Por que Masayoshi Son, do SoftBank, discorda da tese de IA de Elon Musk
Algumas pessoas já demonstraram ceticismo em relação à ideia de Elon Musk de instalar data centers de inteligência artificial no espaço.
Mas o que significa quando até Masa acha que a proposta foi longe demais?
Afinal, o fundador do grupo SoftBank Group, Masayoshi Son, não é exatamente conhecido pela moderação quando o assunto são ideias ousadas. Ele tem um plano de negócios de 300 anos e falava sobre a singularidade tecnológica uma década antes de a AGI (inteligência artificial geral, ou uma espécie de superinteligência artificial) virar palavra de ordem no Vale do Silício. Também acreditou que Adam Neumann, fundador da WeWork, era um líder visionário.
Ainda assim, na semana passada, Son questionou os planos de Musk para data centers em órbita. “Qual é a vantagem?”, perguntou a investidores no Japão.
Son e Elon Musk estão por trás de alguns dos maiores investimentos tecnológicos de sua geração e ambos tentam liderar o que pode ser a maior transformação tecnológica desde a eletricidade. Qual visão de futuro — neste planeta ou além dele — será executada mais rapidamente pode ajudar a definir o vencedor da corrida da IA.
Não significa que Son tenha se tornado pragmático. O que ficou evidente na semana passada foi uma diferença de estratégia para alcançar visões bastante parecidas de um futuro digno da ficção científica. Musk parte dos princípios fundamentais da física; Son aplica sua filosofia de investimentos baseada em apostas gigantescas.
A tese dos data centers espaciais
Uma parte importante da avaliação de cerca de US$ 2 trilhões da SpaceX está ligada ao plano de Musk de colocar data centers em órbita. Segundo ele, a enorme disponibilidade de energia solar no espaço tornaria a operação muito mais eficiente economicamente do que na Terra.
“É algo óbvio”, afirmou Musk neste ano. Os documentos do IPO da companhia indicam que a tecnologia poderá começar a ser implantada já em 2028.
A ideia ganha apelo num momento em que gigantes da tecnologia enfrentam crescente resistência à construção de novos data centers nos Estados Unidos, necessários para sustentar o avanço da inteligência artificial.
Musk não está sozinho. Jeff Bezos também já falou sobre o potencial da iniciativa, embora considere o cronograma mais distante. Em maio, disse à CNBC que prazos de dois ou três anos parecem “ambiciosos demais”.
O argumento de Son
Son questiona a economia do projeto. Segundo ele, apenas 7% dos custos operacionais de um data center terrestre vêm da eletricidade. O restante está relacionado a chips, equipamentos e outros componentes.
Musk, porém, já ouviu críticas semelhantes ao longo da carreira. Tanto a SpaceX quanto a Tesla foram construídas com base na ideia de que as leis da física determinam o que é ou não possível.
Essa filosofia ajudou Musk a realizar feitos considerados improváveis, como o desenvolvimento de foguetes reutilizáveis e a transformação dos carros elétricos em produtos desejados e lucrativos.
Mas nem sempre essa abordagem é a mais rápida.
A Waymo, da Alphabet, já opera frotas de veículos autônomos em várias cidades americanas. A Tesla ainda está tentando provar que consegue oferecer um serviço robusto de robotáxis.
Uma diferença importante entre as duas firmas é que a Waymo utiliza sensores a laser (LiDAR), enquanto Musk insiste que eles são desnecessários e aposta apenas em câmeras, numa lógica semelhante à visão humana. A física pode estar do lado dele, mas, por enquanto, a Waymo está na frente.
A corrida contra o relógio
O que realmente preocupa Son parece ser a velocidade das transformações na IA. A cada poucas semanas surgem novos modelos, executivos mudam de firma e o cenário competitivo é redesenhado.
Enquanto Musk vê os data centers orbitais como uma inovação de curto prazo, Son enxerga diversos obstáculos que podem atrasar sua implementação. Segundo ele, resolver desafios como manutenção de equipamentos no espaço pode levar anos — talvez uma década ou mais.
Para alguém que acredita numa lógica de “o vencedor leva tudo”, dez anos é tempo demais.
“O vencedor será definido nos próximos anos. Em vez de focar no espaço, onde não sabemos o que acontecerá em termos de negócios ligados à IA, queremos concentrar nossos esforços em oportunidades mais imediatas e ser os primeiros em qualquer negócio relacionado à IA”, afirmou Son.
O plano da SoftBank
A estratégia de Son sempre foi apostar cedo e pesado. Seu maior sucesso foi o investimento inicial na Alibaba Group.
Essa lógica também inspirou a criação, em 2017, do Vision Fund, fundo de US$ 100 bilhões voltado para tecnologia. Nem todas as apostas deram certo: a WeWork se tornou um dos maiores fracassos da carteira.
Mesmo assim, Son deixou claro que pretende dobrar a aposta em IA.
Na reunião anual da SoftBank, ele apresentou quatro pilares para sua estratégia: modelos de IA, semicondutores, robótica e infraestrutura.
Esses pilares aparecem nos investimentos da companhia na OpenAI, na fabricante de chips Arm Holdings e em grandes projetos de data centers ao redor do mundo.
Son e Musk: o mesmo objetivo
Embora utilizem peças diferentes, Son e Musk parecem estar montando quebra-cabeças que formam uma imagem semelhante.
A firma de IA da SpaceX compete com a OpenAI; a colaboração entre SpaceX e Tesla busca desenvolver infraestrutura de chips; a Tesla avança para a robótica; e os data centers orbitais completam a visão.
A aposta implícita é a mesma que marcou mercados como busca na internet e smartphones: quem chegar primeiro pode dominar tudo.
Para Musk, Son e os demais gigantes da corrida da inteligência artificial, o fator decisivo provavelmente será o tempo. Quem transformar sua visão em realidade mais rápido terá uma vantagem difícil de superar.
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Autor: Karla Mamona