Como a Fatal Fans fez do Corinthians um atalho para tentar virar a OnlyFans brasileira

Quem viu o Corinthians entrar em campo neste mês, em um amistoso contra o Cascavel, encontrou no calção uma marca nova: a Fatal Fans, plataforma de venda de conteúdo adulto do mesmo grupo da Fatal Model, o site de anúncios de acompanhantes.
O contrato, assinado com a Atlas Technologies — a firma de tecnologia dona das duas marcas —, prevê o pagamento de cerca de R$ 22 milhões até dezembro de 2027 e pode alcançar R$ 31 milhões com a renovação prevista para 2028; pelo espaço, a Fatal afirma pagar cinco vezes a média de mercado.
Do outro lado do acordo está o clube mais endividado do futebol brasileiro, que em 2025 gastou R$ 938 milhões apenas com futebol — 97% de tudo o que arrecadou —, fechou o ano com déficit de R$ 143 milhões e acumula uma dívida de R$ 2,4 bilhões, ou R$ 1,8 bilhão descontada a arena em Itaquera, segundo a consultoria Sports Value.
Amir Somoggi, sócio da Sports Value, consultoria que acompanha e analisa as contas dos clubes brasileiros, é crítico do acordo. “O Corinthians, eu até brinco, é o ‘topa tudo por dinheiro’: muda de liga, assina com bet, cancela a bet. Ele não está analisando tudo de mal que isso incorre na destruição da sua marca”, diz.
A origem do aperto, na leitura dele, está no estádio, a Neo Química Arena, cujos juros consomem a receita de bilheteria sem que o clube consiga abater o principal da dívida; um time com caixa poderia pesar dinheiro contra reputação e recusar, ao passo que o Corinthians, altamente endividado, tem muito menos margem para escolher.
Para Somoggi, trata-se menos de um episódio isolado do que do sintoma de um problema maior: as camisas que já exibiram TAM, Samsung, LG, Fiat e Coca-Cola foram sendo ocupadas pelas casas de aposta e, agora, o mercado adulto está à espreita.
Segundo o especialista, muitas grandes marcas se afastaram dos clubes por causa da profissionalização na gestão e, sobretudo, à ausência de uma liga forte, capaz de impor regras iguais para todos, sem a qual cada clube negocia sozinho e a régua do que pode entrar em campo passa a variar conforme o tamanho do rombo no orçamento.
Uma software house de Pelotas
A nova patrocinadora do Timão nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 2016, como Fatal Model. Um de seus fundadores, Jean Quadro, criou a startup Melhor Envio, uma companhia de logística que quebrou, se recuperou e acabou vendida ao grupo Locaweb.
A firma evoluiu e o negócio se apresenta como Atlas Technologies, uma casa de desenvolvimento de software com cerca de 300 funcionários, para a qual Fatal Model e Fatal Fans são dois produtos, entre outros.
Porém quase todo o faturamento — que saltou de R$ 100 milhões em 2024 para R$ 140 milhões em 2025 – vem da Fatal Model. A projeção para 2026 é de um faturamento entre R$ 180 milhões e R$ 200 milhões.
A Fatal Model funciona como um um classificado de acompanhantes nos moldes da OLX, em que a plataforma vende o anúncio enquanto a negociação corre por fora, distinção que a firma faz questão de sublinhar, já que afirma vender espaço publicitário, e não intermediar sexo — e não tratar os acompanhantes como funcionários.
Samuel Ongaratto, sócio e diretor de negócios do grupo, diz que os donos jamais retiraram lucro, reinvestem tudo desde o primeiro mês positivo e não pretendem sequer discutir distribuição antes de 2030, movidos pela meta de operar em mais de trinta países.
A Fatal Fans, lançada comercialmente em janeiro, é o produto com que o grupo pretende acelerar esse plano. Vive de assinatura de conteúdo, no modelo da americana OnlyFans e da brasileira Privacy, e, por despertar menos rejeição do que os anúncios de acompanhante, abriu — segundo Ongaratto — portas a segmentos nos quais a Fatal Model não consegue entrar facilmente, como a possibilidade de anunciar na televisão, na rádio e, claro, patrocinar uniformes de times de futebol.
Outra restrição enfrentada pela Atlas Technologies está na atração de novos investidores que ajudem a financiar os planos de expansão internacional. Com a Fatal Fans, a expectativa é a de que novos bolsos se abram, explica Ongaratto.
A chegada da Fatal Fans ao Corinthians vem depois de uma sequência que começou com a marca Fatal Model em 2022, patrocinando times menores, geralmente na Série C do futebol brasileiro. O primeiro grande salto veio em 2023, quando o classificado digital de acompanhantes estampou o uniforme do Vitória, da Bahia.
Entre 2023 e 2024, a Fatal Model virou a maior patrocinadora da Série B do Brasileirão, estampando a camisa de oito times: Paysandu, Sampaio Corrêa, Tombense, Ponte Preta, CRB, Vila Nova, Amazonas e Brusque.
Agora, com a Fatal Fans no calção do Corinthians, a expectativa por legitimação cresceu. “Tu enxerga a marca na camiseta ao lado de outras mais tradicionais, e essa confiabilidade do espaço passa para a nossa marca. A confiabilidade do Corinthians passa, por osmose, para a Fatal Fans”, diz o porta-voz da firma gaúcha.
Para tanto, além do valor cinco vezes mais alto que a média paga pelo espaço, a Fatal Fans optou por uma comunicação mais sóbria. Não há QR code facilitando acessos. O Corinthians também proibiu que a Fatal publique qualquer conteúdo relacionando o clube a temas de erotização, proibiu que os atletas façam propaganda para a plataforma e tem o poder de vetar qualquer peça publicitária da Fatal Fans que envolva o Corinthians.
Creator economy
Na ponta dessa engrenagem está o criador de conteúdo, que produz e vende direto ao assinante. Léo Utida publica na OnlyFans desde 2022, quando cursava publicidade na USP e entrou por curiosidade; e chegou a ganhar quase R$ 25 mil em um único mês. Hoje produz menos e, depois de quatro anos, pensa em deixar o ramo, cansado do que aponta como insegurança de nunca saber quanto entrará no mês seguinte, ainda que descreva como pequeno o esforço do trabalho.
“Estou tentando sair um pouco, porque estou meio cansado desse mercado. Não sei quanto vai ser no mês que vem. Isso me gera muito estresse, uma insegurança. Não tenho garantia de nada”, afirma.
A economia dessas plataformas, ainda assim, deixa mais para quem produz do que a de outros aplicativos: enquanto a OnlyFans retém 20% do que o criador arrecada, e a Fatal Fans, 15%, a Uber fica com algo entre 35% e 40% de cada corrida.
Utida, que dedicou o trabalho de conclusão de curso ao tema, resiste a chamar a atividade de uberização, porque o entregador de aplicativo só recebe se rodar todos os dias, ao passo que um vídeo pode seguir rendendo ao criador por tempo indeterminado; e observa que, em um debate dividido entre os que condenam qualquer trabalho sexual e os que nele enxergam apenas exploração, a maioria de quem está nas plataformas recusa o papel de vítima.
Não faltam, de todo modo, nem produtores nem público: a Fatal Fans afirma reunir cerca de 25 mil criadores e 300 mil fãs, e a OnlyFans, líder global, fala em 4 milhões de criadores. Para Utida, o efeito dessas plataformas foi menos transformar o velho mercado do que criar um novo, aberto a quem antes não teria como entrar, bastando agora internet, uma câmera e algum domínio digital.
Para a Atlas, a Fatal Fans é a tentativa de levar esse mercado a um ambiente mais aceito por clubes, investidores e meios de pagamento. Para o Corinthians, é uma fonte de receita em um momento de aperto. O contrato funciona porque cada lado oferece o que o outro procura: a firma tem dinheiro; o clube, alcance, torcida e credibilidade.
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Autor: Greg Prudenciano