Na Oktoberfest em Munique, a tradição da cerveja foi parar no banco dos réus sob acusação de cartel
A cerveja não é apenas uma bebida ali. É tradição e identidade. E, para alguns, motivo para uma guerra antitruste.
Há gerações, os mesmos fabricantes de cerveja servem cada gota da bebida na Oktoberfest em Munique, na Alemanha.
Os organizadores dizem que se trata de preservar a pureza da celebração bávara. Os críticos chamam isso de um cartel descarado. Uma disputa se desenha sobre quem pode, exatamente, vender cerveja, administrar tendas e participar da festa de outras formas.
“É a batalha mais difícil que se pode travar em Munique”, disse Steffen Marx, que sonha em vender a cerveja de sua Giesinger Bräu na Oktoberfest desde que fundou a cervejaria em uma garagem, em 2006. Ele já reuniu 21 mil das 35 mil assinaturas necessárias para convocar um referendo municipal que poderia levar sua cerveja para dentro dos portões do evento no próximo ano.
A cada outono no hemisfério norte, Munique é tomada pela Oktoberfest. Neste ano, a expectativa é que 6,7 milhões de foliões cheguem à cidade a partir de 19 de setembro para beber cerveja e injetar estimado US$ 1,8 bilhão na economia.
Para preservar o caráter do festival, a cidade só permite cervejas de fabricantes de Munique aprovados, “estabelecidos e respeitáveis”, que produzam segundo uma lei de pureza de 1487: com cevada, lúpulo e água obtida de um poço dentro dos limites municipais.
Como resultado, seis cervejarias fornecem todas as bebidas alcoólicas do evento há décadas. Até mesmo o príncipe da Baviera — cuja família criou a Oktoberfest — foi barrado.
Marx se empenhou para cumprir o padrão de pureza. Ele buscou durante dois anos uma licença para perfurar o poço e levantou € 12,4 milhões para escavar o terreno da Giesinger, ao lado de uma unidade de pesquisa de baterias da BMW.
Agora, precisa do aval do conselho municipal ou da aprovação por referendo popular para entrar na lista de fornecedores autorizados.
As regras protegem a qualidade e o caráter do festival, disse Christian Scharpf, chefe de Trabalho e Assuntos Econômicos de Munique e responsável pela Oktoberfest.
A tradição de quem bebe é o cartel de outra pessoa. O advogado alemão especializado em concorrência Fabian Vetter afirmou que o controle do mercado pelas grandes firmas de cerveja lager parece um arranjo suspeito — do qual o próprio Estado da Baviera participa, por ser proprietário de uma delas.
Lukas Kestler, outro advogado alemão especializado em concorrência, disse que Munique tem o direito de definir as regras do festival e escolher as cervejarias que as cumprem. A Oktoberfest não seria um cartel porque as regras não são estabelecidas pelos participantes, acrescentou.
Nem Vetter nem Kestler representam participantes ou candidatos a participar da Oktoberfest.
Scharpf afirmou que as regras atuais para a cerveja já foram mantidas pela Justiça.
Até príncipe foi barrado
O príncipe Luitpold da Baviera tentou, nos anos 1980, colocar sua cerveja na Oktoberfest. A cervejaria dele ficava inicialmente fora dos limites da cidade. Quando se ofereceu para levar uma fábrica móvel e produzir no terreno do festival, a cidade recusou, sob o argumento de que muitos outros produtores também desejariam fazer o mesmo.
Depois, ele abriu uma cervejaria permanente em um parque de Munique, mas a cidade a proibiu de vender cerveja para consumo fora do local e afirmou que ela não tinha capacidade de produção suficiente.
“Faça o que fizer, a cidade de Munique tentará encontrar novas desculpas para barrar novos fornecedores”, disse o príncipe. Ele processou a cidade, alegando cartel e monopólio de vendas.
Os juízes não se sensibilizaram com o fato de os antepassados de Luitpold produzirem cerveja na região desde 1260, terem redigido a lei de pureza e criado a Oktoberfest para o casamento, em 1810, de seu tataravô, o rei Ludwig I. Um tribunal de Munique decidiu contra Luitpold em 1990.
Da cerveja… às tendas
Neste ano, a discussão se estendeu às tendas que abrigam as festividades. Essas estruturas podem ser maiores do que um campo de futebol, ter vários andares e acomodar 8 mil pessoas.
O restaurante local Münchner Stubn processou a cidade em maio, após perder licitações para administrar tendas maiores. A firma alega que o processo favorece famílias que administram tendas há gerações ao atribuir pontos pela tradição.
Scharpf disse que os tribunais já mantiveram o processo de licitação no passado. A Suprema Corte da Baviera analisará o caso em 11 de setembro.
Alexander Egger, CEO do Münchner Stubn, quer que as licitações sejam abertas a fornecedores de toda a União Europeia. Segundo ele, isso aumentaria a concorrência e reduziria os preços.
No ano passado, algumas tendas, inclusive a dele, cobravam € 15,80 (US$ 18,55) por um litro de cerveja — cerca de 30% acima dos preços típicos no centro de Munique.
A ação alimentou temores de que, se firmas estrangeiras administrarem as tendas, poderão introduzir cervejas e alimentos de outros países.
“Não seria um cenário horrível se tivéssemos de beber pequenos copos de Kölsch, ou se döner kebab e pizza estivessem em cada esquina do terreno do festival?”, perguntou Christian Schottenhamel, cuja família opera a tenda mais antiga da Oktoberfest desde 1867, em um vídeo publicado no Instagram em maio. A Kölsch é originária de Colônia, cidade a cerca de 560 quilômetros de distância.
Egger, natural de Munique e frequentador da Oktoberfest desde os 3 anos de idade, insiste que sua proposta não afetaria os cardápios.
As disputas sobre tradição são praticamente uma tradição própria da Oktoberfest. Há 20 anos, os temas em debate eram a proibição de fumar e a reserva de espaço para a música bávara tradicional. Mais recentemente, as tensões explodiram em torno do frango orgânico. E há a crítica recorrente aos dirndls (vestidos) excessivamente sensuais e pouco autênticos.
Ainda assim, alguns costumes são mais recentes do que parecem. A cerveja produzida fora de Munique foi aceita durante boa parte do século 19, e as cervejarias podiam servir uma variedade maior de cervejas, disse Andreas Krennmair, historiador austríaco especializado em cerveja. Os dirndls e as lederhosen (traje masculino) só se tornaram o código de vestimenta nos anos 1990.
Marx, da Giesinger, sabe que entrar na Oktoberfest pode significar abrir mão da identidade de azarã de sua marca.
“Se alcançarmos nosso objetivo de ir para a Oktoberfest, ela deixará de ser uma marca rebelde”, disse Marx. “Talvez as pessoas deixem de gostar de nós.”
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: The Wall Street Journal
