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De Ford à SpaceX: a tradição dos EUA de produzir IPOs históricos

A oferta pública inicial de ações (IPO) da SpaceX, de US$ 75 bilhões, quebrou recordes do mercado, transformou o fundador Elon Musk no primeiro trilionário do mundo e abriu novos debates sobre avaliações corporativas e governança.

Mas está longe de ser a primeira vez que um IPO sacode a economia mundial.

Os IPOs vêm remodelando os mercados desde a estreia do Bank of North America, em 1783, que deu o pontapé inicial para a jovem república dos Estados Unidos.

Elon Musk: com IPO da SpaceX, empresário se tornou o primeiro trilionário da história

A febre das ferrovias no século 19 expandiu, pela primeira vez, o investimento para incluir o pequeno investidor. O IPO da Sears Roebuck, em 1906, sinalizou a ascensão do varejo (e do Goldman Sachs, que liderou seu primeiro IPO), e 50 anos depois, o jovem herdeiro Henry Ford II demonstrou como vender sua firma e mantê-la também.

A Hewlett Packard (HP) abriu capital em 1957, e “Vale do Silício” logo entrou no vocabulário como termo para tecnologia de ponta e valuations altos. Os IPOs continuaram crescendo: AT&T Wireless, US$ 10,6 bilhões (2000); Facebook, US$ 16 bilhões (2012); Alibaba, US$ 22 bilhões (2014).

Agora a SpaceX detém o recorde. Pode ser passageiro: OpenAI e Anthropic já planejam seus próprios mega-IPOs movidos a inteligência artificial. Sempre há um novo grande negócio.

Os pioneiros

A primeira grande necessidade da jovem república, segundo Alexander Hamilton – o primeiro secretário do Tesouro Americano –, era um banco nacional. Seu modelo foi o Banco da Inglaterra, cujo financiamento foi peça central da revolução industrial britânica, que Hamilton queria que os Estados Unidos emulassem.

“Nossos homens de dinheiro são menos esclarecidos quanto ao próprio interesse, ou menos empreendedores na sua busca?”, escreveu em 1780, antes de comandar a economia dos EUA. “Por que não podemos ter um banco americano?”

O Bank of North America foi constituído no ano seguinte, na Filadélfia. Tinha poderes limitados em comparação aos bancos centrais modernos, mas ajudou a estabilizar as finanças da nação.

E seu IPO (mil ações a US$ 400 cada) inaugurou um comércio vibrante, ao menos depois que o governo federal subscreveu 633 ações (lastreadas por um empréstimo da França). Hamilton e Thomas Jefferson foram dos primeiros subscritores, mas a maior parte das ações ficou com habitantes da Filadélfia. As outras cidades sentiram inveja.

Em 1784, o Massachusetts Bank foi fundado em Boston para atender aos fabricantes têxteis da Nova Inglaterra. Poucos meses depois, Hamilton organizou o Bank of New York para financiar o setor naval.

Com a criação das bolsas de valores na Filadélfia (1790) e em Nova York (1792), e a fundação de um banco central verdadeiro com o First Bank of the United States (1791), um mercado monetário pujante criou raízes em solo americano.

Os grandes negócios

As ferrovias foram os primeiros grandes negócios do país. Assim como os bancos, surgiram para atender necessidades comerciais.

A Baltimore & Ohio (B&O), primeira linha em operação dos Estados Unidos, fundada em 1830, foi financiada por comerciantes de Baltimore que queriam um pedaço dos mercados que cresciam do outro lado das montanhas Apalaches.

A B&O foi capitalizada em US$ 3 milhões, com metade das ações vendidas ao estado de Maryland e à cidade de Baltimore, e a outra metade a um público ávido.

“Mais de um quarto da população de Baltimore, cerca de 22 mil pessoas, comprou um pedaço da ferrovia, alguns adquirindo até frações de uma única ação dessa oferta sobrescrita”, escreve David Schley em Steam City: Railroads, Urban Space, and Corporate Capitalism in Nineteenth-Century Baltimore (Cidade a vapor: ferrovias, espaço urbano e capitalismo corporativo na Baltimore do século 19).

Isso deu início a uma bolha ferroviária nacional. Ainda que os trilhos cruzassem o país, a bolha estourou várias vezes; a pior delas provocou o Pânico de 1873 e jogou a nação numa depressão.

Na virada do século 20, a combinação de industrialização e urbanização criou uma nova classe de americano: o consumidor.

A chegada do consumidor foi anunciada em Wall Street em 1906, com o IPO de US$ 40 milhões da Sears Roebuck, cuja venda por catálogo levava produtos de loja até as casas mais isoladas do interior. Também tornou Richard W. Sears rico e famoso.

“Ascensão da Sears é a maravilha de Wall Street”, estampava a manchete do Richmond Times, da Virgínia, em 10 de junho de 1906, ao noticiar o IPO. “Ganhou milhões em 15 anos.”

O Goldman Sachs ajudou a vender o IPO com um conceito novo: a relação preço-lucro, indicador para firmas que não tinham os ativos pesados de uma ferrovia ou de uma siderúrgica.

Novos setores

A inovação abriu as portas de Wall Street para um setor varejista em expansão e para vastos novos volumes de capital. O Goldman liderou a onda, coordenando ofertas de gigantes do varejo como F.W. Woolworth (1912), Merck (1919) e General Foods (1922).

O IPO da Sears, no entanto, não foi recebido com unanimidade.

“Um grande truste: Sears Roebuck vendida a Wall Street”, dizia a manchete do Register, de Cache, Oklahoma, em 29 de junho de 1906.

O ceticismo do interior americano com Wall Street é antigo e está profundamente enraizado. E pode ser visto hoje entre aqueles que se preocupam em ter SpaceX em seus planos de aposentadoria.

Henry Ford compartilhava desse ceticismo.

“Não estou ‘submetido’ a Wall Street”, declarou o segundo homem mais rico do país (atrás apenas de John D. Rockefeller), tomando o partido de seus clientes do interior e mantendo o controle férreo da Ford Motor até sua morte, em 1947.

Letreiro "Goldman Sachs" com letras cinzas e moldura sobre fundo de madeira escura.
Goldman Sachs: banco foi o grande artífice dos IPOs americanos (Reuters)

Henry Ford II, que herdou a firma do avô, teve uma relação melhor com Wall Street. Sidney Weinberg, sócio sênior do Goldman Sachs, era seu conselheiro próximo, e em 1956 conduziu a Ford Motor ao IPO recordista de US$ 657,9 milhões.

A operação provocou frenesi de compra.

“Corretores cansados dizem que terão de racionar, e não vender, ações da Ford”, escreveu The Wall Street Journal em 17 de janeiro de 1956, à medida que os 10,2 milhões de papéis da icônica fabricante não chegavam nem perto de atender à demanda.

Embora Ford II tenha concordado em abrir capital, ele não abriu mão do controle. Usando ações classe B com poder de voto especial, manteve quase o mesmo controle da Ford Motor que seu avô tinha.

Onda tech

Os primeiros IPOs do Vale do Silício, incluindo Varian Associates (1956) e Hewlett Packard (1957), foram vendas relativamente modestas para captar capital e evitar serem adquiridas.

Em 1980, o IPO da Apple já tinha outro propósito: comprar um pedaço de um futuro brilhante, reluzente e lucrativo, na alta tecnologia.

“Desde Eva, nenhuma maçã gerou uma tentação tão grande”, escreveu The Wall Street Journal em 7 de novembro de 1980, no dia em que a fabricante de computadores realizou seu IPO de US$ 110 milhões, o maior desde o da Ford.

O IPO da Netscape, em 1995, trouxe algo novo: uma firma que ainda não dava lucro, mas cuja demanda era tal que o preço dobrou rapidamente. Esse evento ficou conhecido como o Big Bang IPO, o momento em que Wall Street e o americano comum caíram de amores pelas promessas futuras da alta tecnologia.

Wall Street: riscos de ataques cibernéticos com uso de IA preocupam autoridades e grandes bancos
Uma placa de Wall Street em frente à Bolsa de Valores de Nova York (NYSE) em Nova York, EUA, Foto: Michael Nagle/Bloomberg

Foi também um alerta. A Netscape perdeu a guerra dos navegadores para a Microsoft e logo desapareceu. Mas, desde então (que a relação preço-lucro do Goldman vá para o espaço), o que parece importar mesmo são os grandes lucros futuros.

A SpaceX é o exemplo mais recente. Ainda que as visões de Musk de naves gigantes, data centers orbitais de IA e cidades em Marte continuem em larga medida no campo da aspiração, a SpaceX é hoje a sexta firma americana mais valiosa em bolsa, com valor de mercado acima de US$ 2,5 trilhões.

A própria firma reconhece no prospecto: “Temos histórico de prejuízos líquidos e podemos não atingir lucratividade no futuro.”

E, para ter um pedaço da fabricante de foguetes, os investidores precisam abrir mão de alguns direitos tradicionais como acionistas. Musk mantém 85% do poder de voto na companhia usando a mesma manobra de classes de ações que Henry Ford II inaugurou em 1956.

Ainda assim, há fila para comprar ações, assim como houve no passado para a B&O, para a Ford e para a Netscape.

Algumas coisas nunca mudam. Entre elas: o Goldman Sachs está, novamente, no centro de tudo, embolsando US$ 100 milhões como co-coordenador líder do IPO da SpaceX.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Rikardy Tooge

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