Brasil voa menos do que em 2019; vizinhos como a Colômbia já deixaram o país para trás
O Brasil bateu recorde em 2024: mais de 100 milhões de passageiros domésticos em um único ano. Mas quando o assunto é conectividade (o número de rotas, frequências e destinos disponíveis), o país ainda não voltou ao patamar de antes da pandemia.
Os dados são da Iata, a associação internacional do setor aéreo, apresentados neste sábado (6) no Rio de Janeiro, na 82ª Assembleia Geral Anual da Associação. É a primeira vez desde 1999 que a Iata promove seu encontro anual na América do Sul.
Entre 2019 e 2025, o Brasil perdeu 85 rotas, queda de 9,9%. As frequências recuaram 4,5%. O número de assentos cresceu 4%, o que indica aviões maiores, mas menos voos para mais destinos.
E o cenário pode piorar. O combustível representa entre 30% e 40% dos custos operacionais das companhias aéreas, e a volatilidade dos preços segue pressionando a rentabilidade das rotas, o que tende a acelerar cortes de destinos menos lucrativos
A Colômbia, porém, foi na direção oposta. No mesmo período, ganhou 49 rotas (alta de 21%), expandiu as frequências em 18,4% e quase dobrou a capacidade de assentos, com crescimento de 42,5%. A República Dominicana também avançou: 6,3% em rotas e 41,9% em assentos.
“As condições de mercado e as políticas públicas fazem diferença”, disse Peter Cerdá, vice-presidente regional das Américas da Iata, durante o evento.
Para a Iata, a explicação central para a diferença de desempenho entre os países está na carga tributária e nas decisões regulatórias de cada governo. Na América Latina e no Caribe, impostos e tarifas representam 29% do preço médio das passagens aéreas. Na América do Norte, esse índice é de 15%. No Oriente Médio e na Ásia-Pacífico, 15% e 17%, respectivamente.
O Brasil enfrenta agora uma pressão adicional, segundo a associação. A proposta de IVA em discussão no país elevaria a alíquota sobre passagens para 26,5%.
A Iata projeta que, se aprovada, a medida derrubaria a demanda em 30% e aumentaria a passagem doméstica média de US$ 130 para US$ 160. No caso dos voos internacionais, o salto seria de US$ 740 para US$ 935. “Em um país que mal chega a uma viagem por pessoa por ano, o alto custo sempre vai se traduzir em menos passageiros e menos conectividade”, disse Cerdá.
Menos avião e mais ônibus
A América Latina saiu de 0,51 viagem por habitante por ano em 2015 para 0,88 em 2025. Há progresso, mas ainda representa um terço da média da América do Norte (2,59) e menos de um sexto dos níveis de Espanha (5,12) e Portugal (5,55).
Segundo Cerdá, o verdadeiro concorrente das companhias aéreas na região não é outra aérea: é o transporte via ônibus.
“Em viagens de 8 a 16 horas de ônibus, que de avião durariam 2 ou 3 horas, a tarifa básica é praticamente a mesma. O problema são todos os custos adicionais que incidem sobre o aéreo e não incidem sobre o transporte terrestre.”
LEIA MAIS: O Galeão renasceu em uma canetada. E agora o aeroporto passa por seu maior teste
A Iata, porém, mantém certo grau de otimismo dado o crescimento dos voos dentro da própria região. Desde 2016, a capacidade intra-regional cresceu 34 milhões de assentos.
No primeiro semestre de 2026, a oferta chegará a 211,6 milhões de assentos, ante 177,5 milhões no mesmo período de 2016, numa alta de 19%. Parte desse crescimento vem de rotas que conectam cidades secundárias sem passar pelos grandes hubs.
A projeção de longo prazo também é favorável. A Iata estima crescimento anual de 3,7% no número de passageiros na América Latina e no Caribe entre 2026 e 2040 — na linha da média global e acima dos Estados Unidos (2,8%).
“O potencial está aqui”, disse Cerdá. “Se tivermos as políticas certas, a infraestrutura adequada e a aviação acessível, esse número será superado com facilidade.”
Copa como janela
O Mundial de 2026, sediado em Estados Unidos, México e Canadá, entra no discurso da IATA como um catalisador — e como um teste. Milhões de visitantes passarão pela região nos próximos meses. Companhias aéreas da Europa, do Canadá e da China estão ampliando rotas para a América Latina.
Mercados como Argentina, El Salvador e Guiana registram crescimento de conectividade.
Para a Iata, porém, há o risco de a falta de ajustes na infraestrutura e na política tributária fechar essa janela sem deixar legado. “A aviação na América Latina não é luxo. É serviço essencial”, diz Cerdá.
O que achou dessa notícia? Deixe um comentário abaixo e/ou compartilhe em suas redes sociais. Assim deixaremos mais pessoas por dentro do mundo das finanças, economia e investimentos!
Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: Raquel Brandão
