O alumínio está em falta. E a Alcoa apostou bilhões no Brasil para driblar o aperto na oferta

A Alcoa fechou acordo para comprar ativos de bauxita, alumina e alumínio da South32 por US$ 4,1 bilhões, em dinheiro e ações. Parte considerável da conta vai para o Brasil, onde a companhia americana amplia o controle sobre o complexo Alumar, no Maranhão, e entra pela primeira vez no capital da maior mina de bauxita do país, a Mineração Rio do Norte (MRN), no Pará.
O movimento não é isolado: reflete uma corrida por ativos de bauxita e alumina que ganhou força justamente quando a oferta global do minério começou a apertar.
Desde o início de 2026, o preço do alumínio na Bolsa de Metais de Londres (LME) opera na faixa de US$ 3.100 a US$ 3.500 por tonelada, alta acumulada de quase 20% no ano. Dois fatores turbinam essa curva.
O primeiro é geopolítico: o bloqueio do Estreito de Ormuz, epicentro da guerra no Oriente Médio, interrompeu exportações de alumínio do Golfo Pérsico, região responsável por cerca de 9% da oferta global do metal.
O segundo é estrutural e mais difícil de reverter.
Historicamente, altas de preço estimulavam a China a produzir mais e segurar o mercado. Isso não funciona mais: a capacidade chinesa está travada por política de Estado em cerca de 45 milhões de toneladas, com as usinas já operando perto desse teto. O país deixou de ser o fornecedor de reserva que amortecia os ciclos do setor.
A matéria-prima que ficou mais cara de garantir
Um degrau abaixo na cadeia, a bauxita — o minério do qual se extrai a alumina, e depois o alumínio — passa por reviravolta parecida. A Guiné concentra cerca de 70% do comércio mundial de bauxita e vinha inundando o mercado: exportou 183 milhões de toneladas em 2025, alta de 25% no ano, o que derrubou os preços a mínimas de quatro anos.
Para conter a queda, o governo guineense passou a implementar, a partir do segundo trimestre de 2026, cotas de exportação que devem reduzir o volume anual de cerca de 200 milhões para perto de 150 milhões de toneladas. Na prática, o maior exportador de bauxita do planeta decidiu vender menos. Isso encarece — e torna mais estratégico — o acesso a minas próprias fora da órbita guineense, como a MRN.
A Alcoa não está entrando num negócio novo, está comprando a fatia de um sócio. No complexo Alumar, em São Luís, a companhia americana já detém 54% da refinaria de alumina e 60% do smelter de alumínio, com a South32 e a Rio Tinto como sócias minoritárias.
Ao absorver a parte da South32, a Alcoa aumenta a fatia que já controlava operacionalmente havia décadas — o complexo está instalado no Maranhão desde 1980.
A exceção é a MRN. Ali, quem manda é a Glencore, com 44% do capital; a Rio Tinto tem 22% e a South32, 33%. A Alcoa não aparecia na composição acionária da maior mina de bauxita do Brasil — e é justamente essa fatia de 33% que ela está comprando agora.
Pela primeira vez, a americana passa a ter assento formal na origem da matéria-prima que abastece sua própria refinaria em São Luís.
Brasil em disputa
A Alcoa não é a única global a mirar ativos brasileiros de alumínio nos últimos meses.
Em janeiro, a Votorantim vendeu o controle da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) — 68,596% do capital, avaliados em cerca de US$ 902,6 milhões — para uma joint venture formada pela chinesa Chinalco e pela Rio Tinto. A operação ainda prevê oferta pública obrigatória pelas ações remanescentes da CBA na B3.
Duas operações de grande porte em ativos brasileiros de alumínio em menos de seis meses, ambas puxadas por mineradoras globais, sugerem que o país deixou de ser periferia na cadeia do metal e virou peça central da disputa por segurança de suprimento.
A jogada também dá sequência a uma estratégia que a própria Alcoa já vinha desenhando. Em 2024, a companhia concluiu a compra da Alumina Limited, sua sócia histórica, numa operação que ampliou sua participação em ativos de bauxita e alumina.
A compra da South32 é lida pelo mercado como a continuidade desse movimento: transformar participações minoritárias em controle pleno ao longo de toda a cadeia, da mina ao metal.
A Alcoa pagará US$ 3,1 bilhões em dinheiro e cerca de 17 milhões de ações ordinárias à South32, além de um direito de valor contingente de até US$ 750 milhões, vinculado ao comportamento futuro dos preços de alumina e alumínio até 2030 — uma cláusula que amarra parte do valor do negócio exatamente ao cenário de aperto de oferta descrito acima.
O financiamento inicial vem de um compromisso-ponte de US$ 3,1 bilhões com o Goldman Sachs, que a companhia pretende substituir por caixa próprio e dívida de longo prazo antes do fechamento, previsto para o primeiro semestre de 2027.
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Autor: Raquel Brandão
