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Tele Sena sem Silvio Santos: LiderCap busca a sorte em obras públicas para diversificar

Por mais de três décadas, a Liderança Capitalização (LiderCap) dependeu de um único produto: a Tele Sena. O título de capitalização com sorteios semanais que Silvio Santos criou em 1991 logo virou uma das principais atrações do domingo no SBT e um dos sinônimos do programa.

O apresentador popularizou o bilhete e fez dele uma receita importante para o Grupo Silvio Santos (GSS), em um país onde a inflação corroía o salário muito antes de o mês acabar e em que guardar dinheiro com chance de ainda levar um prêmio soava como bom negócio.

Esse arranjo construiu um negócio que fatura mais de R$ 300 milhões por ano. Mas a receita robusta convive também com uma margem estreita, em uma combinação de produto predominantemente físico com tíquete baixo.

A partir de 2024, a Liderança Capitalização, que segue como parte do Grupo Silvio Santos, decidiu mudar – o apresentador veio a falecer em agosto do mesmo ano.

A ambição é montar linhas de negócio tão fortes quanto a Tele Sena, para não depender de um só produto. A nova fase é conduzida por Renato Terzi, executivo com passagens por BMG, SulAmérica e HSBC, um profissional de mercado recrutado para deixar uma firma familiar pronta para o futuro.

O primeiro passo foi investir cerca de R$ 10 milhões para renovar equipamentos e estrutura tecnológica. “Temos tudo novo, feito em API, em banco de dados relacional. Você tem uma flexibilidade enorme para criar novos produtos e entrar em novos segmentos”, diz Terzi em conversa com o InvestNews.

Novas apostas

Com o backoffice afinado, a firma passou a focar em buscar novas soluções desde o segundo semestre do ano passado. Na prateleira nova de produtos, dois já estão no mercado. 

O primeiro é chamado de filantropia premiável, criado em dezembro, em que o cliente compra um título, concorre a sorteios e cede o valor do resgate a uma instituição. Hoje esse produto se chama SBT Prêmios e destina os recursos ao Instituto Ronald McDonald, que apoia o tratamento do câncer infanto-juvenil. 

O segundo produto são os chamados planos de incentivo, lançados em setembro, que são voltados a firmas que usam títulos de capitalização em campanhas de venda e fidelização – e o direito ao sorteio é repassado ao consumidor final. Entre os clientes já ativos, segundo a companhia, estão Gazin Seguros, BMG Seguros e Akad Seguros.

Há novos produtos em desenvolvimento, como instrumentos de garantia financeira, que buscam substituir a fiança bancária e o seguro-garantia em contratos de aluguel e até mesmo em licitações públicas. 

Renato Terzi, CEO da Liderança Capitalização, a dona da Tele Sena (Divulgação)

Obras públicas com foco específico

O mercado que a Liderança quer alcançar é grande. Na frente de aluguel, o Brasil fecha cerca de 6 milhões de contratos por ano, com potencial estimado em quase R$ 40 bilhões anuais em garantias como as que a firma pretende oferecer. 

A avaliação é que o espaço é amplo e mal explorado. Do volume total de milhões de contratos de locação por ano, quase 80% ainda recorrem a fiador ou caução. A garantia locatícia, em que o título de capitalização é uma das opções previstas na Lei do Inquilinato, tem potencial estimado em até R$ 36 bilhões. O seguro-fiança, hoje, responde por apenas 14% dos contratos.

A principal aposta nesse segmento, no entanto, serão as garantias para obras públicas, diante do volume de editais que as prefeituras lançam e das grandes licitações de infraestrutura. A expectativa é que esses produtos estejam no mercado no ano que vem.

O alvo principal é a garantia de entrada, aquela que o construtor precisa apresentar só para disputar o edital. “A primeira garantia que a construtora dá é para participar da licitação. Eu acredito que temos muita oportunidade de vender, porque são valores menores e de prazo curto, só até acabar a licitação”, diz Terzi.

O seguro-garantia virou o instrumento preferido nas obras públicas desde a Nova Lei de Licitações de 2021 e, somado ao seguro de riscos de engenharia, cresceu 66% no período, para R$ 6,2 bilhões.

“Imagine a prefeitura de uma pequena cidade do interior que precisa construir uma ponte. Por lei, tem que fazer uma licitação. Só que o construtor da região não consegue uma fiança bancária”, diz Terzi.

“Ele faz um aporte, tem a garantia real e entra na licitação. O dinheiro volta corrigido [pela Taxa Referencial, a TR, a mesma da poupança] se o contrato for cumprido.” Dentro do setor de capitalização, a modalidade de garantia já movimentou cerca de R$ 2,5 bilhões no ano passado.

A Liderança não disputa a garantia pesada de execução, dominada pelo seguro-garantia. Mira a fatia menor, a garantia de entrada na licitação, de tíquete baixo e prazo curto – justamente aquela em que Terzi vê espaço para ser ocupado.

O calendário de lançamento ainda depende do regulador. Em dezembro de 2025, a Susep (Superintendência de Seguros Privados), autarquia do governo federal, colocou a capitalização como prioridade máxima de sua agenda de 2026, com a revisão dos normativos do setor.

É nesse rearranjo regulatório que a Liderança quer ajustes para crescer em garantia. A CNseg (Confederação Nacional das Seguradoras) projeta que o mercado de capitalização como um todo crescerá 8,5% em 2026, beirando os R$ 35 bilhões.

O desafio da margem

Fundada em julho de 1945, a Liderança foi uma das grandes casas de capitalização do país, ao lado de nomes como SulAmérica e Aliança da Bahia, muito antes de Silvio Santos comprar a firma, em 1975. 

O apresentador levou dezesseis anos para acertar a mão. O título que passou a anunciar aos domingos não emplacou. A virada só veio em 1991, com a Tele Sena, que tomou emprestado o nome e a dinâmica das loterias e finalmente deslanchou – uma época em que “gamificação” passava longe dos vocabulários dos executivos. De acordo com o CEO, são vendidas mais de um milhão de Tele Senas por mês.

Um título de capitalização como a Tele Sena funciona em três camadas. Quando o cliente compra um bilhete, parte do dinheiro vira uma reserva financeira que volta para ele. No caso da Tele Sena, trata-se de 50% do valor após um ano, corrigido. No ano passado, a Liderança estava com R$ 640 milhões arrecadados com os títulos de capitalização aplicados em títulos públicos.

Outra parte custeia os sorteios. E uma terceira, a quota de carregamento, fica com a firma, para cobrir custos e gerar lucro. Passado um ano, o cliente resgata a metade ou usa o crédito para comprar um novo bilhete. Se não procurar o dinheiro em cinco anos, o direito prescreve.

De 1991 para cá, a Tele Sena foi a única fonte de receita relevante da Liderança. Arrecadou R$ 324,6 milhões em 2025, segundo o balanço auditado da companhia, mas o número caiu 19% ante os R$ 400,8 milhões de 2024 – por outro lado, o lucro líquido quadruplicou no período, para R$ 19,7 milhões.

O desafio para alcançar uma margem maior está na natureza do produto, marcado pela ligação com gerações mais velhas e pela forte dependência do contato físico.

Um bilhete da Tele Sena custa R$ 12 e é vendido, sobretudo, em lotéricas, farmácias e agências dos Correios. O papel exige custo de distribuição alto e logística para recolher o que não foi vendido. Tem escala, mas a margem é estreita. Daí a corrida por produtos de tíquete maior ou totalmente digitais, em que a sobra de recursos é melhor.

Patrícia Abravanel, filha de Silvio Santos, comanda uma das atrações da Tele Sena no SBT
Patrícia Abravanel, filha de Silvio Santos, comanda uma das atrações da Tele Sena no SBT (Divulgação)

“No físico, a margem é apertada. Já no digital é muito boa, fica perto de dois dígitos”, afirma Terzi. Nos produtos novos, totalmente digitais, segundo ele, a margem tende a ser ainda maior. 

Os primeiros meses de operação do produto de filantropia já passam a medida do que a diversificação pode render ao balanço da Liderança. “A filantropia, neste ano, vai fazer mais de R$ 50 milhões de receita. E, no ano que vem vai estourar”, projeta o CEO.

Há ainda uma fonte de receita menos visível, mas que ajuda no resultado monetário. Em 2025, a companhia reconheceu cerca de R$ 77 milhões em prescrições, ou seja, dinheiro de clientes que compraram títulos e nunca resgataram.

A Tele Sena continua no ar aos domingos no SBT, com Patrícia Abravanel, filha de Silvio, entregando prêmios de R$ 1 milhão no chamado “Painel do X.” O ritual segue intacto, parte da memória afetiva do país.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Rikardy Tooge

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