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A outra pausa para hidratação da Copa do Mundo: uma corrida de alta velocidade por cerveja

Em uma Copa marcada por tensão e intrigas geopolíticas, poucas coisas dividiram tanto opiniões quanto as chamadas “pausas para hidratação”. As interrupções de três minutos, realizadas na metade de cada tempo, foram criticadas ao redor do mundo como uma forma de favorecer patrocinadores, quebrar o ritmo do jogo e ferir o espírito do futebol.

Há, porém, um grupo sedento que adora essas pausas — e não são os jogadores que passam 90 minutos correndo sob o calor.

Nos estádios espalhados pelos Estados Unidos, as pausas para hidratação se transformaram em verdadeiras corridas para comprar cerveja.

“Foi exatamente assim que eu encarei”, disse o torcedor americano Daniel Bonner durante a partida entre Estados Unidos e Austrália, em Seattle. Como fã de futebol, porém, ele admitiu: “Eu odeio essas pausas”.

A FIFA, entidade máxima do futebol mundial, afirma que as interrupções são necessárias para proteger os atletas do calor do verão norte-americano — ainda que cinco dos 16 estádios do torneio sejam cobertos ou totalmente fechados.

Na prática, porém, essas pausas ajudaram a transformar esta edição em uma das Copas mais alcoólicas já realizadas. Quatro anos depois de o Catar retirar a venda de cerveja dos estádios às vésperas do Mundial, as arenas da NFL nos Estados Unidos oferecem bebidas em abundância, incluindo cervejas, coquetéis e bebidas alcoólicas gaseificadas.

No futebol, normalmente é mais difícil consumir álcool durante a partida. Na Inglaterra, por exemplo, regras criadas para combater o hooliganismo proíbem beber “com vista para o gramado” a partir de 15 minutos antes do início do jogo. Isso não significa que os torcedores fiquem sóbrios — apenas que costumam beber antes da partida e lotar os corredores do estádio no intervalo.

Nesta Copa, porém, a FIFA deu aos torcedores mais oportunidades do que nunca para reabastecer os copos sem perder nenhum lance. A pausa para hidratação poderia muito bem ser chamada de “pausa para bebida”.

“Eu gosto”, disse Rey Fernandez, torcedor da Argentina residente em Los Angeles, durante uma partida de Lionel Messi contra a Áustria. “Mas é algo muito americano.”

E os americanos parecem aprovar a novidade.

Quando começou o confronto entre Estados Unidos e Austrália na semana passada, não havia ninguém na fila de uma lanchonete localizada atrás do gol australiano. Uma funcionária, entediada, mexia no celular.

Tudo mudou exatamente 23 minutos e 56 segundos depois.

Assim que o árbitro apitou para a pausa de hidratação, torcedores correram para comprar bebidas. Eles tinham apenas 180 segundos para chegar ao balcão, fazer o pedido e voltar aos seus lugares antes da retomada do jogo.

“As pausas para hidratação são uma besteira. É só uma forma de ganhar dinheiro… mas pelo menos consigo pegar minhas cervejas”, afirmou outro torcedor americano. “Para mim é uma experiência nova conseguir sair no meio do primeiro tempo.”

Bonner já era veterano dessa operação. Morador de Nova Jersey, ele havia assistido ao primeiro jogo dos EUA em Los Angeles antes de viajar para Seattle. Apesar das críticas às pausas, passou a enxergá-las como uma oportunidade de reabastecer os estoques.

“Se eu pudesse, teria comprado mais antes”, disse. “Mas só é permitido comprar duas bebidas por pessoa.”

E há maneiras ainda mais fáceis de conseguir álcool. Diferentemente da maioria dos estádios europeus, muitas arenas americanas contam com vendedores ambulantes circulando pelas arquibancadas com caixas térmicas cheias de latas de cerveja.

O resultado é uma combinação de fatores que faz desta a Copa do Mundo mais movida a álcool já registrada. Cidades inteiras assistiram impressionadas à invasão de torcedores estrangeiros consumindo grandes quantidades de bebida.

Os torcedores escoceses, conhecidos como “Exército Tartan”, praticamente esgotaram os estoques de cerveja em Boston.

Um pub em Dallas relatou ter vendido 5 mil cervejas para torcedores ingleses antes da partida contra a Croácia. Já a cidade da Filadélfia autorizou temporariamente os bares a permanecerem abertos até as 4h da manhã, em vez das habituais 2h, para atender os visitantes da Copa.

Agora, graças às pausas para hidratação, os torcedores nunca ficam mais de 22 minutos e meio sem a oportunidade de comprar outra cerveja — gostem ou não da interrupção.

“Acho que os fãs de futebol vão ter que aprender a conviver com isso”, disse Fernandez.

Ainda assim, ao menos um torcedor em Seattle usou a pausa exatamente para a finalidade pretendida.

Assim como os jogadores, Berly Nelson sentia o calor intenso no estádio Lumen Field. O segundo jogo dos Estados Unidos na Copa já era sua quarta partida no torneio e, naquele momento, ele havia se tornado um raro defensor dessas interrupções.

Além de permitir uma ida rápida ao banheiro e um alívio do calor, as pausas deram a Nelson a chance de comprar uma garrafa de água para sua filha.

“Normalmente eu jamais faria isso por medo de perder alguma coisa”, afirmou. “Quem acompanha futebol sabe o quanto é frustrante sair para ir ao banheiro durante um jogo de mais de 90 minutos e acabar perdendo justamente o único gol da partida.”

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Autor: Karla Mamona

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