Esqueça a França. A China é a nova campeã mundial do foie gras
Quando Nadia Meliani se mudou para Pequim há uma década para abrir um restaurante francês, ela não imaginava que a China se tornaria um polo global de foie gras — muito menos que ela própria acabaria trabalhando na indústria.
Hoje, a chef francesa passa longos dias em uma fazenda de foie gras no nordeste da China tentando encontrar o sabor perfeito, suculento e marcante. Ela e seus sócios querem atender ao apetite dos consumidores chineses mais ricos. Um dia, acredita ela, até clientes franceses poderão querer experimentar o produto.
O empreendimento de Meliani faz parte de um improvável crescimento que ocorre do outro lado do mundo em relação ao Périgord Noir, região no sudoeste da França famosa pela iguaria. Produtores chineses já representam 45% da oferta global de foie gras, segundo relatório de junho do banco estatal China International Capital, com uma produção de 11 mil toneladas por ano.
firmas chinesas também estão ganhando espaço em outros alimentos considerados luxuosos, como caviar e trufas. As exportações chinesas de trufas mais que triplicaram desde 2022, enquanto a cadeia de fornecimento de caviar, antes liderada por Irã e Rússia, agora é dominada pela China.
“Durante décadas, entre consumidores ocidentais, ‘Made in China’ era associado a um produto barato, de baixa qualidade e simples”, disse Even Pay, diretora da consultoria Trivium China e especialista em agricultura chinesa. “Na última década, o que realmente vimos foi o surgimento de uma série de marcas feitas na China cujos produtos são de alta qualidade e vendidos a preços menores”, afirmou.
Usando fazendas industriais de esturjão para produzir centenas de toneladas da iguaria, firmas chinesas de caviar responderam por 40% das exportações globais no ano passado, segundo dados do Centro de Comércio Internacional.
A firma chinesa que vende caviar sob a marca Kaluga Queen é a maior produtora mundial do produto. A companhia, Hangzhou Qiandaohu Xunlong Sci-tech, levantou mais de US$ 150 milhões em uma oferta pública em Hong Kong em junho e vende a maior parte de seu caviar fora da China.
O avanço do foie gras chinês
O boom do foie gras surgiu a partir de um esforço de Pequim para encontrar indústrias sustentáveis para vilarejos rurais deixados para trás enquanto trabalhadores migravam em massa para as cidades. O governo apoiou o crescimento do setor, segundo Pay, oferecendo empréstimos e assistência de marketing.
Hoje, os produtores estão concentrados nas províncias orientais de Shandong e Anhui, onde agricultores produzem milhares de toneladas de foie gras alimentando patos e gansos à força para aumentar o tamanho de seus fígados. O órgão é então retirado e processado antes de ser servido, podendo ser preparado grelhado ou servido frio sobre pães.
Meliani, a chef que virou empreendedora, acredita que o foie gras chinês ainda tem espaço para melhorar. A textura é boa, diz ela, mas o sabor não permanece na boca como deveria.
Embora o foie gras esteja longe de ser um prato tradicional chinês, a culinária local já inclui pato e miúdos de carne, como tripas, o que ajuda consumidores chineses a aceitarem a criação francesa. Executivos do setor afirmam que firmas de catering agora disputam o foie gras para adicionar um toque de luxo a casamentos e banquetes.
Restaurantes e produtores estão criando ofertas inovadoras, como sorvete de foie gras, foie gras com sabor de mirtilo ou rolinhos de sushi cobertos com a iguaria. Em uma popular rede chinesa especializada em pato à Pequim, chefs moldam o foie gras no formato de uma cereja para ser consumido junto com a carne.
O produto ainda é, em grande parte, um luxo restrito à elite das grandes cidades. O consumidor chinês médio não tem gastado muito ultimamente, diante da desaceleração da economia. Mas o preço mais baixo do foie gras local — o francês pode custar quase o dobro — amplia seu apelo.
Ignace Lecleir, fundador do TRB Hospitality Group, que administra oito restaurantes sofisticados em Pequim que servem foie gras produzido na China, disse que existe “definitivamente uma demanda muito maior do que antes”. Ele afirmou estar surpreso ao encontrar o produto não apenas em restaurantes ocidentais, mas também em estabelecimentos chineses mais simples.
China mira exportações
Fora da China, a venda de foie gras chinês ainda está limitada a alguns pequenos mercados. Mesmo assim, alguns integrantes da indústria acreditam que o produto pode seguir o padrão já visto em outros setores, no qual exportadores chineses, fortalecidos pela forte concorrência doméstica, conquistam mercados globais com preços menores.
Ma Lijun, gerente-geral da Shandong Chunguan Food, firma que emprega 500 pessoas e produz mais de 3 mil toneladas de foie gras por ano, disse que a indústria doméstica se tornou extremamente competitiva, com “guerras de preços intermináveis” nos últimos cinco anos. Para a próxima década, ela espera que metade da receita da companhia venha de fora da China.
Macau, centro de cassinos, pode ser um exemplo do que está por vir. A antiga colônia portuguesa é administrada por Pequim como uma região especial da China, mas possui regras próprias de importação e funciona como uma espécie de mercado internacional para produtores do continente. As firmas chinesas estão avançando rapidamente.
Hugo Ao, gerente de vendas da distribuidora de alimentos Olivier Pacific, vende foie gras espanhol para restaurantes e cassinos em Macau. Ele afirmou que a firma perdeu clientes para fornecedores chineses mais baratos, que vendem o produto por cerca de US$ 17 a libra, contra US$ 28 dos produtos espanhóis. Isso obrigou a Olivier Pacific a reduzir preços para competir, disse Ao.
A União Europeia está se preparando para essa ofensiva. Neste ano, o bloco reforçou regras de rotulagem do foie gras. As normas impedem produtores estrangeiros de tentar fazer seus produtos parecerem autênticos usando expressões como “estilo Périgord”.
Alexandre Léon, presidente da associação de foie gras do Périgord, disse que, se as importações chinesas chegarem, os consumidores podem hesitar inicialmente, mas o preço acabará prevalecendo.
“Isso pode mudar tudo”, afirmou Léon.
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Autor: Karla Mamona