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ETFs pegam carona no apetite por renda fixa e já lideram a captação da indústria de fundos no país

A preferência do investidor brasileiro por produtos tradicionais como fundos de gestão ativa passa por um momento de transição, que reflete um processo de amadurecimento e busca por categorias que tenham relação entre retorno, riscos e custos mais equilibrada.

Esse processo tem se refletido nos dados de captação da indústria de fundos de investimento.

Os ETFs, fundos passivos de índice, registraram a segunda maior captação líquida no primeiro semestre, atrás apenas dos fundos de renda fixa, segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados monetário e de Capitais). Em junho, a classe assumiu a liderança, com entradas líquidas (captações menos resgates) que totalizaram R$ 5,9 bilhões.

Segundo Pedro Rudge, diretor da Anbima, a tendência é que esse tipo de fundo ganhe mais espaço no mercado brasileiro. “Quando olhamos para mercados mais desenvolvidos, a participação dos ETFs é bem maior do que no Brasil, justamente por características como custo mais baixo e acessibilidade”, disse o profissional em evento voltado à imprensa.

O movimento foi puxado pelos ETFs de renda fixa, que responderam por 88% da captação da classe em junho, ou R$ 5,2 bilhões. Esse foi o 16º mês seguido de ingressos líquidos de capital positivos para esse tipo de fundo.

No acumulado de janeiro a junho, os ETFs somaram R$ 32,5 bilhões em ingressos líquidos, mais de seis vezes o volume registrado no mesmo período do ano passado.

Só os ETFs de renda fixa acumularam captação de R$ 27,1 bilhões nos primeiros meses do ano, também concentrando a maior parte do capital aportado, contra R$ 5,3 bilhões dos ETFs de renda variável.

Desde dezembro, os fundos de índice ligados à renda fixa superam com folga a captação dos ETFs de ações.

As razões por trás do movimento

Os juros altos, com a Selic em 14,25% ao ano, explicam parte da atração pelos ETFs de renda fixa. Com o juro básico elevado, o investidor em geral tem menos incentivo para assumir risco, já que encontra retornos relevantes em alternativas mais conservadoras. Mas o avanço dos ETFs não se resume ao ciclo de juros.

As características do produto também ajudam a explicar esse crescimento: custo baixo, praticidade e eficiência tributária. Para a pessoa física, as taxas de administração costumam ficar entre 0,1% e 0,3% ao ano, bem abaixo da média do mercado. Além disso, o Imposto de Renda incide a uma alíquota fixa de 15% sobre o ganho na venda das cotas, independentemente do prazo da aplicação.

Outro ponto é que os ETFs de renda fixa não são impactados pelo chamado “come-cotas”, antecipação de IR que incide a cada seis meses sobre fundos tradicionais de renda fixa, como os fundos DI.

Um dos fatores que pode acelerar esse crescimento é a criação dos ETFs ativos, tema em discussão na CVM (Comissão de Valores Mobiliários), disse Rudge.

Diferentemente do ETF tradicional, que replica um índice de forma passiva, o ETF ativo permite que o gestor escolha os ativos da carteira com o objetivo de superar um benchmark, em uma gestão mais parecida com a de um fundo tradicional. Hoje, a regra brasileira só permite ETFs passivos.

A oferta também acompanhou o movimento de crescimento da demanda.

O número de ETFs disponíveis no mercado saltou de 132 fundos em junho de 2025 para 202 em junho deste ano, alta de 53%.

A base de investidores também cresceu: o número de contas passou de 1,14 milhão em junho do ano passado para 1,65 milhão em maio, o dado mais recente disponível.

Renda fixa segue como carro-chefe

Os fundos de renda fixa continuaram como o principal destino do dinheiro na indústria de fundos na primeira metade do ano. A classe de ativos captou R$ 108,4 bilhões entre janeiro e junho, o equivalente a 59% de todo o ingresso líquido da indústria, seguida pelos ETFs.

“A se manter o cenário atual, de juros altos e incertezas externas, a renda fixa deve continuar sendo o carro-chefe das captações”, disse Rudge.

Dentro da renda fixa, o destaque foram os fundos de baixa duração com crédito livre, que captaram R$ 70,3 bilhões, e os de baixa duração soberanos, com R$ 26 bilhões.

Os fundos de renda fixa duração baixa crédito livre também tiveram o melhor desempenho da classe, com rentabilidade de 6,8% no semestre, em linha com o CDI e acima da média dos fundos de renda fixa, de 5,5%.

Além da renda fixa e dos ETFs, os fundos estruturados também se destacaram no período. FIPs (Fundos de Investimento em Participações), FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) e Fiagros (Fundos de Investimento nas Cadeias Agroindustriais) somaram quase R$ 68 bilhões em captação líquida entre janeiro e junho.

Os FIPs captaram R$ 32,1 bilhões, enquanto os FIDCs receberam R$ 30,6 bilhões. Os Fiagros somaram R$ 5,1 bilhões.

A leitura da Anbima é que esses produtos seguem ganhando espaço como veículos de financiamento da economia real. Os FIPs, principal instrumento de private equity e venture capital no país, não registraram nenhum mês de captação negativa nos últimos 12 meses.

O movimento dos FIPs também tem sido sustentado pelo capital estrangeiro, que segue vendo oportunidades de investimento de longo prazo no país e respondeu por cerca de metade da captação líquida desses fundos no período, afirmou Julya Wellisch, diretora da Anbima, no mesmo evento.

Multimercados seguem na lanterna

Na outra ponta, os fundos multimercados continuam sem conseguir virar o jogo de perda de recursos. A classe teve o maior resgate líquido entre as categorias da Anbima, de R$ 9,9 bilhões no semestre, seguida por previdência e ações, com saídas de R$ 8,6 bilhões e R$ 6,5 bilhões, respectivamente.

“Os multimercados refletem a aversão a risco e a dificuldade dos fundos de se mostrarem atrativos em um ambiente em que o investidor continua encontrando boas alternativas na renda fixa”, afirmou Rudge. A rentabilidade média dos multimercados ficou em 3,8% no semestre, abaixo do CDI, de 6,8%.

Já os fundos de previdência foram impactados pelas mudanças tributárias recentes, que afetaram a atratividade do produto, explicou Rudge.

A captação líquida da indústria de fundos como um todo chegou a R$ 184,7 bilhões no primeiro semestre, mais que o dobro dos R$ 84 bilhões registrados no mesmo período de 2025.

Essa foi a segunda melhor captação para um primeiro semestre nos últimos cinco anos, atrás apenas de 2024, quando a indústria teve entradas de R$ 191,3 bilhões.

O patrimônio líquido total da indústria chegou a R$ 11,1 trilhões, alta de 10% em 12 meses, enquanto o número de contas subiu 9,5%, para 45,6 milhões.

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Autor: Paula Barra

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