Meta inunda o mercado com óculos inteligentes. E defensores da privacidade reagem

A Meta aposta que óculos inteligentes capazes de capturar tudo o que o usuário vê e ouve representam o futuro da tecnologia — e está fazendo de tudo para popularizar seus dispositivos, que evoluem rapidamente.
Executivos da firma usam os óculos em eventos públicos. A Meta doou mais de 100 mil pares a veteranos cegos durante o fim de semana do aniversário do presidente Donald Trump. A companhia também fechou parcerias com celebridades e influenciadores, incluindo Kylie Jenner, para promovê-los.
No entanto, os dispositivos equipados com câmeras se transformaram em um tema sensível no debate sobre privacidade.
Funcionários da Meta foram orientados a retirar os óculos durante um julgamento no qual o CEO Mark Zuckerberg prestou depoimento neste ano. Nas redes sociais, surgiram reclamações de pessoas que afirmam ter sido filmadas sem consentimento. Também apareceram relatos de usuários que desativaram a luz branca que indica quando os óculos estão gravando — problema que a Meta diz ter corrigido recentemente por meio de uma atualização de software.
Os óculos, produzidos em parceria com a gigante do setor óptico EssilorLuxottica, fazem parte da estratégia da Meta para dominar a próxima fase da internet. A companhia busca diversificar suas fontes de receita além da publicidade e construir um futuro em que assistentes de inteligência artificial auxiliem as pessoas em atividades do dia a dia e do trabalho.
A visão da firma é de um cenário em que os smartphones continuam existindo, mas perdem protagonismo para dispositivos vestíveis, usados no corpo, capazes de conversar com chatbots de IA, enviar mensagens e capturar fotos e vídeos.
Segundo pessoas familiarizadas com os projetos, a Meta também está experimentando outros formatos de dispositivos com IA, incluindo pequenos aparelhos que podem ser usados como broches, joias ou carregados no bolso.
A companhia afirma que os óculos têm potencial para se tornar o principal formato de dispositivos de IA fora dos smartphones, em parte porque o mercado endereçável é enorme. Executivos da Meta costumam destacar que quase 2 bilhões de pessoas já usam óculos de grau.
Nos últimos anos, a firma lançou diferentes versões do produto, incluindo os óculos esportivos Oakley de US$ 499, com recursos de motivação por IA e monitoramento físico; os Meta Ray-Ban de US$ 379; e versões sem a marca Ray-Ban vendidas por US$ 299. Os modelos mais baratos têm como objetivo colocar os dispositivos nas mãos do maior número possível de consumidores.
Em um evento recente, a Meta apresentou uma versão mais elegante, com armação oval, desenvolvida em colaboração com Kylie Jenner. A empresária do setor de beleza tirou selfies com executivos da Meta usando os óculos durante o lançamento em Nova York. Influenciadores de moda e tecnologia também têm promovido o produto no TikTok e no Instagram.
Segundo pessoas próximas ao assunto, a Meta pretende lançar uma nova geração dos Ray-Ban inteligentes em sua conferência anual de desenvolvedores, marcada para setembro. A companhia vendeu 7 milhões de pares dos óculos em 2025.
“Estamos em um momento semelhante ao da transição dos celulares convencionais para os smartphones. Parecia claro que, em poucos anos, todos os celulares seriam smartphones. É assim que vejo os óculos hoje”, disse Zuckerberg em entrevista recente à revista Complex.
Recursos preocupam defensores da privacidade
Enquanto promove os dispositivos, a Meta testa recursos que vêm despertando críticas de grupos de defesa da privacidade.
Um deles, chamado NameTag, permitiria que os óculos memorizassem rostos de pessoas encontradas pelo usuário e lembrassem quem elas são quando fossem vistas novamente.
O diretor de tecnologia da Meta, Andrew Bosworth, explicou em um podcast recente que o usuário poderia dizer “lembre-se desta pessoa” ao conhecer alguém. Segundo ele, as informações ficariam disponíveis apenas para o dono dos óculos, armazenadas localmente e criptografadas, sem serem enviadas para um banco de dados central.
Mesmo assim, mais de 70 organizações de defesa dos direitos civis e da privacidade assinaram uma carta em abril pedindo que a Meta abandonasse publicamente o projeto.
“O princípio aqui é bastante simples: seus óculos não deveriam saber meu nome”, afirmou Cody Venzke, advogado da American Civil Liberties Union (ACLU), em comunicado.
A Meta diz que o recurso ainda não foi lançado para consumidores e que nenhuma decisão final foi tomada.
Outro recurso em desenvolvimento permitiria que os óculos capturassem continuamente áudio e imagens sem alertar pessoas próximas por meio da tradicional luz branca de gravação, segundo fontes ligadas ao projeto.
Uma das fontes afirmou que os dados coletados não seriam armazenados pela Meta nem disponibilizados diretamente ao usuário em forma de biblioteca de vídeos ou áudios.
A firma declarou que está desenvolvendo tecnologias “projetadas para ajudar as pessoas ao longo do dia sem capturar fotos e vídeos como uma câmera tradicional”.
Uma porta-voz afirmou que a Meta está “comprometida em desenvolver óculos que funcionem adequadamente tanto para quem os utiliza quanto para as pessoas ao redor”.
Patente prevê monitoramento de humor
A Meta também registrou recentemente um pedido de patente para um sistema capaz de monitorar continuamente o usuário ao longo do dia para avaliar seu humor e criar planos de exercícios personalizados.
Segundo o documento público, o sistema poderia registrar situações como:
“Usuário ri com um amigo durante o jantar às 17h15. O áudio é reconhecido e registrado pela IA.”
Ou ainda:
“Usuário suspira às 21h15. A IA está ouvindo por meio de um dispositivo doméstico inteligente e registra o evento.”
Uma porta-voz da Meta afirmou que a firma frequentemente registra patentes para explorar ideias e invenções, mas que isso não significa necessariamente que a tecnologia esteja sendo desenvolvida ou será lançada.
Restrições começam a surgir
À medida que os dispositivos ganham popularidade, algumas autoridades já começam a impor restrições.
No início deste mês, o sistema judiciário do estado de Nova York distribuiu um memorando proibindo o uso de óculos inteligentes dentro dos tribunais estaduais.
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Autor: Karla Mamona