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Frete de contêiner dispara e encarece importações no Brasil. A conta vai chegar na Black Friday

As promoções da Black Friday de novembro, hoje a principal data do varejo brasileiro, começam a serem decididas já em agosto.

É o momento em que fabricantes e varejistas negociam as compras que vão abastecer as lojas, muitas delas vindas do exterior ou com componentes vindos de lá. E, neste ano, é aí que será definido que talvez a promoção não venha tão a preço de banana assim. Isso porque o custo de frete marítimo mais que dobrou em poucas semanas.

A conta deve aparecer não apenas nos preços cobrados mas também no que vai estar nas prateleiras: os produtos de margem menor ou que ocupam mais espaço nos contêineres podem perder lugar.

Giovanni Cardoso, CEO do Grupo MK, dono da Mondial e detentor da licença para fabricar produtos da Aiwa no Brasil, conta que o frete de um contêiner de 40 pés – o mais comum – da Ásia para o Brasil saiu de US$ 3 mil em abril para US$ 8 mil no início de junho.

O aumento foi escalonado a partir de maio, subindo cerca de US$ 1 mil por semana. No início de julho, recuou para uma faixa entre US$ 6 mil e US$ 6,5 mil; e deve permanecer em torno de US$ 6 mil ao longo de agosto, calcula o empresário.

Efeito não é imediato

A questão é que o frete mais caro não se reflete imediatamente em preços mais altos nas negociações com as varejistas e muito menos nas lojas. Os contêineres embarcados entre maio e junho, no pico dos preços, levam cerca de 60 dias para alcançar o Brasil e estão desembarcando só agora.

É esse custo que vai entrar nas negociações abertas pela indústria com o varejo a partir de agosto. “A negociação vai começar em cima de outras bases”, reforça Cardoso.

Giovanni Cardoso, CEO do Grupo MK, dono da Mondial (Divulgação)

Até o momento, os estoques acumulados estão ajudando a amortecer o impacto sobre o varejo. “Como a indústria tem um estoque alto, não sentimos tanto ainda”, afirma um executivo de uma das maiores redes de eletroeletrônicos do país, que falou ao InvestNews sob condição de anonimato.

Mas os primeiros sinais de que não teremos tantas promoções assim começam a surgir. Ações promocionais normalmente oferecidas pelos fabricantes às varejistas estão mais escassas, em uma tentativa de equilibrar as mercadorias compradas com frete mais barato e os novos lotes, que chegarão com custo maior.

Magazine Luiza e Grupo Casas Bahia hoje carregam a vantagem de possuírem estoques maiores do que há um ano. O Magalu fechou o primeiro trimestre com R$ 7,6 bilhões em produtos, 5% a mais do que em igual período de 2025. Já a Casas Bahia cresceu 7% no mesmo comparativo, chegando a R$ 5,4 bilhões de estoque.

As duas firmas atribuíram o aumento à formação de estoque para a Copa do Mundo, e não ao frete mais caro. O efeito colateral, no entanto, é semelhante: a mercadoria comprada antes do pico funciona, na prática, como um colchão para evitar um grande repasse de preços.

Por que o frete disparou

A alta não se limita à rota entre Ásia e Brasil nem ao tipo de carga transportada pelos fabricantes de eletroportáteis.

Um levantamento da DHL Global Forwarding sobre o mercado de contêineres refrigerados mostra que o congestionamento portuário global chegou, em junho, ao mesmo nível do pico da pandemia, em 2022, quando se instalou uma guerra por contêineres.

Só que, desta vez, a ruptura da cadeia ocorre por causa dos ataques envolvendo Estados Unidos e Irã. O relatório aponta a manutenção dos desvios de rota pelo Cabo da Boa Esperança e a instabilidade no Estreito de Ormuz como os principais fatores de restrição à capacidade global do transporte marítimo.

O índice que acompanha o frete de carga seca com saída de Xangai – referência para o tipo de contêiner usado por fabricantes de eletroportáteis – acumula alta de 84% em 12 meses, segundo a DHL. O preço do combustível usado pelos navios continua mais de 30% acima do nível de fevereiro, mesmo depois de um recuo recente.

A exposição a essa volatilidade depende do contrato de cada firma, explica Leandro Barreto, sócio-consultor da Solve Shipping, consultoria especializada em fretes internacionais

Barreto diz que entre 60% e 65% da capacidade de um navio costuma ser ocupada por cargas contratadas antecipadamente, com preços travados independentemente das oscilações do mercado. O restante viaja no chamado mercado spot, sujeito à variação integral dos preços.

“Quem tem contrato de longo prazo sofre menos essa volatilidade”, diz o consultor. Enquanto a capacidade dos navios permanecer no limite, ele recomenda aos clientes evitar a troca de operador logístico por pequenas diferenças de preço.

Parte da alta também é sazonal. Até mesmo antes da pandemia, julho, agosto e setembro sempre foram meses de frete mais caro, devido à formação de estoques para as vendas de fim de ano e ao embarque de safras como a do algodão.

O que tornou maio e junho diferentes, segundo Barreto, foi a coincidência de três fatores pouco comuns na mesma janela: a antecipação da alta sazonal; um pico nas exportações de carros chineses provocado por uma mudança tarifária nos EUA; e a corrida de importadores que haviam adiado compras, apostando que a guerra duraria poucas semanas, mas que precisaram embarcar tudo de uma vez quando o conflito se prolongou.

O efeito nas prateleiras

O impacto do frete sobre o preço final dos produtos não será uniforme, por óbvio. Mas o setor trabalha com alguns cálculos, que trazem a dimensão do repasse.

O executivo do varejo ouvido pelo InvestNews que preferiu não se identificar diz que, como o frete de um contêiner tem um valor fixo em dólares, ele pesa proporcionalmente menos sobre um produto mais caro do que sobre outro de menor valor.

Cardoso, da Mondial, olha também para o espaço físico. Quanto menor o produto, mais unidades cabem no mesmo contêiner e mais o custo do transporte pode ser dividido.

A sanduicheira ilustra essa conta. Por ser compacta e caber em grande quantidade no contêiner, o peso do frete sobre o custo final do produto passou de 8% para 12%, segundo Cardoso. O impacto é menor do que em itens maiores, que ocupam mais espaço e permitem diluir o transporte entre menos unidades.

Para esta Black Friday, o executivo aposta em maior demanda por ventiladores e climatizadores, impulsionada pelo calor mais intenso associado ao El Niño, além de air fryers, fornos e secadores de cabelo multifuncionais.

Com o orçamento do consumidor mais apertado e o crédito mais caro, Cardoso espera uma migração para produtos cujo parcelamento exija um desembolso mensal menor, mesmo que o preço à vista não seja o mais baixo da categoria.

Produção local ajuda

A produção nacional oferece outra camada de proteção. Cerca de 81% do faturamento da Mondial, por exemplo, vem de fábricas no Brasil, principalmente na Bahia e em Manaus, o que reduz a exposição direta da companhia ao custo de importar produtos acabados.

Ainda assim, Cardoso sinaliza reajustes a partir de agosto. Parte dos componentes usados na fabricação local vem do exterior, e o encarecimento desses insumos já pressiona as margens, embora em proporção menor do que para firmas que importam o produto pronto.

Barreto, da consultoria Solve, descreve o fenômeno como uma espécie de seleção natural. A cada disparada do frete, os primeiros produtos a perder espaço são aqueles de menor valor agregado e com forte concorrência por preço.

O pneu é um dos exemplos citados por ele: uma produto de margem apertada em que qualquer aumento do custo logístico pode retirar a competitividade do importador.

Bens de maior valor, como eletrodomésticos de linha branca e eletrônicos, conseguem absorver melhor o custo adicional sem perder tanto espaço nas prateleiras.

Criada neste ano a partir da fusão concretizada das duas maiores concorrentes do varejo pet, a Petz-Cobasi também sentiu a forte alta do frete no segundo trimestre. Houve algum recuo em julho, e a companhia espera uma normalização ao longo do segundo semestre, embora o cenário continue sensível ao ambiente macroeconômico.

Uma parcela relevante dos acessórios das marcas próprias do grupo, como Zee.Dog e Flicks, vem de fornecedores asiáticos.

O impacto tende a ser ainda maior para pequenos e médios importadores. A Rainbow, sistema americano de limpeza e purificação de ar vendido no Brasil exclusivamente por venda direta, ilustra esse extremo.

Karine Kanaiana, representante autorizada da marca no país, afirma que o custo de um contêiner de 20 pés na rota entre Miami e Santos saiu de uma faixa de US$ 800 a US$ 1.400, em 2018 e 2019, para até US$ 7 mil atualmente. Nem a queda de 15% a 20% do dólar no período foi suficiente para compensar o aumento.

O preço final do aparelho subiu de R$ 13 mil, no auge da pandemia, para R$ 20 mil. As vendas, que antes giravam entre 30 e 40 unidades por mês, caíram para duas a quatro.

Para sustentar o faturamento e alcançar um público mais amplo, Kanaiana passou a distribuir também aspiradores robô e modelos portáteis, de preço mais baixo.

É o caminho para quem precisa lidar com as mudanças de rota externas e internas da economia.

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Autor: Raquel Brandão

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