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O que esperar das intervenções do Tesouro americano: dólar mais fraco e mais volatilidade

Scott Bessent foi o nome da semana nos mercados globais. O secretário do Tesouro dos Estados Unidos bem que tentou mudar o rumo dos juros americanos de longo prazo, que alcançam os maiores níveis em quase duas décadas.

Mas acabou mesmo direcionando os holofotes para o tamanho da dívida dos EUA, que passou de US$ 40 trilhões apenas no setor público. Um bolo que continua crescendo em um ritmo de cerca de US$ 2 trilhões por ano desde 2020.

Bessent anunciou na quarta-feira (19) que o Tesouro iria dobrar o montante de recompra de títulos públicos de prazos mais longos, de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões no período entre 9 de setembro e 4 de novembro.

A alegação foi a de aumentar a liquidez, ou seja, a quantidade de recursos disponíveis no mercado das Treasuries, como os títulos são conhecidos. A interpretação de investidores, porém, foi a de que o governo americano não iria deixar os juros longos escalarem mais.

Alguns dias antes, o título do Tesouro dos EUA de 30 anos chegou a superar a taxa de 5,30% ao ano, no maior nível em 19 anos. A Treasury de 10 anos, por sua vez, chegou a passar de 4,7%, igualando o patamar visto em janeiro de 2025.

Com o aumento da recompra, o mercado entendeu que o secretário americano, como ele próprio sinalizou, está disposto a usar todas as ferramentas à disposição para manter as taxas estáveis ou até em queda, dado o seu impacto negativo sobre a economia americana.

O impacto da intervenção foi global.

No Brasil, o Ibovespa fechou na quarta-feira com alta de 0,90%, interrompendo uma sequência de 11 pregões consecutivos de queda. O dólar caiu a R$ 5,177 – a medida de intervenção acabou tendo o efeito contrário ao desejado, ao ampliar a percepção de risco dos títulos.

Os juros de longo prazo no Brasil também recuaram na quarta. A taxa do Tesouro IPCA+ 2040, por exemplo, caiu de 7,58% para 7,55% anuais. A do Tesouro Prefixado 2032 saiu de 14,75% para 14,68% ao ano,

O problema é que o alívio durou pouco, basicamente, na própria quarta-feira.

Já no dia seguinte, os juros das Treasuries voltaram a subir e retomaram os patamares “incômodos” de antes do anúncio. Na quinta-feira, o papel de 30 anos alcançou 5,252%, e o de 10 anos avançou para 4,704%.

O que esperar daqui para a frente

Para especialistas, deve-se esperar nos próximos meses uma espécie de cabo de guerra entre a atuação do Tesouro e as pressões advindas do endividamento tanto público quanto corporativo nos Estados Unidos.

“Os investidores devem considerar um cenário de intervenção contínua, mas, ao mesmo tempo, emissões vultosas persistentes do Tesouro e um balanço do governo sob pressão constante, em vez de presumir que os rendimentos retornarão aos patamares baixos de alguns anos atrás”, afirmou o CEO da gestora deVere, Nigel Green.

Além disso, tentativas de influenciar os rumos dos mercados artificialmente tendem a ser recebidos com mais desconfiança pelos investidores.

“As expectativas de inflação embutidas nos preços dos títulos subiram para o maior nível em mais de dois meses, sinal de que o mercado passou a ler o plano do Tesouro como fonte de pressão inflacionária, não de alívio”, disse a coordenadora de alocação e inteligência da Avenue, Juliana Benvenuto.

Efeitos sobre o Brasil

No curto prazo, a intervenção do Tesouro dos EUA no mercado de Treasuries pode ajudar a melhorar o cenário em mercados vistos como mais arriscados, como o Brasil.

A “ajuda” viria na forma de um dólar mais fraco e a pela volta do interesse pelo risco por parte de investidores internacionais, o que pode trazer novo alento para a bolsa no Brasil.

O problema é que entre uma alta e outra pode haver uma intensificação da volatilidade. Tanto nos chamados juros longos quanto para ações.

Isso em um momento no qual o investidor brasileiro precisa lidar com uma maior cautela do mercado conforme as eleições se aproximam.

Dólar mais fraco e juros em alta

As declarações do secretário americano atingiram ainda outro importante mercado global, o do câmbio.

O anúncio de ampliação das recompras reforçou um movimento de queda do dólar no curto prazo. Nas últimas cinco sessões, o índice dólar (DXY) que mede a variação da moeda americana frente às principais divisas do comércio internacional, registrou queda de 0,84%. O DXY acumula recuo de 2,60% em um mês.

Um cenário de juros de mercado em alta e dólar em queda tem sido visto por analistas como “brincar com fogo”. O ponto é que os movimentos simultâneos são contraintuitivos: um câmbio mais fraco tende a impulsionar a inflação, enquanto taxas mais elevadas trazem justamente o efeito contrário.

“É uma solução temporária que não ataca o problema central”, afirmou o CEO do deVere. “As recompras podem suavizar uma única sessão de negociação, e foi exatamente isso que fizeram por algumas horas, mas não conseguem resolver um endividamento que acaba de ultrapassar US$ 40 trilhões.”

Intervenção no iene para controlar juros

Bessent, no entanto, tem mostrado que o termo intervenção faz parte do seu arsenal e que vai utilizar soluções do tipo sempre que achar necessário.

Um episódio que ilustra esse comportamento do atual secretário dos EUA ocorreu semanas antes do aumento da recompra. No fim de julho, o Tesouro americano realizou compra de ienes pela primeira vez em três décadas.

A medida teve como objetivo aliviar a pressão sobre a moeda japonesa e evitar que o país asiático recorresse a uma venda de reservas – leia-se Treasuries – como forma de financiar sua própria defesa cambial.

Bessent, que tem passagem pelo mercado monetário como gestor de fundos de hedge, mostra que pretende usar táticas de Wall Street em sua cruzada pelos juros mais baixos.

Analistas compararam a intervenção no iene japonês a uma tática clássica de fundos multimercado, que lançam ordens agressivas simultaneamente para forçar o mercado a se mover na direção desejada.

Riscos fiscais nos EUA elevam juros

O pano de fundo da pressão sobre os juros longos é o quadro fiscal.

Os brasileiros já estão acostumados com essa dinâmica: aumento do endividamento público leva os investidores a pedirem prêmios cada vez maiores, tanto por causa do crescimento da oferta de títulos quanto pela percepção de maior risco.

A atual alta dos juros nos EUA não decorre de medo de inflação – que segue abaixo de 3% ao ano -, e, sim, de uma pressão mais estrutural sobre o capital.

Os déficits públicos devem consumir o equivalente a 7,5% do PIB americano neste ano, o maior nível entre os países do G7. Os pagamentos de juros da dívida americana devem superar US$ 1 trilhão neste ano – e continuam crescendo.

Além do apetite do governo americano por recursos, que aumentou com a guerra no Irã, o aumento de gastos em inteligência artificial já pressiona os prêmios de risco da dívida corporativa — leia-se retornos pedidos pelo mercado para compras.

As big techs preveem investir mais de US$ 700 bilhões em infraestrutura de IA apenas neste ano. E a conta deve subir para mais de US$ 1 trilhão em 2027.

Nesse cenário de escalada de custos, o título da Alphabet com vencimento em 2075, por exemplo, viu seu rendimento saltar de 6% para 6,78% em pouco mais de um mês.

A Nvidia sozinha captou em junho, em sua primeira emissão de dívida, US$ 25 bilhões, com taxas entre 4,250% a 5,625% ao ano e prazos de vencimentos dos títulos de 2028 a 2056.

Oferta cresce… e demanda cai

Para o co-chefe de pesquisa global do JPMorgan, James Sullivan, a estratégia do Tesouro dos EUA de recomprar mais títulos mais longos, ao mesmo tempo em que amplia a emissão de papéis curtos, é, na prática, uma forma de empurrar o problema para a frente, e não de resolvê-lo.

“É como pagar a prestação da casa usando o cartão de crédito”, comparou em entrevista à rede CNBC.

Outra pressão sobre os rendimentos das Treasuries vem de um movimento estrutural: os principais bancos centrais do mundo têm desacelerado a compra dos papéis americanos.

As posições da China nos títulos americanos estão no menor nível em 18 anos, e a custódia de Treasuries por bancos centrais estrangeiros está no piso de 14 anos.

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Autor: Sérgio Tauhata

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