O cérebro consegue fazer várias coisas ao mesmo tempo? Novo estudo diz que sim
Todos nós já passamos por isso: participar de uma reunião pelo Zoom enquanto respondemos ao e-mail urgente de um colega. E talvez ainda tentar organizar a agenda das crianças depois da escola ao mesmo tempo.
Fazer várias coisas simultaneamente é uma realidade da vida moderna, mas os cientistas há muito tempo discutem o que realmente acontece dentro do nosso cérebro. Durante anos, eles acreditaram que o cérebro não conseguia de fato realizar duas tarefas ao mesmo tempo. Em vez disso, defendiam que o chamado multitarefa era apenas uma rápida alternância do cérebro entre diferentes atividades.
Agora, pesquisas sugerem que realmente conseguimos fazer várias coisas ao mesmo tempo.
Depois de prática e experiência suficientes, o cérebro consegue reorganizar seus circuitos para permitir a realização de múltiplas tarefas, segundo um estudo recente publicado no Journal of Cognitive Neuroscience.
O cérebro aprende a automatizar determinadas atividades ao transferi-las de uma região chamada córtex pré-frontal — uma área de controle responsável pelo pensamento de alto nível e pela tomada de decisões, que só consegue se concentrar em uma coisa por vez — para outras regiões.
A descoberta pode explicar por que conseguimos desenvolver habilidades, como passar de tocar notas isoladas em um violão para executar solos complexos de rock, ou de apenas driblar uma bola para fazer jogadas em toda a quadra.
No estudo, os participantes — 11 homens e mulheres com idades entre 18 e 29 anos — classificaram imagens de carros geradas por computador em diferentes categorias enquanto os pesquisadores analisavam seus cérebros. Depois, eles praticaram a tarefa de classificação mais de 30 mil vezes ao longo de cinco a dez semanas usando um aplicativo de celular. Os pesquisadores então fizeram novas análises cerebrais.
Os cientistas descobriram que, enquanto os participantes ainda estavam aprendendo a tarefa, o córtex pré-frontal era ativado. Após o período de prática, os exames mostraram que outra região do cérebro passou a participar do processo: uma área chamada córtex temporal, ligada à memória e ao reconhecimento de objetos.
Após o treinamento inicial, as pessoas já realizavam a tarefa com bom desempenho, classificando as imagens com pelo menos cerca de 90% de precisão, afirmou Maximilian Riesenhuber, professor de neurociência da Georgetown University School of Medicine e coautor da pesquisa. Com a repetição, elas ficaram mais rápidas até atingir um ponto de estabilidade — momento em que, segundo ele, a tarefa de classificação teria se tornado automatizada.
O estudo deixa claro que essa automação não acontece de graça, mas exige muita repetição, afirmou Patrick Cox, professor assistente de psicologia da Lehigh University e outro coautor do estudo.
“O cérebro é plástico e flexível. Se você dedicar tempo suficiente, ele consegue transformar tarefas difíceis e que exigem esforço em atividades mais fáceis e que demandam menos atenção”, disse Cox.
Escreva para Aylin Woodward em aylin.woodward@wsj.com.
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Autor: Karla Mamona