Os Mindlin avançam: pai e filho iniciam nova onda argentina de aquisições no Brasil

Em maio de 2016, horas depois de assinar o contrato que concedia à Pampa Energía o controle da Petrobras Argentina, a equipe liderada pelo empresário Marcelo Mindlin subiu ao topo do prédio histórico da companhia, em Buenos Aires. Tratava-se do antigo símbolo da Pérez Companc, a maior petrolífera privada do país até ser vendida à própria estatal brasileira em 2002.
Do alto do 24° andar do prédio, Nicolás Mindlin tirou a bandeira do Brasil e pôs a da Argentina no lugar. “Isso tinha um simbolismo muito grande pra gente”, lembrou Nicolás, filho de Marcelo e um dos negociadores da compra, em uma entrevista para celebrar os 20 anos do grupo fundado pelo pai.
Depois daquele negócio, rarearam os casos de companhias argentinas que compraram ativos brasileiros: a deterioração econômica que os nossos vizinhos atravessaram nos anos seguintes ajudou a explicar a pausa. Mas, aos poucos, a melhora da economia por lá vem recriando condições para que seus empresários voltem a fechar negócios por aqui.
É o caso da fintech argentina Cocos Capital, que fechou na última semana a aquisição da maior parte dos ativos da corretora brasileira Warren, plataforma com R$ 20 bilhões em custódia.
É a primeira operação internacional da Cocos, fundada em 2021 por Nicolás Mindlin e pelo influencer Ariel Sbdar. Com o negócio, a companhia argentina projeta passar a administrar cerca de US$ 5 bilhões em ativos e faturar mais de US$ 100 milhões por ano.
Nicolás tem 37 anos; Marcelo, 62. Três meses antes, o patriarca dos Mindlin havia concluído o maior negócio de sua carreira no Brasil: o controle da InterCement, a terceira maior cimenteira do país, tirada das mãos da família Camargo, dona da Mover (antiga Camargo Corrêa), após uma recuperação judicial de R$ 10 bilhões.
Em poucos meses, pai e filho fincaram os pés no Brasil em duas operações de peso, sinal de que os Mindlin e, possivelmente, outros investidores argentinos começam a enxergar mais oportunidades no Brasil.
É o caso também do Grupo Werthein, conglomerado familiar argentino liderado por Darío Werthein e dono da Sky e da DirecTV na América Latina desde 2021. Darío montou neste ano uma holding, a Waiken ILW, para consolidar seus negócios de mídia e tecnologia no Brasil. A meta é investir US$ 450 milhões aqui até 2031, incluindo o lançamento da Sky Móvel.
A joia e o resto
As investidas dos Mindlin no Brasil seguiram estratégias de M&A (fusões e aquisições) diferentes.
No caso da InterCement, que entrou em recuperação judicial no fim de 2024, Marcelo começou a comprar os créditos da cimenteira com bancos que não queriam virar acionistas, entre eles Itaú e Banco do Brasil. É a técnica conhecida como loan-to-own: adquirir dívida com desconto para depois convertê-la em controle acionário.
Em abril deste ano concluíram a operação. A Latcem, veículo liderado por Mindlin e investido pelo bilionário britânico Joe Lewis, ficou com 39% da InterCement, ao lado da gestora americana Redwood (25%) e da chilena Moneda Patria Investments (23%).
Mindlin assumiu a presidência do conselho tanto da InterCement quanto da Loma Negra, a cimenteira argentina listada na Bolsa de Nova York, controlada pela InterCement e que domina 45% do mercado local. Esse ativo era o que realmente interessava a Marcelo Mindlin.
“Estava olhando Loma Negra há dois anos”, contou Mindlin em entrevista recente. À Bloomberg TV, ele descreveu o negócio como “uma oportunidade única na vida” de ganhar fatia relevante do mercado de cimento em dois países ao mesmo tempo.
Fundada por Amalia Fortabat em 1926, a Loma Negra foi vendida à Camargo Corrêa há duas décadas por US$ 1 bilhão. Sua eventual venda para fora do guarda-chuva InterCement, prevista no plano de recuperação, devolveria a companhia a mãos argentinas. No fim, Marcelo Mindlin levou bem mais do que isso.
Questionado sobre fazer negócios em meio à instabilidade argentina, Mindlin resumiu a filosofia que disse aplicar desde os anos 2000: a instabilidade só é vantajosa para quem segue duas regras – ser extremamente cauteloso com dívida e manter sempre uma posição de alta liquidez. Quem consegue aproveitar tanto os momentos de euforia quanto os de crise, segundo Mindlin, é quem cresce.
A entrada no mercado monetário
Em paralelo aos negócios do pai, Nicolás Mindlin negociava havia quase um ano a compra da Warren. Fundada em 2017 por ex-sócios da XP, a corretora tinha entre seus investidores a Kaszek, um fundo pioneiro de venture capital na América Latina, a QED e a Ribbit Capital.
Fundadores da Kaszek, entre eles os argentinos Hernán Kazah e Nicolás Szekasy, vieram dos primeiros anos do Mercado Livre, a mesma safra de capital argentino que, quinze anos atrás, ajudou a criar a primeira multinacional de tecnologia da região.
Pelo acordo, a Cocos leva o principal ativo da Warren, a gestora Rena, voltada a grandes clientes do segmento de wealth. Os cinco fundadores da firma brasileira, entre eles Tito Gusmão e Marcelo Maisonnave, não entram no capital da Cocos: vão montar um novo projeto.
“O Brasil é um mercado-chave em nossa estratégia. É o maior mercado de capitais da região e uma oportunidade única para construir uma plataforma de escala”, disse Nicolás Mindlin, presidente da Cocos, em comunicado.

Na mesma semana em que negociava a Warren, a Cocos também fechou a compra do Voli, um pequeno banco argentino – o 60º do país em ativos – por US$ 20 milhões.
O objetivo não é o banco em si mas a licença bancária que carrega: com ela, a Cocos passa a poder oferecer na Argentina conta corrente, crédito e depósitos, sem depender apenas da licença de corretora que tinha até então.
A magia do juro real negativo
O momento da economia argentina também é um personagem relevante nessa história. Mais precisamente, as diferenças em relação ao momento do Brasil.
Por aqui, é aquela história: muitas firmas contraíram dívida com a Selic a 2% ao ano em 2020 – ou seja, com juro real negativo, abaixo da inflação. Mas desde 2022 a taxa básica está em dois dígitos. A conta da rolagem da dívida ficou não só perigosamente alta como muitas vezes não fecha.
O juro básico na Argentina é maior: 29%. Mas não adianta olhar o número sozinho: é preciso bater com a inflação. Na Argentina, como referência, o acumulado em 12 meses está em 33,2%.
Ou seja: o juro real, aquele que sofre o desconto da inflação, está negativo em -3,1% (a conta não parece exata porque não se trata de uma substituição simples). O Brasil está na outra ponta do espectro: juro real positivo de 9,1%, um dos maiores do planeta.
Por lá, portanto, a situação guarda alguma semelhança à do Brasil de 2020: dinheiro mais acessível para firmas argentinas, ainda que o crédito privado, aquele de bancos e do mercado, tenha taxas positivas.
Há outro fator a ser levado em conta: de nada adiantaria se o peso estivesse em franca desvalorização, como aconteceu em governos anteriores. Se o dinheiro está barato, mas perde valor a cada segundo para o dólar, é como se tornassem notas do Banco Imobiliário. Imprestável.
Mas não é o que ocorre. O peso cai 2,5% perante a moeda americana em 2026. É pouco. E a cotação de hoje, a 1.500 pesos por dólar, é a mesma de setembro de 2025. Com a estabilidade, é quase como se as firmas argentinas pudessem pegar emprestado em dólar.
Essa nova realidade não acontece de graça. Ela é fruto da busca por contas públicas mais austeras – algo que, em última instância, ajuda a fortalecer a moeda.
A retomada
A última vez que um grupo argentino havia protagonizado um negócio de porte comparável no Brasil se deu no começo da década passada, quando a Corporación América, da família Eurnekián, venceu os leilões para assumir os aeroportos de Natal e de Brasília – este último por R$ 4,5 bilhões, em consórcio com a Infraero. Foi o nascimento da Inframerica no país.
Em 2021, o Grupo Werthein comprou a Vrio, subsidiária latino-americana da AT&T e dona da Sky e da DirecTV, por valor não revelado.
A nova incursão argentina começou a ser notada ainda no ano passado. Em novembro, a própria Inframerica disputou a compra dos 17 aeroportos brasileiros da rede Motiva (ex-CCR), incluindo Confins, em Minas Gerais, mas perdeu para a mexicana Asur, que pagou cerca de R$ 5 bilhões.
É um sinal de que o capital argentino segue em busca de oportunidades para hastear, mais uma vez, sua bandeira sobre ativos hoje controlados por brasileiros.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: Rikardy Tooge