Corrida para romper o domínio da China em terras raras chega ao Brasil
POÇOS DE CALDAS, Brasil — firmas ocidentais estão despejando investimentos na indústria de terras raras no Brasil, na esperança de que o país sul-americano ajude a enfraquecer o domínio da China sobre os minerais usados em veículos elétricos, turbinas eólicas e armamentos avançados.
Mineradoras correm para desenvolver depósitos em todo o Brasil, que possui as segundas maiores reservas de terras raras do mundo, atrás apenas da China. Mas suas ambições vão além da extração. firmas e autoridades afirmam que querem construir plantas de processamento capazes de separar elementos de terras raras, produzir metais e, eventualmente, fabricar ímãs.
Se isso se concretizar, representaria um desafio muito maior à China. Embora Pequim detenha cerca de metade das reservas globais de terras raras, controla mais de 90% do processamento e da produção de ímãs, o que lhe dá influência dominante sobre as cadeias globais de suprimento.
“Isso é uma geologia de classe mundial”, disse Rafael Moreno, CEO da mineradora listada na Austrália Viridis, uma das várias firmas que desenvolvem projetos no sudeste do Brasil. “O Brasil está agora posicionado para desempenhar um papel cada vez mais estratégico no fornecimento de minerais críticos às economias ocidentais.”
A iniciativa transformou o Brasil em um ponto central da disputa entre Washington e Pequim por minerais estratégicos. Os Estados Unidos têm buscado terras raras globalmente, apoiando projetos da África à Austrália para reduzir a dependência da China.
Ainda assim, o Brasil resistiu à pressão para integrar um bloco mineral liderado pelos EUA, insistindo que aceitará investimentos de qualquer país disposto a desenvolver o setor.
“O Brasil está aberto a investimentos de qualquer país que respeite nossa soberania”, disse o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. “Temos conversado com vários atores estrangeiros, incluindo EUA, União Europeia, China e outros.”
Poços de Caldas
Poços de Caldas, cidade construída na caldeira de um vulcão extinto, tornou-se um dos centros dessa corrida. Uma estátua do Cristo Redentor domina uma paisagem rica em depósitos de argila que mineradoras acreditam poder redesenhar cadeias globais de suprimento.
Após abrir uma planta-piloto no mês passado, a Viridis planeja iniciar a produção em 2028, incluindo terras raras pesadas mais escassas, essenciais para ímãs que mantêm sua força em altas temperaturas — fundamentais para tudo, de veículos elétricos a jatos militares.
Assim como muitos depósitos brasileiros, os recursos da Viridis estão em argila, o que executivos dizem ser mais barato e mais fácil de processar do que os depósitos em rocha dura comuns na Austrália. Energia hidrelétrica barata, custos trabalhistas relativamente baixos e proximidade com o mercado dos EUA também aumentam o interesse dos investidores.
Por anos, terras raras atraíram pouca atenção fora do setor de mineração. Isso mudou em 2025, quando a China impôs controles de exportação sobre vários elementos e ímãs em resposta às tensões comerciais com Washington, expondo a dependência ocidental das cadeias de suprimento chinesas.
Governos e fabricantes ocidentais passaram a correr para desenvolver alternativas.
Sob o presidente Donald Trump, os EUA têm apoiado o setor com financiamento, contratos de compra e preços garantidos, em uma tentativa de evitar que a China expulse concorrentes do mercado ao inundar a oferta global.
Grande parte desses investimentos está indo para o Brasil. O país tem cerca de 21 milhões de toneladas de terras raras, aproximadamente um quarto das reservas globais, segundo o Serviço Geológico dos EUA. Mais de 3.000 pedidos de pesquisa mineral relacionados a terras raras foram feitos desde o início de 2023, contra 476 entre 1975 e 2020, segundo a Agência Nacional de Mineração.
Mineradoras australianas como Viridis e Meteoric avançam em depósitos vizinhos em Poços de Caldas, enquanto a canadense Aclara desenvolve um projeto no estado de Goiás. Em abril, a USA Rare Earth, apoiada por financiamento do governo dos EUA, concordou em pagar US$ 2,8 bilhões para adquirir a Serra Verde, a única grande produtora fora da Ásia que extrai terras raras de argila.
A questão central é o que acontece depois disso.
Hoje, a maior parte da cadeia de terras raras ainda depende da China nas etapas mais lucrativas de processamento, que separam os elementos e os transformam em metais, ligas e ímãs usados em eletrônicos do dia a dia. O Brasil quer ampliar sua participação nesse segmento.
Brasil não pode ser exportador
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que não quer que o Brasil seja apenas exportador de matérias-primas. Em vez disso, defende que investidores estrangeiros ajudem a construir uma indústria doméstica capaz de gerar empregos e tecnologia de maior valor agregado.
Investidores esperavam que minerais críticos fossem tema central na reunião de Lula com Trump na Casa Branca no mês passado. Nenhum acordo foi fechado. Lula depois afirmou que o Brasil não favoreceria nenhuma nacionalidade. “Não temos preferência”, disse.
Assim como outras mineradoras, a Viridis planeja inicialmente exportar as terras raras produzidas em seu projeto Colossus, de US$ 360 milhões. O material seria enviado para uma planta de separação operada pela firma franco-belga Solvay.
Na década de 2030, porém, a firma espera realizar parte do processamento no Brasil e reciclar resíduos de ímãs gerados na fabricação.
Construir uma cadeia completa de suprimento leva tempo, disse Moreno.
A velocidade desse avanço depende em parte da política brasileira. Executivos do setor alertam que exigências excessivamente rígidas de conteúdo local podem afastar investimentos, enquanto regras muito flexíveis podem manter o país apenas como exportador de minério bruto.
O Congresso brasileiro ainda finaliza a legislação sobre minerais estratégicos. A relutância de Lula em apoiar uma estatal de terras raras tranquilizou parte dos investidores.
O maior desafio para Washington pode ser a determinação do Brasil em permanecer neutro.
Mineradoras têm se posicionado como peças-chave na construção de uma cadeia de terras raras fora da China. A Serra Verde, que historicamente enviava material para processamento na China, assinou recentemente um contrato de fornecimento de 15 anos apoiado por agências do governo dos EUA e investidores privados. A Viridis e outras firmas também mantêm conversas com a U.S. International Development Finance Corporation.
Ainda assim, o Brasil tem mostrado pouco interesse em restringir o acesso chinês aos seus recursos minerais.
Pequim continua investindo fortemente em ativos de mineração no Brasil. A fabricante chinesa de veículos elétricos BYD e outras firmas também estão levando o tipo de investimento industrial que Brasília há muito deseja.
Isso levanta uma possibilidade que preocupa parte dos executivos e formuladores de política no Ocidente: o Brasil pode emergir como uma potência em terras raras sem necessariamente fazer parte da cadeia de suprimentos ocidental.
“Há uma enorme oportunidade aqui para o Brasil”, disse o analista Reg Spencer, da Canaccord. “Mas o fator complicador é a decisão de não escolher lados.”
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Autor: Karla Mamona
