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Investimento bilionário e renováveis: a ‘agenda final’ de Ivan Monteiro na Axia, ex-Eletrobras

O engenheiro Ivan de Souza Monteiro, que completa 66 anos em novembro, está no capítulo final de sua agenda no comando da Axia Energia, antes conhecida como Eletrobras.

No início deste mês, a firma anunciou que Monteiro irá deixar o comando da maior firma de energia elétrica do Brasil em abril do ano que vem, após o executivo liderar a mudança de uma ex-estatal em uma firma com menos custos e mais focada em operações rentáveis em energias renováveis.

Foi sob seu comando que a antiga Eletrobras se desfez da maior parte de suas usinas termelétricas, o que, indiretamente, criou dois novos gigantes no setor: a Âmbar Energia, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, que comprou boa parte desse espólio da Axia, e a Eneva, controlada pelo BTG Pactual, que construiu um portfólio robusto de usinas movidas a gás natural diante do recuo das grandes elétricas brasileiras neste segmento.

A Axia, agora uma firma sem controlador (uma “corporation“), busca mais rentabilidade e para isso avançou em alguns negócios. Em outubro do ano passado, no único leilão de transmissão do ano, foi a grande vencedora, arrematando dois lotes com R$ 1,6 bilhão em investimentos previstos para subestações em Minas Gerais e no Rio Grande do Norte. 

Já no megaleilão de capacidade de reserva, em março deste ano, garantiu a ampliação da Usina Luiz Gonzaga, no rio São Francisco, em um projeto que prevê R$ 1 bilhão e a adição de 246,6 MW à hidrelétrica.

Ainda em 2026, a firma pretende disputar dois leilões de transmissão e estuda participar do primeiro leilão de baterias da história do país. Além disso, ainda tem mais de R$ 20 bilhões em ativos que ainda podem ser vendidos, como já mostrou o InvestNews.

No início dessa agenda final, Monteiro esteve presente em um evento do grupo Esfera Brasil, no Guarujá, litoral paulista. Foi seu primeiro grande evento junto a políticos, empresários e outros agentes do setor monetário após o anúncio de sua futura saída da Axia.

Oportunidade diante da crise

Nele, o executivo defendeu que o país saiba se vender melhor para atrair o que ele chama de “investimentos sofisticados”, que seriam aportes mais estratégicos, especialmente os voltados para a transição energética. É uma agenda que ganhou ainda mais força após o conflito que envolve Estados Unidos e Israel contra o Irã, que relembrou ao mundo que depender de petróleo e outros hidrocarbonetos pode sair mais caro em momentos de tensão.

“O que vivemos hoje é acordar com o Brent de uma forma e terminar o dia diferente. Se vão abrir o Estreito [de Ormuz] ou não. E qual o impacto disso? O preço do petróleo chega a US$ 104, um preço bem elevado. E sabemos qual a consequência disso”, disse Ivan Monteiro, durante um debate que reuniu outros especialistas do setor, entre eles Lino Cançado, CEO da Eneva.

Monteiro relembrou que ocorreu um roteiro parecido com a deflagração da guerra entre Rússia e Ucrânia em 2022, quando o petróleo e seus derivados testaram preços recordes, o que fez especialmente os países da Europa buscarem alternativas que não fossem o gás natural russo.

“Recentemente eu tomei um susto ao ler uma notícia de que a Alemanha estava fazendo um seminário de atração de investimento”, prosseguiu o CEO da Axia, indicando que a maior economia da Europa já entendeu o recado da instabilidade econômica que é depender do óleo.

Ivan Monteiro, CEO da Axia, durante evento promovido pelo Esfera Brasil (Divulgação)

Para Monteiro, o sinal dado pela Alemanha mostra que pode ser o momento de o Brasil dobrar a aposta com sua matriz de mais de 80% de energia renovável para buscar investidores ainda mais qualificados.

“O Brasil tem que ambicionar jogar a ‘Champions League’ [dos grandes investimentos]. É lá que o Brasil tem que estar”, disse. A Champions League, na metáfora dele, é a liga global da captação de capital privado de alta qualidade. “Nós competimos com a Inglaterra, com a Alemanha, com Singapura, com os Estados Unidos, com o Paraguai, com o Uruguai, com a Argentina.”

O argumento, costurado durante mais de uma hora de debate ao lado de executivos da Vale, da Eneva, da associação que representa as eólicas (Abeeólica) e do consultor Adriano Pires, foi sobre uma janela de oportunidade aberta pela crise global – e sobre o que o Brasil precisa fazer para não desperdiçá-la.

Nas maiores do Brasil

Embora tenha sido funcionário de carreira no Banco do Brasil entre 1983 e 2015, em que chegou a CFO (Chief Financial Officer), foi no setor de energia que Monteiro ganhou protagonismo.

Tímido e de perfil discreto, o executivo é apontado por reguladores, concorrentes e especialistas como um executivo correto, de bom trato e exemplar nas atitudes – um requisito considerado essencial para quem representa a maior firma do setor.

Após cuidar da diretoria financeira da Petrobras depois do rombo provocado pelos escândalos de corrupção revelados pela Operação Lava Jato, o executivo assumiu o comando da maior firma do Brasil em meio à greve dos caminhoneiros de 2018, após a renúncia de Pedro Parente.

O período na estatal lhe rendeu mais de 40 processos e um diagnóstico de burnout, quando o esgotamento profissional chega a ponto de causar depressão.

Depois disso, migrou de vez para a iniciativa privada, atuando como conselheiro em firmas como o IRB (Re), presidindo o conselho do Credit Suisse no Brasil e integrando o comitê de risco do Nubank. Em agosto de 2022, chegou para ser o chairman da Eletrobras poucos meses após a firma ter sido privatizada.

Inicialmente, liderou o conselho da Eletrobras para, a partir de setembro de 2023, passar ao cargo de CEO da firma, como sucessor de Wilson Ferreira Jr.: promoveu a transição de uma então ex-estatal para uma firma alinhada com as práticas de mercado, seja no número de funcionários, em métricas de eficiência e na estratégia de investimentos.

O CEO relembrou que a Eletrobras chegou à privatização, em meados de 2022, com a capacidade de investir estrangulada havia quase uma década, herança da Medida Provisória (MP) 579 do governo de Dilma Rousseff, que em 2012 forçou a renovação antecipada das concessões em troca de tarifas mais baixas, e das travas fiscais que limitavam o endividamento da estatal.

Os investimentos caíram de R$ 11,4 bilhões em 2014 para algo entre R$ 2,5 bilhões e R$ 3 bilhões anuais no final do período estatal.

“O melhor resultado que a Axia conseguiu dentro do processo de privatização se refere aos números de investimentos totais da companhia. Antes, ela estava ‘proibida’ de participar dos leilões e agora passa a ser presença constante nos leilões de transmissão e de capacidade, levando nossos investimentos de R$ 3,5 bilhões para R$ 14 bilhões neste ano.”

Futuro

Perto de completar três anos no comando da Axia Energia – firma que mudou de nome para se afastar os tempos de estatal –, Monteiro está em contagem regressiva para deixar a firma. Pelo estatuto da companhia, a idade limite para diretores é de 65 anos.

Élio Wolff, atual VP responsável pela vertical de Estratégia e Desenvolvimento de Negócios, passará a ocupar no mês que vem uma vice-presidência executiva transitória, concentrando as áreas de engenharia, operações, comercialização, tecnologia, regulação e RH. As vice-presidências de finanças, jurídico e governança seguem reportando a Monteiro até abril de 2027.

Se passar no teste dos próximos dez meses, Wolff representará um perfil diferente para o comando da maior elétrica do país. 

Executivo que atuou mais de duas décadas na francesa Engie, em que chegou ao posto de Global Head de M&A da matriz, em Paris, ele deverá guiar o bilionário capex da Axia para novas oportunidades de negócio, depois que a companhia que se desfez de uma série de ativos que já não faziam seu perfil.

São os casos da recente venda para a Âmbar de sua participação na Eletronuclear, responsável pelas usinas nucleares de Angra 1, Angra 2 e pela intrincada Angra 3, cuja conclusão é estimada pelo BNDES em quase R$ 24 bilhões.

Hoje, a Axia opera 81 usinas, todas renováveis: 47 hidrelétricas, 33 parques eólicos e uma usina solar. Soma 44,4 GW de capacidade instalada, o equivalente a 17% da geração nacional, e administra mais de 74 mil quilômetros de linhas de transmissão, 37% do Sistema Interligado Nacional (SIN).

O valor de mercado, que era de R$ 87,5 bilhões no dia da privatização, em junho de 2022, está hoje perto de R$ 160 bilhões.

E tudo isso com um desafio que está longe de ser trivial: garantir que uma gigante engrenagem continue a funcionar em meio a tantas mudanças na sua operação e no modelo de negócios.

“Na Axia, o ritmo tem que ser rápido, porque se falharmos em algo, vai faltar luz em algum lugar do Brasil. Então nossa responsabilidade é muito grande”, conclui Monteiro.

Procurado pelo InvestNews durante o evento do Esfera Brasil, Ivan Monteiro não concedeu entrevista.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Rikardy Tooge

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