Poucos dias após acordo histórico, EUA e Irã voltam a trocar ataques no Golfo Pérsico
A trégua entre Estados Unidos e Irã, firmada há menos de uma semana, começa a apresentar sinais de fissura.
Drones iranianos atacaram a principal base dos Estados Unidos no Bahrein nas primeiras horas deste sábado (27), e um navio foi atingido por projétil não identificado no Estreito de Ormuz, em mais um capítulo de uma escalada militar de três dias que ameaça o acordo bilateral assinado por Washington e Teerã.
O Ministério das Relações Exteriores do Bahrein informou que vários drones iranianos atingiram o país, que abriga a 5ª Frota da Marinha dos EUA, principal base americana no Golfo Pérsico.
Em paralelo, um grupo naval britânico relatou que um navio-tanque foi atingido por projétil no Estreito de Ormuz, embora dados de rastreamento mostrem que múltiplas embarcações continuaram a transitar pela passagem na manhã deste sábado.
A escalada começou na quinta-feira (25), quando um drone iraniano atingiu um navio-contêiner em Ormuz. Os Estados Unidos responderam na sexta-feira (26) com ataques a depósitos de mísseis e instalações de radar iranianas.
Na manhã deste sábado, o Irã reivindicou ter atacado posições americanas no Golfo Pérsico em retaliação. Um funcionário americano não identificado disse à CNN, após os ataques, que a ação “não constitui um retorno a operações de combate de grande escala por enquanto”.
A acusação cruzada
Os dois governos trocaram acusações de violação do cessar-fogo. O Ministério das Relações Exteriores do Irã chamou o ataque americano de “violação explícita do primeiro parágrafo do Memorando de Entendimento” assinado pelos dois países no início deste mês.
A Guarda Revolucionária Islâmica do Irã reivindicou ter atacado sites americanos em resposta, sem especificar quais. O Comando Central dos EUA não respondeu a pedido de comentário sobre as alegações iranianas.
O vice-presidente americano, JD Vance, disse que os EUA “honraram” o acordo. “Se eles têm discordâncias sobre como o Memorando está sendo aplicado, podem pegar o telefone”, escreveu Vance na rede social X, na sexta-feira. “Mas violência será respondida com violência.”
A escalada estende o conflito em torno da passagem para um terceiro dia e ameaça desacelerar a retomada do tráfego marítimo em Ormuz aos níveis pré-guerra.
O Joint Maritime Information Center, organismo internacional que monitora a segurança marítima na região, elevou neste sábado o nível de ameaça em Ormuz para “substancial” e publicou uma área de alerta para possíveis minas que abrange grande parte da rota de trânsito habitual.
Acordo do Líbano balança
Mesmo com o acordo bilateral entre EUA e Irã sob pressão, houve progresso aparente em um ponto crítico das negociações: a invasão israelense do Líbano e o conflito com o Hezbollah, milícia apoiada por Teerã, que já matou milhares de pessoas. Na sexta-feira, Estados Unidos, Israel e Líbano assinaram um acordo inicial em Washington, voltado a abrir caminho para o fim do conflito e, eventualmente, uma paz duradoura.
Mas o avanço durou poucas horas. Na manhã deste sábado, o chefe do Hezbollah, Naim Qasem, declarou o acordo “nulo e sem validade”, e prometeu continuar combatendo as forças israelenses no sul do Líbano. O grupo não foi incluído nas negociações em Washington.
Tensão segue
Desde a assinatura da trégua de 60 dias na semana passada, o presidente Donald Trump tem reiterado que voltará à ação militar contra o Irã se Teerã violar os termos do acordo.
O memorando prevê o fluxo de embarcações pelo Estreito de Ormuz e negociações sobre o programa nuclear iraniano em troca de alívio de sanções, incluindo o waiver histórico anunciado pelo Tesouro americano na segunda-feira (22), que permitiu ao Irã vender petróleo em dólar pela primeira vez em quase 40 anos.
Os dois lados continuam em conflito sobre cláusulas centrais do acordo, incluindo se o Irã imporá pedágios ou outros custos a navios que queiram cruzar Ormuz. Omã teria dito a autoridades europeias que embarcações podem acabar precisando pagar taxas.
A decisão americana de atacar mostra que Trump está disposto a usar força militar para manter a livre navegação no Estreito. Os ataques iranianos, por sua vez, mostram que Teerã busca manter controle sobre a passagem, fechada em larga medida desde o início da guerra em 28 de fevereiro e que se tornou seu maior ponto de alavancagem nas negociações com os EUA, ao prejudicar a economia global.
Teerã tem dito repetidamente que navios não podem cruzar Ormuz sem sua autorização. Na quinta-feira, alguns navios-tanque deram meia-volta após receberem advertências da Marinha iraniana. O Comando Central dos EUA, em comunicado divulgado na sexta-feira, disse que continuará a “fornecer coordenação de passagem segura e apoio a embarcações comerciais que transitem pelo Estreito”.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Rikardy Tooge

