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JBS redobra aposta americana mesmo com crise do gado e cerco de Trump

Sob pressão do governo dos Estados Unidos desde a pandemia, a indústria de carnes enfrenta uma nova ofensiva do presidente Donald Trump, que culpa os frigoríficos de capital estrangeiro pelo preço recorde da carne bovina nos supermercados americanos.

Esse mercado se concentra em quatro grandes companhias, que respondem por cerca de 85% do abate. Duas são controladas por brasileiros. A maior delas é a JBS, da família Batista, líder em carne bovina no país e a maior processadora de carnes do mundo. Virou, assim, um dos principais alvos. 

Para se defender, o grupo adota um discurso apaziguador: o de uma firma cujo futuro está cada vez mais ligado aos Estados Unidos. “Estamos bastante otimistas em investir nos EUA”, declarou Wesley Batista Filho, neto do fundador e CEO da operação americana do grupo, em um evento promovido pelo The Wall Street Journal no início desta semana.

Enquanto a rival Tyson Foods fechou de vez sua fábrica de carne bovina em Lexington, Nebraska, em janeiro, a primeira das grandes a desativar uma planta na atual crise de gado nos EUA, Wesley Filho lembrou que a JBS foi na direção oposta e resolveu reformar a sua em Cactus, no Texas. 

A unidade em questão é uma das maiores unidades de abate bovino do país: emprega mais de 3.600 pessoas e paga cerca de US$ 3,3 bilhões por ano aos pecuaristas da região pelo gado que processa. 

A JBS pretende injetar US$ 150 milhões na planta, com um novo piso de desossa e uma sala ampliada de carne moída, e prevê concluir as obras no início de 2027. “Estamos modernizando nossa planta no Texas para deixá-la pronta para os próximos 30, 40, 50 anos”, disse. “Vai ser, com sorte, a melhor do Texas.”

Wesley Batista Filho, CEO da JBS USA (Seeger Gray/WSJ)

A relevância do mercado americano não é só retórica. Metade da receita da JBS já vem dos EUA, que devem receber mais US$ 800 milhões em aportes neste ano, incluindo duas fábricas novas, em Iowa e na Geórgia.

“Uma parcela cada vez maior da nossa receita deve vir dos EUA”, disse o executivo. No primeiro trimestre, a maior unidade do grupo, a de carne bovina americana, faturou US$ 7,2 bilhões, mas fechou o período no vermelho. A escassez de gado nos EUA encareceu a compra do boi e comprimiu as margens.

A importância dos Estados Unidos para a JBS também pode ser vista também na migração da listagem da companhia do Brasil para a Bolsa de Nova York, que completa um ano neste mês. “Há pouquíssimos países no mundo [como os EUA] com o conhecimento, os recursos naturais e a estabilidade jurídica para fazer o que fazemos”, prosseguiu Wesley Filho.

Crise do boi nos EUA

Enquanto reforça a aposta nos Estados Unidos, a JBS enfrenta um cerco crescente do próprio governo americano.  No mês passado, o Departamento de Justiça abriu uma investigação antitruste contra as quatro maiores processadoras de carne bovina do país: Tyson Foods, JBS, Cargill e National Beef

Duas delas são controladas por brasileiros: JBS e a National Beef, controlada pela MBRF, do empresário Marcos Molina. Ao pedir a apuração, em novembro, Trump responsabilizou os “frigoríficos majoritariamente de capital estrangeiro” pela alta dos preços da carne bovina.

O cerco não é novo, mas mudou de patamar. A investigação anterior, aberta em 2020, durante a pandemia, foi encerrada sem acusações no ano passado, poucas semanas antes de Trump pedir uma nova. 

A apuração quer descobrir se os frigoríficos combinaram entre si a forma como compram gado dos pecuaristas. O Departamento de Justiça abriu até um canal para delatores, com recompensa a quem ajudar a comprovar irregularidades.

Na esfera civil, o histórico é mais antigo e fragmentado. Desde o começo da década, os quatro grupos respondem a uma série de ações movidas por pecuaristas, consumidores, atacadistas e redes como o McDonald’s, que os acusam de coordenar, desde meados dos anos 2010, a redução do abate para pagar menos ao produtor e cobrar mais do consumidor. 

JBS em negociação na NYSE, a Bolsa de Nova York
JBS em negociação na NYSE, a Bolsa de Nova York (Divulgação)

As firmas vêm fechando acordos aos poucos, sem admitir culpa. A JBS assinou um acordo de US$ 83,5 milhões, homologado pela Justiça em agosto de 2025, para encerrar a ação dos pecuaristas, e se comprometeu a cooperar com as autoridades. Tyson e Cargill fecharam acordo de US$ 87,5 milhões juntas na ação movida por consumidores.

A pressão política, porém, convive com uma crise estrutural real. O rebanho americano caiu a 86,2 milhões de cabeças em janeiro, o menor nível desde 1951. Anos de seca e custos altos encolheram o gado, e repor um animal leva de três a quatro anos. “A oferta de gado é uma das coisas mais inelásticas que existem”, disse Wesley Filho. “Uma decisão de hoje só afeta a oferta daqui a três, quatro anos.”

O paradoxo é que preço recorde não vira lucro para quem abate. “Oferta e demanda, simples assim. Há muito mais capacidade de processamento do que gado disponível”, resumiu o executivo. Falta boi, sobra capacidade ociosa, e as margens evaporaram. 

A National Beef viu a sua ir a perto de zero, e a Tyson projeta prejuízo na divisão de carne bovina neste ano. A JBS sente menos porque tem Austrália e Brasil em ciclos de oferta mais favoráveis para compensar.

“Se existisse mesmo um cartel, seria o cartel mais burro do mundo… só perde dinheiro”, avalia um executivo do setor ouvido pelo InvestNews.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Rikardy Tooge

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