Por que as apostas do mercado em Trump estão desmoronando

Quando Donald Trump foi eleito para um segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, investidores amadores e profissionais correram para identificar quais ações seriam beneficiadas por suas políticas econômicas agressivas.
A estratégia começou de forma promissora, mas o chamado “Trump Trade” — o conjunto de apostas em ativos que poderiam se beneficiar das políticas do presidente — agora está em frangalhos. O Trump Trade Index, da Ned Davis Research, composto por 12 fundos negociados em Bolsa que deveriam ganhar com as políticas da Casa Branca para construção residencial, gastos com defesa e retorno da produção industrial aos Estados Unidos, recuou cerca de 16% desde maio, depois de superar com folga o índice S&P 500 no início do ano. Vários dos ETFs que fazem parte do indicador já acumulam perdas em 2026.
O desmonte dessas apostas está relacionado principalmente ao conflito dos Estados Unidos com o Irã, que elevou os preços da energia, as expectativas de inflação, os juros e o valor do dólar, escreveu a Ned Davis Research em relatório divulgado nesta semana.
“Tudo isso está ligado à guerra com o Irã e à inflação”, afirmou Pat Tschosik, estrategista-chefe de investimentos temáticos da Ned Davis Research. “Será que podemos passar apenas três meses sem algum tipo de choque inflacionário? Entre tarifas, guerras e interrupções nas cadeias de suprimentos, será que conseguimos ficar três meses sem algum choque de oferta?”
A queda ocorre depois de muitas dessas apostas relacionadas a Trump terem registrado ganhos percentuais de dois dígitos nos três primeiros meses do ano. ETFs como o VanEck Rare Earth and Strategic Metals ETF, o Global X Uranium ETF e o Global X Defense Tech ETF chegaram a subir pelo menos 20% em diferentes momentos do primeiro trimestre. Eles preservaram parte da valorização no segundo trimestre, mas acabaram entrando no vermelho.
Os investidores que apostaram no sucesso da agenda de Trump enfrentaram várias decepções neste ano, segundo Matt Gertken, estrategista-chefe de geopolítica da BCA Research. Entre elas estão os efeitos negativos da guerra com o Irã sobre a economia, como o aumento da inflação, que prejudicou os investimentos na indústria e na construção residencial, além do desempenho superior das teses ligadas à inteligência artificial, em detrimento de ações mais dependentes dos ciclos econômicos.
“Os investidores que apostaram em IA e contra os setores cíclicos tradicionais tiveram desempenho melhor. Já aqueles que enxergaram Trump como um defensor da indústria americana, da indústria pesada e do consumo da classe trabalhadora sofreram”, disse Gertken.
Os fluxos de recursos mostram que investidores vêm abandonando algumas dessas operações de maneira constante. O Truth Social God Bless America ETF registra retiradas líquidas em todos os meses desde o início da guerra. Negociado sob o código YALL e com exposição elevada aos setores de energia, indústria e finanças, o fundo caiu mais de 4% neste ano, enquanto o S&P 500 avançou aproximadamente 8%.
Apesar do nome, o fundo não possui ações da Trump Media & Technology Group, dona da Truth Social. Os papéis da firma atingiram repetidas mínimas históricas neste ano, embora tenham se recuperado em julho. Ainda assim, acumulam queda de 35% desde o início do ano.
Nem todos os ETFs relacionados a Trump estão no prejuízo. O Point Bridge America First ETF, que conseguiu registrar o código MAGA, caiu menos que o mercado acionário americano como um todo em março, no início da guerra com o Irã, e continua acumulando valorização no ano.
“A guerra com o Irã está provocando alguma preocupação em relação aos preços da energia”, afirmou Hal Lambert, fundador da Point Bridge Capital. Embora isso represente um obstáculo de curto prazo para as teses ligadas ao retorno da produção industrial aos Estados Unidos, “há muita energia no ETF MAGA”, o que ajudou o fundo a apresentar um desempenho mais ou menos equivalente ao do S&P 500.
Outro desafio é que os investidores têm cada vez mais dificuldade para interpretar as estratégias políticas da Casa Branca e prever como elas serão efetivamente implementadas. Desde a posse de Trump, os investidores em ações foram obrigados a acompanhar uma infinidade de publicações do presidente nas redes sociais e de ordens executivas, tentando antecipar possíveis vencedores e perdedores no mercado — apenas para vê-lo recuar de seus planos ou mudar de direção.

“Há sempre alguma coisa: a guerra com o Irã, as tarifas”, disse Michael O’Rourke, estrategista-chefe de mercado da JonesTrading Institutional Services. “Chegamos ao ponto em que os investidores estão tentando ignorar essas políticas o máximo possível, porque simplesmente não conseguem calcular seus efeitos.”
A fonte mais recente de incerteza é a decisão do governo Trump de substituir a tarifa global temporária de 10% sobre produtos que entram nos Estados Unidos, que havia expirado, por medidas direcionadas com base na Seção 338 da Lei Tarifária de 1930.
Trump também impôs nesta semana tarifas de 50% sobre uma série de produtos do Canadá, maior mercado individual para as exportações americanas, entre eles cerveja, vinho, papel e tacos de hóquei. Outros países devem ser atingidos por novas tarifas específicas com base na Seção 338, tendo China e Europa como os próximos alvos mais prováveis, escreveu Chris Krueger, analista da TD Cowen, em relatório de 20 de julho.
“Este realmente não é o momento para insistir nisso”, considerando que a inflação e os preços do petróleo estão elevados e que os investidores temem uma desaceleração da expansão das margens das firmas, afirmou Mark Malek, diretor de investimentos da Muriel Siebert.
“Precisamos ser muito, muito cuidadosos neste momento”, acrescentou. Segundo ele, o mercado acionário já conseguiu subir apesar do fechamento do Estreito de Ormuz em consequência da guerra com o Irã — e, com isso, já gastou seu único passe livre para escapar de uma situação difícil.
Ainda assim, embora as apostas relacionadas a Trump pareçam estar contra as cordas, alguns apoiadores mais fiéis do presidente acreditam que seria um erro abandoná-las agora. Lambert, da Point Bridge Capital, um republicano de longa data que participou do comitê da primeira posse de Trump, acredita que as políticas do presidente ainda produzirão vencedores no mercado acionário.
“É uma estratégia de longo prazo”, afirmou. “Não se constrói uma fábrica da noite para o dia.”
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: Bloomberg

