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A estratégia da Ford e da GM para ir além dos carros ainda desperta ceticismo

A Ford Motor e a General Motors (GM) estão olhando além dos carros. Se a história se repetir, os investidores podem se arrepender de ver as firmas desviando o foco. Será que desta vez será diferente?

Em maio, as ações da Ford dispararam até 45%, adicionando quase US$ 23 bilhões em valor de mercado, nas semanas após o anúncio oficial da Ford Energy, uma unidade de armazenamento de baterias em escala de rede elétrica que atenderá às necessidades de energia de grandes firmas de inteligência artificial (hyperscalers) e concessionárias de energia. As ações recuaram desde então, mas ainda acumulam alta superior a 20% desde o lançamento da Ford Energy.

A companhia também está retornando ao setor de defesa, após conquistar recentemente um contrato para fabricar caminhões táticos para o Exército dos Estados Unidos.

As ações da GM subiram 16% desde a divulgação dos resultados mais recentes, quando a firma elevou sua projeção para o ano e apresentou detalhes sobre seus próprios negócios de defesa e armazenamento de baterias em escala de rede. Na teleconferência de resultados, a presidente-executiva da GM, Mary Barra, afirmou que essas áreas representam oportunidades para melhorar as margens e reduzir a ciclicidade da firma.

Os investidores, porém, talvez devam manter as expectativas sob controle. Esses negócios são promissores, mas ainda não foram comprovados, e as montadoras têm um histórico irregular de diversificação.

As montadoras têm bons motivos para olhar além dos veículos, mesmo que o negócio principal pareça sólido hoje. Os SUVs de alta margem da Ford e da GM continuam vendendo bem, e ambas elevaram suas projeções anuais pela segunda vez neste ano. Mas as firmas sabem que esse período favorável não deve durar para sempre.

As fabricantes chinesas de veículos elétricos representam uma ameaça crescente, embora estejam sendo contidas por restrições às importações. A perspectiva de longo prazo para a indústria automotiva tradicional é difícil: menos jovens estão tirando carteira de motorista, os preços dos carros novos estão fora do alcance de muitos americanos e os veículos estão durando muito mais do que no passado.

“A indústria está em declínio”, afirmou Tom Narayan, analista de ações do RBC, acrescentando que fornecedores automotivos também estão diversificando seus negócios.

As montadoras americanas se encontram em uma situação semelhante à dos anos 1980. Naquela época, o governo dos EUA conteve temporariamente as firmas japonesas ao restringir importações. Essa medida, combinada com uma economia em forte crescimento, ajudou as montadoras de Detroit a registrar grandes lucros, que posteriormente foram direcionados para a busca por novos negócios.

Nos anos 1980, a Ford comprou firmas de serviços monetários, incluindo a First Nationwide e a Associates, acreditando que esses negócios seriam fontes de receita mais estáveis. A GM comprou uma firma de tecnologia da informação para ajudar a automatizar suas fábricas e adquiriu a fabricante de equipamentos de defesa Hughes Electronics em uma tentativa de desenvolver carros mais avançados. No total, a GM investiu mais de US$ 40 bilhões em seu esforço de automação.

Mas essas tentativas de diversificação fracassaram.

A Ford ficou atrás do Japão em tecnologia de motores, em parte porque gastou dinheiro demais diversificando em vez de se concentrar no negócio principal, segundo um analista do setor em um artigo publicado pelo Los Angeles Times em 1990.

A produtividade das fábricas da GM, na verdade, caiu durante o período de grandes investimentos em automação nos anos 1980, de acordo com pesquisas de Marvin Lieberman e Rajeev Dhawan, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA).

Mais recentemente, Ford e GM tiveram grandes baixas contábeis após pesados investimentos em veículos elétricos.

O argumento otimista desta vez é que Ford e GM não estão gastando quantias enormes nem se afastando muito de suas áreas de conhecimento. Mas seus novos negócios também terão pouco impacto nos resultados no futuro próximo.

O negócio de armazenamento de energia da Ford, por exemplo, envolve a adaptação de sua fábrica de baterias para veículos elétricos no Kentucky. O projeto custará US$ 2 bilhões entre 2026 e 2027, cerca de 10% de todo o investimento de capital esperado pela firma nesse período.

Os veículos militares para tropas da GM são baseados em um caminhão off-road e usam principalmente peças comerciais já disponíveis. Há menos informações sobre a iniciativa separada da GM para produção de armas em parceria com a Lockheed Martin, mas a montadora afirma que pretende investir em negócios próximos ao seu setor principal de maneira eficiente em termos de capital.

Esses novos segmentos têm perspectivas muito mais promissoras do que a indústria automotiva. Os gastos com defesa estão aumentando em um mundo marcado por conflitos. A demanda americana por armazenamento de energia deve crescer a uma taxa anual composta de 38% até 2030, segundo o Morgan Stanley.

Ao mesmo tempo, existem generosos subsídios federais para armazenamento de energia fabricado nos Estados Unidos. Isso dá à indústria automotiva uma vantagem única: as montadoras têm capacidade excedente de produção de baterias, cadeias de fornecimento estruturadas e experiência em fabricação em larga escala, segundo Andrew Percoco, analista de ações do Morgan Stanley.

Esses setores também oferecem potencial para múltiplos de avaliação muito maiores. firmas de defesa do índice S&P 500 negociam a cerca de 30 vezes o lucro futuro. Ações ligadas ao armazenamento de energia, como Fluence Energy e Tesla, negociam com múltiplos ainda mais elevados.

Já Ford e GM negociam a apenas 7,8 vezes e 6,2 vezes o lucro esperado, respectivamente.

Mas uma reavaliação desse tipo não deve acontecer tão cedo.

A GM Defense deve gerar US$ 700 milhões em receita neste ano, uma pequena fração para uma firma cuja receita total projetada para 2026 chega a US$ 186 bilhões. A companhia acredita que o segmento pode crescer a uma taxa anual composta superior a 30% nos próximos anos, com margens de dois dígitos.

Mesmo que a GM Defense cresça a uma média de 35% ao ano e tenha margens operacionais semelhantes às de firmas do setor de defesa, sua contribuição para o lucro operacional seria inferior a 1,5% em 2030.

A Ford Energy assinou seu primeiro contrato com cliente e deve começar a entregar produtos no fim de 2027. O analista do Morgan Stanley Andrew Percoco estima que a unidade poderá gerar US$ 588 milhões em lucro operacional em 2029.

Esse valor representaria cerca de 5% do lucro operacional total esperado por Wall Street para a Ford naquele ano — uma contribuição relevante, mas que não transformaria a companhia. Para aumentar esse impacto, a Ford teria de investir em mais capacidade de produção.

A preocupação não é a intenção da Ford e da GM de diversificar, que parece razoável. O problema é que elas continuam se colocando em uma posição defensiva, chegando tarde a novos mercados ou buscando soluções fora de seu negócio principal.

A corrida pelos veículos elétricos foi impulsionada pelo desejo de seguir uma tendência valorizada pelos investidores. E as iniciativas de diversificação dos anos 1980 foram influenciadas, ao menos em parte, pela cultura corporativa de expansão para novos negócios que estava em alta naquele período, segundo Edgar Faler, analista do Center for Automotive Research.

O risco agora é que as montadoras americanas estejam novamente atrasadas para capturar tendências atuais ou que essas novas iniciativas desviem atenção de seu negócio principal.

Antecipação nunca foi o ponto forte das montadoras americanas. Essa é uma das razões pelas quais os investidores devem observar com cautela suas novas apostas.

Escreva para Jinjoo Lee em jinjoo.lee@wsj.com.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original

Autor: The Wall Street Journal

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