O gargalo que trava as megabaterias de armazenamento

A demanda por baterias dispara à medida que o consumo de eletricidade nos Estados Unidos cresce, puxado pela explosão da necessidade energética dos data centers e pela eletrificação crescente. Só que está cada vez mais difícil conectá-las às redes elétricas.
A queda dos preços tornou as baterias mais atraentes. Mas, depois de décadas de investimento estagnado, as redes correm atrás das melhorias necessárias para plugá-las, pressionando o fornecimento de transformadores, disjuntores e outros equipamentos.
Com essas obras atrasando, os projetos de armazenamento se acumulam nas filas de conexão de uma ponta a outra do país.
A Consolidated Edison, grande concessionária do Estado de Nova York, diz que nos últimos dois anos o volume de projetos de armazenamento em baterias à espera de conexão cresceu 300%. Na Califórnia, os reguladores esperam que os atrasos nas obras de rede travem projetos de energia de ponta a ponta do estado.
“Todo o processo de conectar essas novas usinas ficou muito congestionado, cheio de gargalos”, disse Joseph Rand, pesquisador de política energética do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley. “De certa forma, isso quebrou o processo histórico com que os operadores da rede de transmissão vinham trabalhando havia quase 20 anos.”
No país inteiro, cerca de 750 gigawatts de projetos de armazenamento – o equivalente a 50 Itaipus – estão na fila para se conectar à rede, segundo pesquisa do laboratório. Nem todos vão sair do papel. Muitos desenvolvedores já desistiram da fila por causa dos atrasos. Ainda assim, o tempo de espera aumenta: a mediana foi de cinco anos em 2025, ante um ano e meio em 2015.
A enxurrada de projetos de baterias deve continuar. A Wood Mackenzie, consultoria de energia, projeta que o mercado americano de armazenamento vai quadruplicar nos próximos seis anos.
Ao armazenar eletricidade quando os preços estão baixos e as renováveis são abundantes, e descarregá-la quando a demanda sobe, as baterias ajudam a reduzir a conta de luz do consumidor, a descarbonizar o consumo de eletricidade e a aliviar a pressão sobre a rede.
Acrescentar baterias à rede, porém, não é simples. Muitas vezes os operadores precisam construir infraestrutura nova, como linhas de transmissão ou subestações, para dar conta da energia fluindo nos dois sentidos.
Enquanto isso, a falta de equipamentos-chave encareceu as obras e alongou os prazos das melhorias na rede, deixando as concessionárias sem fôlego para construir na velocidade necessária. A escassez de mão de obra qualificada atrasa ainda mais. “A combinação de custo e mão de obra limitada está no centro do problema”, disse Allison Feeney, analista de pesquisa da Wood Mackenzie.
Na Califórnia, a PG&E, maior concessionária do estado, disse aos reguladores em janeiro que um dos principais motores dos atrasos eram os longos prazos de entrega de equipamentos especializados. Comprar certos disjuntores pode levar quase quatro anos, segundo a firma, que relatou um aumento de 300% em sua carga de trabalho de conexão em relação aos anos anteriores.
No norte da Califórnia, por exemplo, o atraso na troca de disjuntores de uma subestação no condado de Solano deve empurrar o cronograma de dois projetos de baterias que somam 450 megawatts. Obras em linhas de transmissão na região da Baía colocaram outros 800 megawatts de armazenamento sob risco de atraso, segundo a PG&E.
“Há fatores fora do controle da PG&E que podem afetar os prazos de conexão, como as restrições nas cadeias globais de suprimentos e atrasos do lado do cliente com licenciamento e empreiteiras”, disse Paul Doherty, porta-voz da PG&E, em nota.
Em outra grande fornecedora, a Southern California Edison, obras inacabadas atrasaram 13 gigawatts de nova geração e armazenamento.
As baterias no Brasil
O gargalo aqui é outro. Enquanto nos EUA os projetos se acotovelam numa fila de conexão, o Brasil ainda está montando a fila: o mercado de armazenamento em escala de rede só começa para valer em dezembro, no primeiro leilão da história do país dedicado exclusivamente a baterias.
Leilão que faz todo o sentido no nosso caso. Com o sol a pino, metade da geração de energia é solar; e boa parte acaba desperdiçada por falta de demanda no horário. Armazenar em baterias para usar à noite é, portanto, a solução óbvia.
Não faltou demanda da indústria. Quando o governo fechou o cadastro para o leilão, em 31 de julho, tinham entrado 6.091 projetos, somando 300 gigawatts – 20 Itaipus, que tem 14 GW.
Mas cadastro não é obra, lógico. A firma de Pesquisa Energética (EPE) ainda vai peneirar projeto por projeto, e só em setembro se saberá de quanta potência será encomendada de fato. A expectativa do mercado é para algo entre 5 GW e 6 GW.
É aqui que o caso americano serve de alerta para o Brasil. A fila de equipamentos para adaptar a rede é uma só, e é global. Transformadores de força e disjuntores de alta tensão saem de um punhado de fábricas no mundo. E o planeta todo corre em busca da mesma solução para estocar energia renovável.
Por Summer Maxwell e Redação InvestNews
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: Bloomberg

