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O pedido mundial por bebidas já chegou. As destilarias esperavam mais

É como a versão corporativa de comprar bebida demais para uma festa em casa e descobrir que metade dos convidados não bebe. A diferença é que, neste caso, há bilhões de dólares em jogo e não existe a opção de devolver a mercadoria.

Os depósitos das destilarias estão lotados de barris de destilados envelhecendo, produzidos em uma época mais favorável, mas que hoje são menos procurados pelos consumidores. O problema não se limita ao bourbon nos Estados Unidos.

Há também excesso de conhaque, uísque irlandês e uísque escocês no mercado global. Investidores atraídos pelas baixas avaliações das firmas de bebidas deveriam olhar primeiro para seus balanços saturados.

Quando os produtores de destilados envelhecidos decidem quanto de estoque novo armazenar a cada ano, precisam fazer uma estimativa sobre como estará a demanda quando a bebida finalmente estiver pronta para venda. “Os barris em um armazém são previsões físicas feitas anos atrás”, diz Koryn Ternes, diretora de consultoria da IWSR, firma de dados do setor.

No caso de um conhaque VS, isso significa tentar prever o que acontecerá daqui a dois anos. Já um conhaque de maior qualidade, como o XO, exige uma visão de pelo menos uma década. Os estoques em processo de envelhecimento aparecem como ativos nos balanços das destilarias até serem engarrafados e vendidos.

As previsões erraram feio nos últimos anos. Grandes firmas de bebidas investiram pesado na formação de estoques entre 2021 e 2024, quando o setor vivia um período de forte crescimento. Depois, a demanda despencou.

As vendas da Rémy Cointreau, dona do conhaque Louis XIII, caíram 40% desde o pico registrado no ano fiscal encerrado em março de 2023. Fabricantes de destilados que não precisam passar por envelhecimento, como a vodca, também enfrentam uma demanda menor, mas conseguiram ajustar a produção mais rapidamente à nova realidade.

Consumidores bebendo menos

Algumas das razões para a queda no consumo de bebidas alcoólicas, como as tarifas comerciais, estavam fora do controle das firmas. O Canadá retirou bebidas produzidas nos Estados Unidos das prateleiras como parte da guerra comercial com o país.

Da mesma forma, as tarifas impostas pelo presidente Donald Trump sobre produtos importados da União Europeia estão prejudicando destiladoras europeias, como Diageo e Rémy Cointreau, que têm forte exposição ao mercado americano. A demanda por conhaques de luxo também desabou na China, onde a confiança dos consumidores está fraca.

Mas as rápidas mudanças na relação dos consumidores com o álcool também pegaram as destiladoras de surpresa. A moderação no consumo está em alta, e a parcela dos americanos que afirma beber álcool caiu para o menor nível já registrado, de 54% em 2025, segundo uma pesquisa da Gallup. A mudança é especialmente significativa porque o consumo de álcool havia aumentado bastante durante a pandemia.

Os gostos da próxima geração de consumidores também não combinam perfeitamente com os produtores de destilados envelhecidos. A geração Z está migrando para bebidas doces e misturadas, como coquetéis prontos para beber vendidos em latas. Esses consumidores bebem mais cedo e fora dos ambientes tradicionais, como bares, preferindo festivais de música ou piqueniques.

Eles também optam cada vez mais por bebidas com baixo teor alcoólico ou praticam o chamado “zebra striping”, que consiste em alternar bebidas alcoólicas e não alcoólicas durante uma noite para limitar o consumo total. Nada disso favorece os conhaques e uísques sofisticados, tradicionalmente consumidos puros. Ainda assim, as destiladoras estão experimentando novos formatos, como destilados saborizados e bebidas prontas para consumo, para atrair consumidores mais jovens.

As grandes firmas de bebidas acumulam estoques gigantescos em seus balanços. A Pernod Ricard, fabricante do uísque Jameson e do conhaque Martell, tinha US$ 8,4 bilhões em estoques de bebidas em processo de envelhecimento armazenados em barris no fim de junho. O valor é 78% maior que o registrado no fim de 2019.

A gigante do conhaque Rémy Cointreau tem € 1,9 bilhão em estoques registrados em seu balanço, valor equivalente a três quartos de todo o valor de mercado da companhia.

O risco para os investidores é que o excesso de destilados envelhecidos provoque uma guerra de preços, à medida que as firmas tentem se livrar do estoque excedente. Por enquanto, as grandes companhias estão reduzindo a produção, em vez de cortar os preços.

A Diageo está reduzindo pela metade o volume que destila nos próximos três anos, enquanto trabalha para reduzir um estoque de US$ 8,5 bilhões de bebidas em processo de envelhecimento. Manter uma quantidade tão grande de produtos armazenados é caro, e a companhia está cortando custos onde pode.

Um ponto positivo é que o fluxo de caixa livre das destiladoras listadas em bolsa deve melhorar à medida que elas reduzirem os investimentos na produção e no armazenamento de novos barris. Analistas do Bernstein destacam que a conversão do fluxo de caixa livre da Rémy chegou a apenas 5% em anos em que a companhia estava abastecendo fortemente seus depósitos.

As ações das firmas de bebidas estão baratas atualmente. Diageo e Pernod Ricard são negociadas a múltiplos de lucro que não eram vistos desde a crise financeira global. Investidores pacientes que acreditam que a demanda por destilados envelhecidos eventualmente se recuperará podem se sentir atraídos por essas ações.

Uma análise dos estoques em processo de envelhecimento como percentual das vendas anuais dá algumas pistas sobre quais firmas provavelmente conseguirão se livrar mais rapidamente do excesso de produtos — embora a demanda por diferentes categorias de destilados envelhecidos e a quantidade de novos produtos inovadores lançados por cada companhia também tenham influência.

Diageo e Davide-Campari Milano apresentam a situação mais saudável nesse indicador. Os estoques em processo de envelhecimento registrados em seus balanços equivalem a 31% e 39% das vendas do último ano completo, respectivamente.

Os estoques da Brown-Forman e da Pernod Ricard representam mais de 60% das vendas. Já os estoques em processo de envelhecimento da Rémy Cointreau equivalem ao dobro das vendas anuais mais recentes da companhia.

Uma olhada dentro dos depósitos das destiladoras pode ajudar os investidores a escolher melhor onde colocar seu dinheiro.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original

Autor: The Wall Street Journal

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