Obcecado por controle, Tércio Borlenghi viu a Ambipar ruir sob o peso da própria gestão

O mistério sobre o que sobrou do caixa da Ambipar começou a se desfazer nos últimos dias — e o que apareceu foi mais um fio que liga a companhia ao Banco Master.
Documentos tornados públicos mostram que a firma de Tércio Borlenghi Júnior chegou a ter centenas de milhões de reais em CDBs do banco de Daniel Vorcaro, mantidos por meio de um fundo exclusivo da companhia. Até setembro do ano passado, esses papéis foram trocados por um pré-precatório federal — um crédito contra a União sem previsão de pagamento. Assim, R$ 1,2 bilhão do caixa da Ambipar, antes aplicado no Master, virou um ativo sem liquidez.
Passados meses do pedido de recuperação judicial, os documentos mostram uma companhia que declarava um caixa bilionário e viu esse dinheiro derreter mesmo depois de suspender pagamentos a credores.
No centro do caso está o empresário que, três décadas antes, transformou um lixão da família em uma multinacional ambiental — e hoje enfrenta escrutínio semelhante ao de outro nome ligado ao Master, Nelson Tanure.
Tércio sempre acreditou que ninguém conhecia a Ambipar melhor do que ele. E talvez fosse verdade. Obcecado por detalhes e centralizador, nada escapava ao seu radar — de contratos bilionários aos cardápios das confraternizações.
Esse instinto de controle e o jeito personalista de fazer negócios estiveram presentes na transformação da Ambipar em uma gigante global. Mas também fizeram de Tércio o protagonista de uma controversa recuperação judicial com R$ 10,7 bilhões em dívidas.
Descrito como workaholic, Tércio chega cedo e sai tarde. “Ele é um apaixonado pela firma”, diz um executivo.
A Ambipar nasceu como Ambitec em 1995, muito antes de a agenda ESG ganhar força, e criou o primeiro aterro privado de resíduos urbanos e industriais licenciado em São Paulo.
Tércio tinha 25 anos. Formado em direito e com especialização em administração, encontrou na gestão de resíduos sua vocação — e não por acaso. Nos anos 1980, seu pai criou em Tremembé, no Vale do Paraíba, um lixão que recebia areia de fundição da Ford e lixo domiciliar.
Trinta anos depois da fundação, a Ambipar atua em 41 países e emprega 23 mil pessoas.
Tércio também é descrito como ambicioso e reservado. “Ele não é muito de eventos, então, para a maioria das pessoas da firma, é quase uma ‘entidade’”, diz uma pessoa próxima. “É um cara desconfiado, bem à moda italiana. As pessoas do círculo próximo estão com ele há muitos anos.”
Ainda assim, tornou-se figura frequente em reuniões com empresários e políticos organizadas pelo Lide, de João Doria, e pelo Esfera, de João Camargo. Costumava ficar pouco. “Mas se gabava do crescimento dos negócios. Um dia me falou que estava comprando vinte helicópteros de uma vez”, conta um empresário.
A expansão ganhou uma camada de marketing: a Ambipar passou a patrocinar a Fórmula 1 e a Ferrari, enquanto Tércio entrou na lista de bilionários da Forbes.
Uma gigante do lixo
A Ambipar cresceu resolvendo problemas que grandes firmas não queriam administrar diretamente. Seus negócios se dividem entre gestão de resíduos e atendimento a emergências ambientais e industriais.
“Imagina que você é a Petrobras e tem dezenas de contratos de ambulância. A Ambipar ofereceu centralizar tudo: um único contrato, com funcionários treinados, manutenção de equipamentos e nota fiscal”, explica um gestor. “Tudo que era terceirizável e ninguém sabia para quem terceirizar, ela fazia.”
Até 2010, a firma investia com cautela porque usava dinheiro do próprio caixa. Em 2011, já presente no Chile e em Angola, decidiu profissionalizar a gestão para atrair investidores.
É dessa fase o primeiro escândalo profissional de Tércio, quando respondeu a uma denúncia criminal por corrupção no Espírito Santo, envolvendo pagamentos para garantir contratos de coleta de lixo. Foi absolvido pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região por ausência de provas.
Em rédeas curtas
Mesmo depois de se tornar uma companhia bilionária e listada na B3 no início desta década, a Ambipar continuou submetida a uma gestão personalista. “Tudo é com ele e o filho”, contou um ex-conselheiro.
A referência é a Guilherme Borlenghi, de 32 anos, atual diretor de operações. É o nome mais cotado para suceder o pai e, assim como ele, é descrito como centralizador. “Até o cardápio dos eventos com funcionários ele quer saber e dar a palavra final.”
Victor Borlenghi, de 28 anos, também trabalha na Ambipar. O primogênito, Tércio Borlenghi Neto, de 34 anos, lidera negócios próprios, entre eles a Patini. Tércio ainda tem duas filhas do segundo casamento.
O comando hierarquizado contrastava com a imagem moderna que atraiu investidores no IPO, em julho de 2020. Embalada pelo interesse por negócios sustentáveis, a Ambipar levantou R$ 1,08 bilhão.
Com os recursos em mãos e uma tese de expansão por meio de aquisições, Tércio colocou o pé no acelerador. A firma comprou mais de 40 companhias entre 2020 e 2022, em um ritmo sem paralelo — reflexo, segundo pessoas próximas, do estilo ambicioso do fundador.
Mas o pano de fundo começava a virar. A taxa Selic saiu de 2% ao ano no início de 2021 para 13,75% em 2022, encarecendo a dívida usada na expansão.
No início de 2023, a Ambipar levou a divisão Response à Bolsa de Nova York. A listagem ampliava a vitrine internacional do grupo justamente no momento em que a dívida acumulada na sequência de aquisições começava a pesar sobre os resultados.
Nesse ano, Tércio retomou a gestão prometendo controlar gastos. Mas era visto por fontes como “desorganizado” e “com limitações técnicas, embora fizesse sua decisão prevalecer”, diz um ex-conselheiro, que descreve reuniões “escassas e improvisadas”.
Do auge aos problemas
A Ambipar chegou a dar a impressão de que 2024 seria seu ano de ouro. Reduziu o peso da dívida, emitiu títulos “verdes” e viu as ações chegarem a R$ 26,85 em dezembro.
Tércio tentava melhorar a percepção sobre a companhia. A contratação de João Arruda, ex-executivo do Bank of America, como CFO, em agosto de 2024, foi o primeiro passo.
Arruda trouxe mais de 30 executivos de mercado, criou uma diretoria de integração, comitês de eficiência e governança. “Foi um longo banho de loja de governança”, resume uma pessoa próxima à companhia.
A avaliação de quem estava ao seu entorno era a de que a firma crescera muito rápido e, por isso, era preciso descentralizar.
A recuperação se mostraria frágil. Entre maio e agosto de 2024, as ações da Ambipar se valorizaram 863%. Mais tarde, documentos da CVM apontariam uma “atuação orquestrada” entre Banco Master, Nelson Tanure e Borlenghi para elevar o preço dos papéis. Tanure e Borlenghi haviam se conhecido naquele mesmo ano, em um evento do Lide no exterior.
Em paralelo à alta das ações, um fundo, cujos cotistas eram firmas da Ambipar, comprava recebíveis do Everest — fundo que tem Tércio como sócio — ligados a própria Ambipar. Na prática, a operação transferia recursos da companhia para créditos ligados a uma firma do fundador.
Depois, documentos entregues à Justiça mostraram que parte do caixa de R$ 4,7 bilhões estava atrelada a ativos do Master, banco com o qual Tanure acumulava negócios.
A implosão de confiança
Outro alerta apareceu no balanço do segundo trimestre de 2025. A Deloitte informou que, dos R$ 4,7 bilhões em caixa, R$ 2,6 bilhões estavam em aplicações de resgate imediato e R$ 2,1 bilhões em um FIDC com liquidez de 30 a 60 dias. Era um sinal da fragilidade financeira que os documentos publicados agora deixam mais clara. Crescia a desconfiança no mercado.
Tércio passou a visitar bancos para vender debêntures. Levava o que uma fonte chamou de “conta de padeiro”: uma folha de sulfite com dezenas de contas no Brasil e no exterior.
Depois das reuniões, os bancos notavam o mesmo padrão: a Ambipar sacava os recursos mantidos na instituição. Parte foi usada para cobrir garantias exigidas pelo Deutsche Bank após um aditivo que a companhia aponta como estopim da crise e da recuperação judicial.
A Ambipar sustenta que o aditivo foi assinado pelo então CFO João Arruda sem aval da administração. Arruda nega e diz, na Justiça, que o documento foi firmado por Thiago Costa da Silva e Luciana Freire Barca Nascimento, diretores de confiança de Tércio.
Meses depois, os documentos confirmaram o que aquela cena antecipava: o caixa que Tércio carregava numa folha de sulfite já não existia como ele o descrevia. Quase metade dos recursos remanescentes estava em pré-precatórios sem previsão de pagamento e em créditos a receber da própria Ambipar.
Enquanto credores aguardam uma solução, a firma pagou R$ 2,71 bilhões em juros no ano passado — mais da metade já sob proteção judicial, derretendo um caixa já anêmico.
O InvestNews procurou a Ambipar e Tércio Borlenghi, mas ambos não quiseram comentar. Nelson Tanure também não respondeu. A equipe de João Arruda informou que ele não comentaria.
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Autor: Raquel Brandão

