Um novo adversário surgiu para os data centers: os agricultores
A cerca de 50 quilômetros da fazenda de Clint McRae, no sudeste de Montana, uma concessionária local de energia comprou aproximadamente 2.400 hectares de terras usadas para a criação de gado.
Depois de vasculhar anúncios de emprego na internet e conversar com pecuaristas da região, McRae concluiu que a área poderá, em breve, ser transformada em um dos vários data centers de grande porte que chegaram a Montana no último ano.
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A principal preocupação de McRae é a água. O recurso é essencial para os criadores de gado das planícies do oeste americano, que há anos vêm reduzindo seus rebanhos em resposta às secas.
Segundo McRae, será necessário manter o fornecimento de água para os novos projetos de data centers, em vez de destiná-lo aos pecuaristas que precisam preservar as pastagens e manter os bezerros hidratados. Como consequência, o rebanho bovino de Montana poderá sofrer uma redução mais permanente, afirmou.
“Quando tivermos um ano seco como este, quem vai ter de reduzir o consumo?”, disse McRae, pecuarista de quarta geração. “Vai ser a agricultura.”
Em reuniões públicas, McRae tenta soar o alarme e mobilizar outros pecuaristas locais contra novos projetos de data centers. Uma porta-voz da concessionária NorthWestern Energy afirmou que nenhuma decisão foi tomada e que não existe um cronograma definido para a área.
“Garantir o terreno agora ajuda a assegurar que teremos opções no futuro, sem tomar decisões apressadas que possam afetar a confiabilidade ou os custos”, disse ela.
Agricultores e pecuaristas americanos estão alertando para a possível pressão que o boom da construção de data centers pode exercer sobre os recursos locais nas regiões rurais. No Brasil, esse tema ainda não gera grandes debates.
Mas, nos EUA, o setor agropecuário afirma que as instalações voltadas à inteligência artificial estão ocupando terras agrícolas e consumindo eletricidade e água necessárias para criar animais e cultivar lavouras.
“É quase como no Velho Oeste, para ver quem chega primeiro”, disse Philip Nelson, presidente da Illinois Farm Bureau e produtor de milho e soja de quarta geração em Seneca, Illinois.
firmas de tecnologia estão investindo valores sem precedentes para financiar uma onda de construção de enormes data centers nos Estados Unidos, destinados a sustentar as ambições americanas na área de inteligência artificial. Grande parte desses empreendimentos está localizada em regiões rurais.
Os projetos de data centers têm sido apresentados como uma nova fonte de crescimento para pequenas cidades e para regiões do interior do país.
Embora seja difícil determinar o número exato de data centers instalados em áreas agrícolas, existem aproximadamente 5 mil unidades concluídas ou em construção nos Estados Unidos, segundo a American Farm Bureau Federation.
Terra sob pressão
As terras agrícolas são um alvo atraente para as firmas de tecnologia. Assim como os produtores rurais, os data centers precisam de grandes extensões de terreno plano e de acesso à água e à energia.
As firmas de tecnologia vêm enfrentando resistência de moradores preocupados com o consumo de eletricidade e com a pressão sobre as redes locais. Legisladores de cerca de duas dezenas de estados avaliam proibir ou restringir o desenvolvimento desses projetos.
Os agricultores temem que os novos data centers — alguns dos quais consomem uma quantidade de energia equivalente à de uma cidade de porte médio — elevem suas contas de eletricidade, em um momento no qual os produtores americanos já enfrentam custos mais altos.
Em Illinois, Nelson disse ter organizado reuniões com agricultores de várias regiões do estado e levado produtores à capital estadual para discutir suas preocupações com parlamentares. Ainda assim, afirmou que tem sido difícil fazer o debate avançar.
Nelson teme que, caso o mercado de inteligência artificial entre em colapso, algumas das melhores terras agrícolas dos Estados Unidos acabem ocupadas por data centers desativados.
“Quando se retiram 400 hectares da produção apenas para construir um desses centros, trata-se de uma área enorme”, disse Nelson.
Dan Diorio, vice-presidente de políticas estaduais da Data Center Coalition, associação que representa firmas de tecnologia responsáveis pela construção dessas instalações, afirmou que os data centers utilizam água de maneira eficiente e consomem muito menos do que a produção agrícola.
Para administrar os recursos, as instalações costumam empregar sistemas híbridos, utilizando refrigeração a ar durante 90% do ano e mudando para refrigeração à base de água nos dias mais quentes, disse Diorio.
Data centers também não significam necessariamente contas de energia mais altas. Segundo Diorio, concessionárias de alguns estados, entre eles Indiana e Geórgia, estão reduzindo ou congelando suas tarifas de eletricidade graças à receita gerada pelos data centers.
Quando o assunto é a perda de terras agrícolas, acrescentou, ninguém está obrigando os produtores a vender.
“Considero esse argumento um pouco desconcertante”, disse Diorio. “No fim das contas, são transações privadas entre o proprietário de um imóvel e alguém interessado em comprá-lo.”
Há casos de agricultores que recusaram ofertas de dezenas de milhões de dólares por propriedades pertencentes às suas famílias. Mas tornar-se milionário da noite para o dia oferece um plano de aposentadoria conveniente para muitos dos agricultores americanos, que estão envelhecendo, especialmente em um momento difícil para o setor, afirmou Nelson, da Illinois Farm Bureau.
Os data centers não são a única razão para a redução das terras agrícolas nos Estados Unidos.
A expansão imobiliária residencial, a consolidação das propriedades rurais e a transformação de áreas de pecuária em terrenos de caça nos estados do oeste são fenômenos que ocorrem há anos.
Entre 2017 e 2022, a área destinada à agricultura encolheu em um território aproximadamente do tamanho do estado do Maine, segundo o mais recente Censo Agropecuário do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Os data centers ameaçam acelerar essa tendência.
“A quantidade de terras que estamos vendo deixar a produção agropecuária é algo que realmente precisamos acompanhar de perto”, disse Jarrod Gillig, responsável pelos negócios de carne bovina da gigante agrícola Cargill na América do Norte, durante o Global Food Forum, do The Wall Street Journal.
Agro digital
Apesar das críticas, o setor agropecuário depende cada vez mais da infraestrutura digital oferecida pelos data centers.
A Cargill possui um sistema próprio de visão computacional baseado em inteligência artificial, chamado CarVe, que começou a ser implementado nos frigoríficos da firma.
Debbie Lyons-Blythe, pecuarista do Kansas, afirmou que a perda das pradarias onde o gado pasta é um problema. Ao mesmo tempo, ela também recorre cada vez mais à inteligência artificial para administrar melhor suas operações.
“Eles também são de importância vital para mim”, disse ela, referindo-se aos data centers.
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Autor: Raquel Brandão
