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Novo CEO e R$ 11 bilhões em expansão em Mato Grosso: como a Cosan prepara a venda da Rumo

A confirmação do que o mercado já aguardava veio nesta segunda-feira (29). A Cosan anunciou que avalia vender sua participação na Rumo e confirmou a contratação do BTG Pactual para assessorar o processo, como parte da estratégia para reduzir seu ainda elevado endividamento.

O anúncio consolida um movimento que já se desenhava semanas antes, de potencial venda de uma das joias da coroa do grupo firmarial construído por Rubens Ometto. E que segue em expansão, em quadro que destoa da crise de outro negócio relevante, a Raízen.

Poucos dias antes, no fim de junho, uma comitiva de autoridades chegou de trem a Dom Aquino, no interior de Mato Grosso, para inaugurar o primeiro trecho da Ferrovia Estadual de Mato Grosso. Entre ministros, governadores e parlamentares estavam também Pedro Palma, CEO da Rumo, e Ometto, fundador e chairman da Cosan, controladora da companhia. 

Terminada a cerimônia, os políticos desceram para conceder entrevistas para capitalizar em cima do evento. Já os executivos da companhia mantiveram-se reservados.  

Dois dias depois, a Rumo anunciou que Palma deixaria o comando após 13 anos na companhia, sendo os dois últimos como CEO. A partir de 20 de julho, o cargo será ocupado por Daniel Rockenbach, executivo da casa.

A chegada de Rockenbach, porém, tem caráter provisório, até que seja definido o futuro controlador da companhia. 

O InvestNews confirmou que há atualmente oito interessados no negócio. Entre eles, gigantes do agro como a Bunge, uma das maiores tradings agrícolas do mundo, e a Inpasa, maior produtora de etanol de milho da América Latina.

Não à toa. Na última década, a Rumo veio a se tornar uma peça essencial para o escoamento do agronegócio entre o Centro-Oeste e o Sudeste, principalmente com a chamada Malha Norte.

Agora, redesenha essa malha para ganhar ainda mais relevância no setor.

A caminho de Santos

A Rumo nasceu em 2008 como o braço de logística da Cosan, responsável por levar o açúcar que a companhia produzia no interior de São Paulo até o Porto de Santos. 

No modelo original do negócio, a Rumo não tinha ferrovias próprias. Para transportar a carga até Santos, contratava a ALL, então maior operadora ferroviária do país. Pelo acordo então firmado, a Rumo se comprometia a investir R$ 1,2 bilhão para ampliar a capacidade da Malha Paulista, que liga o interior do estado ao litoral santista.

A parceria entre as duas firmas, porém, rapidamente se deteriorou. 

Em 2014, a Rumo acusava a ALL de não entregar a capacidade ferroviária prometida. A ALL contestava as cobranças.

Para se livrar do impasse, Rubens Ometto tentou assumir o controle da rival – e chegou perto de comprar 49% do bloco controlador. Mas a negociação fracassou. 

Naquele momento, a ALL também atraía o interesse de outros grupos. Um consórcio de tradings agrícolas – que incluia Bunge, Cargill e Amaggi – discutia uma oferta pela companhia. A J&F, controladora da JBS, também avaliava entrar na disputa.

Meses depois, prevaleceu outra saída: a fusão entre Rumo e ALL por meio de uma troca de ações. A operação manteve a Cosan como a maior acionista da companhia – hoje, o grupo de Ometto detém 20,3% das ações ali. 

Com a fusão, a Rumo herdou a operação das malhas Norte, Sul, Oeste e Paulista: ao todo, 12 mil quilômetros de trilhos – o maior conjunto de concessões ferroviárias do país.

Ilustração: João Brito

Cosan na rota da soja

Hoje, a Malha Norte responde por 82% de toda a carga que a Rumo transporta. 

É de Rondonópolis, principal polo logístico do agronegócio em Mato Grosso, que partem os trens carregados de milho, fertilizantes e, principalmente, soja: sozinha, a oleaginosa respondeu por 31% de tudo o que a firma movimentou em 2025 – o milho não veio muito atrás, com 21%.

Os trens seguem até Aparecida do Taboado, em Mato Grosso do Sul. De lá, entram na Malha Paulista e seguem até o Porto de Santos.

Trata-se de uma dinâmica ainda rara no Brasil: hoje, menos de 20% do que circula sobre trilhos no país vem do agro. 

A maioria esmagadora desse total é de minério de ferro, em operações ligadas às próprias mineradoras. É o caso da Vale, que opera 2 mil quilômetros de ferrovias entre Minas Gerais, Espírito Santo, Pará e Maranhão. Ou da MRS Logística, que tem entre seus principais acionistas Vale, CSN, Gerdau e Usiminas.

Acontece que, para se pagar, uma ferrovia precisa transportar grandes volumes de carga e manter um fluxo constante de embarques. Essa equação é simples para a mineração, já que uma mesma mina consegue abastecer trens diariamente por décadas.

Trem operado pela Rumo, firma controlada pela Cosan
Trem operado pela Rumo, firma controlada pela Cosan (Divulgação)

No agro, em que a produção é pulverizada e o ritmo de embarque acompanha o calendário das safras, o desafio é maior.

Foi com essa lógica que a Rumo decidiu aumentar sua principal ferrovia para dentro de Mato Grosso. O projeto estende a Malha Norte até o coração da produção agrícola do estado, ampliando a área de influência da ferrovia.

A primeira etapa, inaugurada em junho, soma 162 quilômetros e inclui um terminal com capacidade para movimentar até 10 milhões de toneladas de grãos por ano.

Ao todo, o investimento previsto é de R$ 11,2 bilhões e, quando estiver concluída, a ferrovia terá 740 quilômetros de extensão.

O futuro da malha 

Enquanto isso, a companhia caminha para se desfazer de seus trechos menos rentáveis. 

É o caso da Malha Oeste, concessão que liga Mairinque, no interior de São Paulo, a Corumbá, na fronteira de Mato Grosso do Sul com a Bolívia. A ferrovia foi herdada na fusão com a ALL, mas nunca teve o mesmo peso econômico do corredor entre Mato Grosso e Santos.

Em 2020, a Rumo pediu a devolução da concessão. No fim de 2025, encerrou o contrato com o último cliente que ainda operava na malha. A partir daí, manteve apenas a estrutura mínima necessária para preservar os ativos até o fim do contrato, encerrado em junho deste ano.

A União agora tenta tornar a ferrovia atraente para um novo operador.

O plano aprovado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) prevê recuperar 1,6 mil quilômetros de trilhos entre São Paulo e Mato Grosso do Sul, com até R$ 3,6 bilhões em recursos públicos para ajudar a viabilizar a concessão.

Uma incógnita, agora, é o futuro da Malha Sul – a maior concessão da Rumo em extensão, com 7,2 mil quilômetros de trilhos que passam por Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo.

A malha tem um peso histórico para a companhia: ela foi a primeira concessão da ALL, assinada em 1997 durante a privatização da antiga Rede Ferroviária Federal (RFFSA).

Hoje, a operação responde por 14% do volume transportado pela Rumo. Mas dá prejuízo. A firma afirma que a malha consumiu, em média, R$ 320 milhões de caixa por ano na última década.

A concessão chega ao fim em 2027, com um futuro ainda incerto.

Uma das alternativas em discussão é estender o contrato atual por mais 24 meses, para dar tempo ao governo de preparar uma nova licitação. Em audiência pública na Câmara, a Rumo disse ter caixa suficiente para manter a operação por mais dois anos sem novos aportes.

Troca de comando 

Em meio a essas mudanças, a Rumo escolheu para a presidência um executivo que comandava justamente a Malha Sul.

Daniel Rockenbach é um ferroviário de carreira. Passou pela MRS, pela ALL e está na Rumo há mais de uma década, tendo ocupado cargos nas áreas comercial e operacional antes de assumir o comando da operação Sul.

Daniel Rockenbach, novo CEO da Rumo

Rockenbach assume a companhia com dois desafios imediatos: concluir os projetos de expansão e provar ao mercado que esses investimentos se converterão em geração de caixa – só no primeiro trimestre deste ano, a Rumo investiu R$ 1,8 bilhão na expansão da capacidade logística.

Seja como for, o novo CEO assume com prazo indefinido. No médio prazo, a estratégia da Rumo ficará nas mãos de quem assumir seu controle.

— Colaborou Rikardy Tooge.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Camila Alves Barros

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