela primeira vez em quatro anos, a liderança no ranking nacional de metro quadrado mais valorizado para imóveis novos. A liderança ficou com a vizinha Itapema, outro destino turístico do litoral catarinense.
Mais: o Índice FipeZap mostra que os preços médios dos imóveis por lá subiu apenas 2,94% entre maio de 2025 e maio de 2026. Foi o terceiro pior desempenho entre as 56 cidades monitoradas pelo índice – e abaixo da inflação, que ficou em 5% nesse intervalo.
Esses dados indicam que o mercado talvez já não consiga sustentar o mesmo ritmo de valorização que alimentou a fama de BC nos últimos anos. Tudo isso acontece em um momento em que a cidade vende o empreendimento que promete ser o prédio residencial mais alto do mundo.
Lançado em 2025 e com as obras iniciadas há alguns meses, o edifício Senna Tower tem altura estimada em 550 metros – pegue o prédio mais alto de São Paulo (o Platina 220, de 172 m) e coloque ele no topo da Torre Eiffel (330 m); ainda vão faltar 48 m.
O projeto é da construtora catarinense FG Empreendimentos em sociedade com Luciano Hang, dono da Havan. Serão 157 andares e 228 unidades residenciais entre apartamentos e mansões suspensas.
Os apartamentos de entrada têm 300 metros quadrados e custam por volta de R$ 28 milhões. Já os duplex e triplex nos andares mais altos podem custar entre R$ 200 milhões e R$ 300 milhões.
O Valor Geral de Vendas (VGV) estimado do projeto é de R$ 8,5 bilhões. Desde o lançamento mais de R$ 2,2 bilhões já foram vendidos, o equivalente a 40% das unidades.
O fascínio pelas branded residencies
É esse contraste que torna o caso tão relevante. De um lado, Balneário Camboriú continua lançando empreendimentos monumentais, embalados por marcas, escassez de terreno e apetite de investidores. De outro, surgem indícios de que o motor que sustentou esse ciclo pode estar engasgando.
O Senna Tower nem sempre teve esse nome. Quando foi concebido, chamava-se Triumph Tower. A entrada da marca Senna, por articulação da família do piloto, elevou o patamar simbólico do projeto ao conectá-lo a um ídolo brasileiro de dimensão mística.
O Senna Tower é um exemplo da força de um fenômeno que vem crescendo muito no mercado imobiliário de luxo: as chamadas branded residences. Nesse cenário, marcas de moda, hotelaria e design emprestam prestígio a empreendimentos residenciais e ajudam a justificar preços ainda mais altos.

Essa tendência cresceu em várias capitais, mas em Balneário Camboriú ela encontrou um ambiente particularmente fértil. Além do Senna Tower, a cidade já tem um empreendimento assinado pela Pininfarina, o estúdio de design que projetava os carros da Ferrari e outro pela Tonino Lamborghini – nota: não é a marca de carros, mas uma grife de luxo italiana fundada por Tonino, filho de Ferrucio Lamborghini (1916-1993), esse sim o fundador da montadora, hoje parte do Grupo Volkswagen.
Além desses, BC também deve receber um edifício da Armani/Casa, a companhia de design de imóveis da grife de Giorgio (1934-2025).
O financiamento que sustenta BC
A FG Empreendimentos, do Senna Tower, é uma das principais responsáveis pela verticalização de Balneário e também pela construção de sua imagem de luxo extremo. Desde os anos 1990, ergueu dezenas de projetos na cidade, sendo 30 deles com mais de 100 metros de altura (por volta de 30 andares, a depender do pé direito).
Por trás desse crescimento na altura dos prédios também há também uma lógica financeira particular. Em Balneário, grande parte das vendas não depende de financiamento bancário tradicional. No caso da FG, por exemplo, mais de 90% das negociações são feitas diretamente com a incorporadora.
As firmas oferecem parcelamentos longos e aceitam permutas por imóveis, terrenos e até carros. Isso reduz a necessidade de caixa imediato e amplia o universo de investidores aptos a entrar no mercado. Hoje, estimativas do setor indicam que entre 50% e 60% das compras de apartamentos na cidade são realizadas como investimento.
Esse detalhe é central – ajuda a entender por que tantos lançamentos conseguem ganhar tração mesmo com preços tão elevados. Ao mesmo tempo, revela uma fragilidade: o sistema depende cada vez mais da entrada constante de compradores que acreditam que o imóvel continuará se valorizando.
Enquanto essa crença se mantém, a engrenagem gira. Mas quando os ganhos começam a perder força, a narrativa fica mais difícil de sustentar. É nesse ponto que entram os sinais recentes de cansaço.
Parte do mercado argumenta que a renda dos compradores, a escassez de terrenos e o peso do branding, nos edifícios assinados, ainda sustentam os preços. Outra parte vê alerta no fato de que cidades vizinhas, como Itapema, passaram a capturar parte da demanda e da expectativa de valorização. Isso sugere que o capital especulativo antes concentrado em BC pode estar buscando novas fronteiras.
Agradecimento: Fernanda Zaleski, corretora de imóveis especializada em luxo na Felicità Imóveis
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Autor: Alexandre Versignassi