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Quem pode encher o botijão? A disputa no gás de cozinha que opõe Ultragaz e Copagaz às revendas

Uma disputa de bilhões pelo gás de cozinha do brasileiro opõe as maiores distribuidoras do país, como Ultragaz, Copa Energia (dona de Liquigás e Copagaz), Supergasbras e Nacional Gás, a revendas e novos entrantes que querem quebrar o modelo em que elas operam há décadas.

Está em jogo a forma como a população compra o GLP, nome técnico do gás de cozinha, um dos itens mais caros do orçamento familiar, e quem tem o direito de enchê-lo.

No gás de cozinha, distribuidoras como Ultragaz e Copagaz compram o GLP da Petrobras, enchem os botijões com sua marca e respondem por eles. Já a revenda é o elo seguinte: o comércio de bairro que compra os botijões cheios e os leva até a porta do cliente – aquele caminhão com a musiquinha inconfundível quase sempre é do revendedor, embora a melodia anuncie o nome da distribuidora.

De um lado, as grandes firmas, que juntas concentram quase 90% do mercado, defendem o desenho atual, em que cada uma investe no próprio botijão, responde por ele e só enche o vasilhame da sua marca. 

De outro, revendas e companhias como a fintech PayGas sustentam o entendimento de que esse modelo é concentrado, pouco competitivo e encarece o gás na ponta, e querem poder comprar de qualquer fornecedor e envasar por conta própria.

No centro da disputa está o reenvase: a possibilidade de uma firma encher o botijão de marca de terceiros, prática hoje proibida, já que cada vasilhame só pode ser recarregado por sua dona. 

A ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) chegou a estudar e permitir o fracionamento, em que o consumidor compraria gás por quilo e completaria um botijão já em uso, como se abastecesse um carro. Essa hipótese, porém, já está vetada por lei. 

O que restou em jogo, e move a queda de braço atual, é quem ganha o direito de encher o botijão: Ultragaz, Liquigás e outras ou as revendas espalhadas pelas cidades.

Mediando o embate, a ANP chegou a analisar uma minuta de resolução que abriria o mercado, mas paralisou a discussão no começo de junho, alegando a necessidade de concentrar esforços nos efeitos da Guerra no Irã sobre o preço dos combustíveis.

O desfecho recai sobre um item que pesa de forma desigual no orçamento do brasileiro. A Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE mais recente mostrou que o gás de cozinha consome 11 vezes mais da renda das famílias que ganham até dois salários mínimos do que aquelas acima de 25. 

O mercado é proporcional à conta doméstica: é um segmento que movimenta cerca de R$ 60 bilhões por ano, dos quais R$ 44 bilhões ficam com as distribuidoras, e R$ 16 bilhões, com as revendas, segundo o Sindigás, entidade que representa as grandes firmas.

A cadeia do gás de cozinha

Os dois lados concordam em um ponto: o gás em si, a molécula que sai das refinarias, é uma commodity vendida por um fornecedor praticamente único, a Petrobras, com preço igual para todos. A briga é sobre o que acontece depois.

Para as grandes firmas, não há gordura para cortar. O argumento de Sérgio Bandeira de Mello, presidente do Sindigás, é que gás de cozinha é negócio de capital intensivo e de escala, e que um entrante pequeno não teria como oferecer preço menor de verdade, apenas desorganizaria a cadeia.

“Eu digo que o nosso negócio se parece mais com o de Natura e Avon do que com postos de gasolina”, afirma.

A comparação é uma defesa da exclusividade de marca. Assim como as duas firmas de cosméticos vendem por meio de revendedoras que apenas entregam à porta do cliente um produto que continua sendo da marca, o Sindigás enxerga a distribuidora como dona do botijão e responsável pelo gás que está lá dentro, a quantidade certa, a qualidade, a segurança do vasilhame.

A revenda seria o canal que entrega, não a dona do que distribui. Um posto de gasolina, ao contrário, revende um combustível que passa a ser seu. Para Bandeira de Mello, tratar o gás como o posto trata a gasolina ignora que o valor e a responsabilidade estão no botijão de marca, e não na venda avulsa do produto.

Botijão de 13 quilos de gás de cozinha (Agência Brasil)

No gás, argumenta, a embalagem é parte fundamental da cadeia porque custa mais que o próprio produto e é um item de segurança. “Eu vou pagar R$ 300 por um botijão. O líquido que faz gás na hora de usar custa R$ 100. Eu não posso jogar a embalagem fora”, reforça.

Já para revendas e entrantes, o preço alto do gás de cozinha não está na molécula, e, sim, na margem. A tese se apoia em um dado da EPE (firma de Pesquisa Energética) de 2024, segundo o qual mais da metade do preço final do botijão corresponde às margens brutas de distribuição e revenda.

Para esse grupo, se metade do preço é margem, e quatro grupos controlam quase 90% do mercado, então haveria gordura a espremer por competição. Em declarações públicas, o presidente da Abragás, José Luiz Rocha, que representa as revendas, diz que o modelo atual prende os pequenos a um único fornecedor, o que os impediria de oferecer preços menores.

“A revenda quer escapar dessas amarras e ter opção de compra”, disse Rocha. O InvestNews tentou uma entrevista com a Abragás, mas não obteve retorno.

A conta do botijão

Por trás da tese de que abrir o mercado não baixaria o preço, há um segundo ponto que sustenta a defesa das grandes firmas: o capital investido no parque de botijões.

O vasilhame de aço, por óbvio, não é descartável. O botijão de 13 quilos, o P13, passa por requalificação obrigatória 15 anos após a fabricação, e, a partir daí a cada dez anos, por teste de resistência e de vazamento. 

Requalificado sucessivamente, circula por cerca de 45 anos, e é a distribuidora dona da marca que paga cada etapa. Um investimento de bilhões, argumenta Bandeira de Mello.

Hoje circulam cerca de 141 milhões de botijões de até 13 quilos e só em 2025 aproximadamente 22 milhões passaram por requalificação, quase um em cada seis em um único ano. A chegada do Gás do Povo, programa do governo federal, deve elevar a demanda e exigir mais capital: o setor estima injetar entre 5 e 10 milhões de novos botijões, com investimento próximo a R$ 2,5 bilhões.

Sergio Bandeira de Mello, presidente do Sindigás, representante de firmas como Ultragaz e Copa Energia (Divulgação)
Sergio Bandeira de Mello, do Sindigás, representa firmas como Ultragaz e Copa Energia (Divulgação)

A regra atual, na leitura do Sindigás, funciona como uma garantia: a distribuidora investe no vasilhame porque a exclusividade de marca assegura que ele sempre volta às suas mãos. Tira-se a exclusividade, quebra-se o incentivo. “Se eu tiver um botijão que tem lá meu nome, mas ele não volta para mim, por que eu vou investir na manutenção dele?”, questiona o dirigente.

O resultado, argumenta, seria o abandono do parque. Ele resume o raciocínio com uma imagem. “É a teoria do banheiro público. Eu uso, sujo o chão, não vou usar de novo, então por que vou limpar?” Sem um dono certo, diz, o vasilhame vira um bem de ninguém que caminha para o sucateamento.

‘Não é bem assim’, dizem os pequenos

Já as revendas partem de outro princípio. A Abragás sustenta que o botijão não é da distribuidora, e sim do consumidor, que já pagou por ele e pela requalificação embutida no preço de cada troca.

O argumento dos pequenos também defende que o reenvase não libera o enchimento do botijão em qualquer esquina, e, sim, em revendas de grande porte, cerca de 15% das 60 mil autorizadas no país.

E rebate a tese de que a abertura poderia alimentar o crime organizado, temor do Ministério de Minas e Energia. Para a Abragás, o gás desviado para facções já circula hoje, sob o radar das grandes firmas.

O reenvase acabou sendo, na verdade, um novo capítulo de uma disputa mais antiga, a do enchimento fracionado. São coisas distintas: o reenvase permite encher por completo um botijão de marca alheia, enquanto o fracionamento deixaria o consumidor comprar o gás por quilo e completar um vasilhame já em uso, como quem abastece um carro.

Essa segunda hipótese foi vetada por uma lei federal deste ano, que passou a exigir o botijão cheio e lacrado. As distribuidoras comemoraram a decisão, mas a ANP manteve uma proposta para criar a figura do envasador avançado, agente autorizado a operar bases de menor porte e mais perto do consumidor, e é nela que o setor concentra agora o foco. A ideia de reenvase, portanto, segue viva.

Jogo parado

Em 12 de junho, a diretoria da ANP suspendeu por unanimidade quatro itens da agenda regulatória, entre eles o do gás de cozinha, alegando a necessidade de redirecionar equipes para a fiscalização de combustíveis em meio à disparada do preço do petróleo com a crise no Oriente Médio. 

Procurada pelo InvestNews, a ANP reforçou que a revisão do marco do GLP foi suspensa e que não há previsão de retomada. Quando ela ocorrer, diz a agência, o tema será reavaliado à “luz do mercado da ocasião”.

O que virá quando o debate voltar é uma incógnita. Ao retirar o tema de pauta, o diretor-relator da ANP, Daniel Maia, sinalizou que uma eventual abertura não se daria de uma vez, e sim por meio de um sandbox regulatório – um ambiente de testes em que candidatos operariam o novo modelo sob supervisão e escala reduzida antes de qualquer liberação ampla.

Enquanto isso, nada muda. A regra atual segue de pé, o reenvase continua proibido, e o envasador avançado existe apenas no papel de uma minuta que nunca chegou à consulta pública.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Rikardy Tooge

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