Biolab, da família Marques, deixa ‘canetinhas’ de lado para crescer ao tratar efeitos do GLP-1

Criada pela ala mais discreta da família Marques, uma das mais tradicionais da indústria farmacêutica brasileira, a Biolab tem seguido um caminho diferente das casas comandadas por seus familiares de União Química e Cimed.
O foco do grupo fundado pelos irmãos Cleiton e Paulo Marques com o amigo Dante Alário Jr. está em remédios para tratamento cardíaco, área que responde por mais da metade do faturamento da firma, e em aumentar parcerias com farmacêuticas estrangeiras para representar produtos de marca no mercado brasileiro.
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E olha também para o mercado de GLP-1, uma obsessão que tomou conta do setor farmacêutico desde que a queda da patente do Ozempic, no fim de março, abriu caminho para genéricos e biossimilares.
Fabio Amorosino, CEO da Biolab, afirma que a firma está em fase avançada de avaliação sobre se terá uma “canetinha” própria ou não. Mas, hoje, a maior aposta está em tratar os efeitos colaterais que o emagrecimento rápido provoca.
A firma lançou recentemente um produto para prevenir pedras na vesícula em pacientes que perdem peso muito rápido, mantém o Sarcomplex, suplemento para evitar a perda de músculo, e viu a procura pelo Pantogar, remédio popular contra queda de cabelo – outro efeito comum em quem usa as canetas para emagrecer –, disparar.
“Em vez de competir na cabeça diretamente, estamos preferindo uma abordagem como parceiros do médico que trata do paciente. A ciência do emagrecimento cada vez mais está embarcando por um caminho, que é o de olhar o emagrecimento além da balança”, afirma Amorosino, em conversa com o InvestNews.
Fundada em 1997, a Biolab fechou 2024 com pouco mais de R$ 3,2 bilhões em receita, comercializou 143 milhões de unidades de medicamentos e ocupa hoje a décima posição no ranking da consultoria IQVIA, que audita o mercado farmacêutico brasileiro.
Cardiologia responde por 52% do negócio, com marcas como o anti-hipertensivo Atenarol e o Vytorin, vendido em parceria com a americana Merck para o controle de colesterol.
No varejo, a firma tem nomes conhecidos do consumidor brasileiro, como a pomada Acnase para controle de espinha e o remédio para náuseas Vonau, desenvolvido em parceria com a USP.
Mercado internacional
A internacionalização da Biolab tem endereço pouco usual para uma farmacêutica brasileira: Toronto. A escolha não foi por proximidade nem por idioma. Foi pela porta regulatória.
A aprovação de um produto pela autoridade canadense encontra caminho mais célere para obter aprovação do Food and Drug Administration (FDA) e da Agência Europeia de Medicamentos (EMA, na sigla em inglês), os responsáveis regulatórios dos Estados Unidos e da União Europeia, respectivamente.
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Foi com essa estratégia em mente que a Biolab montou um centro de pesquisa no Canadá em 2017 e, em 2022, comprou a Exzell Pharma, sendo a única brasileira a ter um centro de pesquisa e desenvolvimento (P&D) em país desenvolvido, segundo Amorosino.
“Alguns concorrentes enveredaram pelo caminho de aquisições de plantas pela América Latina. Nós decidimos ir para países desenvolvidos como uma ponta de lança, uma estratégia que nos distingue”, diz o CEO da Biolab.
“O Canadá é o nosso hub para mercado maduro, é o nosso hub de entrada em países desenvolvidos. A Exzell não é apenas uma subsidiária. É um centro de intercâmbio de tecnologia”, prossegue o executivo.
Parcerias com farmacêuticas estrangeiras, que incluem o contraceptivo Qlaira (Bayer) e o Repatha (Amgen) para colesterol, respondem por outros 30% do faturamento.
firma familiar, mas (também) profissional
Desde outubro de 2024, a Biolab deixou de ser comandada pelos fundadores. Quem assumiu o dia a dia da firma foi Amorosino, executivo de mercado convidado a ser o primeiro CEO sem o sobrenome Marques em quase três décadas de companhia.
Para ele, a tarefa não chega a ser novidade. Por 24 anos foi executivo do Conglomerado Alfa, do banqueiro mineiro Aloysio de Andrade Faria, morto em 2020, aos 99 anos.
Apelidado de “banqueiro invisível” por Delfim Netto, Faria era o tipo de patriarca que nunca soltava de fato o negócio. Até pouco antes da pandemia, ainda dava expediente na sede do Banco Alfa, na Avenida Paulista, ao menos uma vez por semana, mesmo sem cargo executivo.
Coube a Amorosino, durante 16 dos 24 anos no grupo, a presidência do grupo monetário, que reunia banco, financeira, seguradora e operação nos Estados Unidos. Administrou ainda a fortuna pessoal do banqueiro.
Na Biolab, já era conselheiro independente desde 2021. “Eu vivi a governança familiar de perto. Além do mais, Cleiton e Paulo são meus amigos há vinte anos. Conheci os dois como clientes, e acabou surgindo a oportunidade de trabalhar juntos”, conta o CEO.
A escolha do executivo de fora não veio sozinha. Junto com Amorosino, a Biolab montou um conselho consultivo de sete cadeiras, em que os três sócios-fundadores, Cleiton e Paulo Marques e Alário Jr., dividem assento com profissionais de mercado, escolhidos para cobrir áreas complementares ao negócio da farmacêutica.
Cássio Casseb, ex-presidente do Banco do Brasil e do GPA, traz a leitura de varejo e distribuição. Paulo Gandolfi, CEO da 3M do Brasil, contribui na parte de pesquisa e desenvolvimento industrial.
João Bezerra Leite, ex-CTO do Itaú Unibanco, ajuda a identificar oportunidades de inovação tecnológica. Para reforçar a estratégia internacional, a firma convidou Adriano Treve, italiano que comandou a Roche no Brasil e hoje vive em Portugal, com mandato específico para abrir caminhos e fechar parcerias no exterior.
Do lado da família Marques, a sucessão também já está em curso, com três representantes da segunda geração já em cargos executivos na firma.
Aos 39 anos, Tatiana Marques, filha de Cleiton, é hoje diretora de comunicação e sustentabilidade. “Eu nunca tinha tido um chefe que não fosse meu pai”, diz, sobre a chegada de Amorosino. “Tem sido uma ótima experiência. É outra forma de gestão, uma relação diferente, por mais que com meu pai e meu tio tudo sempre tenha sido profissional.”

A irmã Manuela Marques é diretora de supply chain, área que cuida da cadeia de suprimentos. Já Paulo Wickbold Marques, filho de Paulo, é diretor de operações, depois de passar os últimos anos como chefe da operação internacional, baseado no Canadá.
Quatro irmãos, três farmacêuticas
A história farmacêutica da família Marques começa em 1970, quando João Marques de Paulo, propagandista de remédios em São Paulo, comprou o Laboratório Prata, firma dona de marcas tradicionais na época, como o Elixir Prata e o Quebra-Pedra Prata. O Prata veio a ser, anos depois, a base do que hoje é a União Química.
João tinha seis filhos e queria deixar uma firma para cada um. Em 1977, o filho mais velho, também chamado João, deixou o Prata e fundou a Cimed em Pouso Alegre, hoje a terceira maior farmacêutica do país em volume de unidades vendidas e tocada pelos netos do patriarca, João Adibe Marques e Karla Marques Felmanas.
Fernando Marques, o segundo filho, herdou o controle da União Química, que se especializou em produção industrial e hoje é a maior fabricante de medicamentos para terceiros do mercado brasileiro, com contratos de terceirização para Bayer e Novartis, entre outras.
Em 1997, os caçulas Cleiton e Paulo, ao lado do amigo Dante, fundaram a terceira farmacêutica da família Marques: a Biolab, voltada para medicamentos de prescrição, com foco em cardiologia.
Cleiton, Paulo e Fernando chegaram a entrar em disputas societárias por participações cruzadas entre Biolab e União Química, impasse encerrado em 2016 com um acordo mediado por um primo de fora da disputa.
A Biolab tem hoje mais de 4 mil funcionários, três fábricas no Estado de São Paulo (Taboão da Serra, Jandira e Bragança Paulista) e uma quarta em Pouso Alegre, no sul de Minas, inaugurada em janeiro. A nova planta exigiu em investimento R$ 1 bilhão e nove anos de obras, e vai mais que dobrar a capacidade produtiva atual da companhia.
Diferentemente da Hypera, que abriu capital em 2008 para financiar sua expansão, ou de pares que recorreram ao capital de private equity, como a própria Cimed com um fundo soberano de Cingapura (GIC), a Biolab fez todo esse caminho com balanço próprio.
O endividamento da firma é baixo para os padrões do setor, e a maior parte do funding veio de linhas de crédito incentivadas, voltadas à inovação e à ampliação da capacidade produtiva.
A companhia mantém hoje mais de cinquenta acordos com farmacêuticas estrangeiras, em uma arquitetura que inverte o sentido tradicional: em vez de exportar, a Biolab importa moléculas e oferece em troca o que tem de mais valioso no mercado brasileiro, sua malha de visitação médica, com 1,8 mil propagandistas e 320 mil consultas por mês.
Uma estrutura que ajuda a sustentar a meta da firma mineira de chegar a R$ 5 bilhões em receita em 2027, o que representará um salto de quase 60% em dois anos.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Rikardy Tooge