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O que as novas tarifas de Trump significam para a economia americana

O pacote de tarifas anunciado pela Casa Branca nesta semana representa mais uma reviravolta na política comercial do presidente Donald Trump. Na prática, porém, a medida deve significar mais do mesmo para firmas e consumidores: mudanças repentinas nas regras, cadeias de suprimentos reorganizadas e preços mais altos para produtos importados.

Dezoito meses após o início da guerra comercial do segundo mandato de Trump, o principal efeito das tarifas tem sido o aumento dos preços dos bens, com a inflação desses produtos bem acima do ritmo registrado antes da pandemia. As novas tarifas não derrubaram a economia americana, de US$ 30 trilhões, nem entregaram duas das principais promessas de Trump: reduzir o déficit comercial e impulsionar a indústria manufatureira do país.

O que está mudando?

As linhas gerais da guerra comercial de Trump permanecem praticamente as mesmas. As mudanças têm como principal objetivo manter a política tarifária em funcionamento após ela enfrentar obstáculos na Justiça.

Em fevereiro, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou um amplo conjunto de tarifas globais. Trump respondeu substituindo essas tarifas por uma alíquota global de 10%, baseada em outro fundamento jurídico. Essa medida, porém, tinha validade limitada a 150 dias, prazo que terminou na sexta-feira.

Na quinta-feira, o presidente anunciou novas tarifas entre 10% e 12,5% para mais de 80 países, incluindo a maioria dos principais parceiros comerciais dos EUA, utilizando outra base legal. Com isso, a maior parte das importações continuará sujeita a tarifas semelhantes às cobradas nos últimos cinco meses.

Em que base legal Trump está se apoiando?

As novas tarifas utilizam a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, instrumento amplamente empregado durante o primeiro mandato de Trump para aplicar tarifas sobre centenas de produtos industriais e de consumo importados da China, sob a alegação de práticas comerciais desleais.

Essas tarifas são consideradas juridicamente mais resistentes do que aquelas anuladas pelos tribunais e têm como objetivo combater perdas para firmas americanas decorrentes do uso de trabalho forçado na produção de bens exportados para os Estados Unidos.

Apesar da mudança jurídica, o impacto econômico pode ser pequeno. Analistas estimam que a tarifa efetiva média sobre as importações americanas permanecerá próxima de 10%, nível semelhante ao observado ao longo deste ano.

“Achamos que não veremos um impacto maior na economia do que o que já estamos observando”, afirmou Thomas Ryan, economista da Capital Economics.

Como as firmas estão reagindo?

Segundo Rich Lesser, presidente do Boston Consulting Group, as firmas americanas têm conseguido lidar relativamente bem com a guerra comercial.

Experiências recentes, como a pandemia e a onda de inflação que se seguiu, tornaram as companhias mais flexíveis e preparadas para responder rapidamente a choques econômicos, permitindo ajustes ágeis nas cadeias de suprimentos e decisões de preços mais eficientes.

Nesta semana, a General Motors informou que espera custos brutos entre US$ 2,5 bilhões e US$ 3,5 bilhões com tarifas neste ano. Ainda assim, a CEO Mary Barra destacou que a rentabilidade da firma continua acima das expectativas.

“Não demos desculpas. Apenas continuamos entregando resultados”, disse.

Apesar disso, parte dos empresários questiona a justificativa legal utilizada pelo governo.

“Os Estados Unidos não provaram que o trabalho forçado está causando perda de negócios para nós”, afirmou Rick Woldenberg, CEO das firmas Learning Resources e hand2mind.

A Learning Resources liderou a ação judicial que derrubou o conjunto anterior de tarifas e voltou à Justiça nesta semana para contestar as novas medidas.

“Isso é apenas um pretexto para me taxar sem passar pelo Congresso”, afirmou.

Sua firma, sediada em Illinois, importa brinquedos produzidos na China, Índia e outros países asiáticos. Segundo Woldenberg, as novas tarifas entre 10% e 12,5% são “inegavelmente inflacionárias” para a economia americana.

Como as tarifas afetaram a economia até agora?

O efeito mais evidente das tarifas foi o aumento dos preços de bens físicos, como roupas, televisores e móveis.

Segundo a Kelley Blue Book, os custos tarifários adicionaram entre US$ 1.600 e US$ 9.000 ao preço de veículos novos neste ano.

Economistas do Federal Reserve estimam que, até fevereiro, as tarifas elevaram em cerca de 3,1% os preços dos chamados bens básicos — categoria que exclui alimentos e energia, cujos preços costumam ser mais voláteis.

Esse movimento representa uma mudança significativa, já que os preços desses bens haviam permanecido praticamente em queda durante a década anterior à pandemia de Covid-19.

Como a maior parte do consumo das famílias americanas está concentrada em serviços — como moradia, saúde, entretenimento e passagens aéreas —, o impacto sobre a inflação total foi mais limitado.

No cálculo dos economistas do Fed, as tarifas elevaram a inflação subjacente ao consumidor em aproximadamente 0,8 ponto percentual.

Steven Arenzon, proprietário da Wisconsin Knitwear, em Milwaukee, afirmou que aumentou entre 35% e 40% os preços de gorros e toucas vendidos pela firma no último ano e meio para compensar o aumento do custo dos fios importados do Brasil.

Esses fios já estão sujeitos à tarifa de 25% aplicada recentemente às importações brasileiras. Com a nova tarifa relacionada ao trabalho forçado, a alíquota total passará para 37,5%.

“Não tenho dinheiro para pagar esses impostos extras”, disse Arenzon. “Somos uma pequena firma presa em um emaranhado de tarifas.”

E os demais impactos econômicos?

Fora o efeito sobre a inflação, as tarifas ainda não provocaram grandes danos à economia americana.

O PIB dos EUA cresceu 2,7% em termos reais entre os primeiros três meses de 2025 e o mesmo período de 2026, impulsionado pelo consumo das famílias e pelo boom de investimentos em inteligência artificial.

O índice S&P 500 acumula alta de cerca de 31% desde que Trump anunciou o primeiro grande pacote de tarifas.

Por outro lado, as medidas pouco contribuíram para atingir dois dos principais objetivos do governo.

Nos cinco primeiros meses de 2026, o déficit comercial dos Estados Unidos somou US$ 297,91 bilhões, uma queda de aproximadamente 10% em relação ao mesmo período de 2024.

Já a produção industrial cresceu 3,1% desde o retorno de Trump à Presidência, mas o setor emprega menos trabalhadores.

Em junho, havia cerca de 75 mil empregos industriais a menos do que em janeiro de 2025.

O que mais o governo está fazendo na área comercial?

A equipe de Trump também vem ampliando seletivamente a pressão tarifária em outras frentes.

O governo anunciou tarifas elevadas sobre diversos produtos canadenses a partir do próximo mês, medida vista como instrumento de pressão para renegociar o acordo comercial entre Estados Unidos, México e Canadá (USMCA).

Além disso, a administração trabalha na criação de outra tarifa ampla voltada ao combate do excesso de capacidade produtiva no exterior, que reduz os preços de produtos fabricados nos Estados Unidos.

Na sexta-feira, Trump afirmou em uma rede social que sua equipe estuda novas tarifas contra a União Europeia em resposta às multas aplicadas a firmas americanas de tecnologia.

A tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, anunciada neste mês, cita como justificativa o sistema brasileiro de pagamentos digitais, que, segundo o governo americano, coloca firmas como Visa e Mastercard em desvantagem competitiva, além de outras reclamações.

O governo também ameaça impor tarifas muito elevadas sobre medicamentos genéricos, embora essas medidas só devam entrar em vigor dentro de dois anos.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original

Autor: The Wall Street Journal

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