O outro Charlie da Berkshire Hathaway, herdeiro do império de seguros da companhia
Como executivo escolhido para um dia comandar a divisão de seguros da Berkshire Hathaway — motor que impulsionou o conglomerado de Warren Buffett por décadas — Charlie Shamieh terá a missão de navegar por todo tipo de desastre e calamidade.
E ele já teve bastante prática nisso.
No início dos anos 2000, Shamieh ajudou a resseguradora Munich Re a enfrentar um rebaixamento severo de classificação de risco. Depois, entrou para a American International Group pouco antes do quase colapso da companhia durante a crise financeira de 2008-09, permanecendo durante sua recuperação. Ainda criança, o executivo nascido no Líbano viveu períodos de guerra e instabilidade civil.
Agora, o presidente da Gen Re, de 59 anos, é o escolhido da Berkshire para suceder Ajit Jain quando o executivo de 74 anos decidir se aposentar, informou o The Wall Street Journal neste mês. Jain não indicou quanto tempo pretende permanecer no cargo, e é possível que a Berkshire escolha outro sucessor até lá.
Independentemente de quem assuma, trata-se de uma função gigantesca — não apenas porque as operações de seguros da companhia administram mais de US$ 500 bilhões em ativos.
Todos os anos, o negócio gera bilhões de dólares em caixa que podem ser usados para comprar firmas ou ações individuais. Em resumo, foi isso que transformou a Berkshire no que ela é hoje. Mas os desafios são muitos. Seguradoras patrimoniais enfrentam mudanças históricas e imprevisibilidade crescente. Indenizações relacionadas a incêndios florestais, tempestades severas e enchentes atingiram recorde em 2025. Ao mesmo tempo, famílias enfrentam dificuldades cada vez maiores para arcar com o custo crescente dos seguros residenciais.
Por essas razões, analistas da Berkshire — e até o próprio Buffett — afirmam que acertar o sucessor de Jain era tão importante quanto encontrar o melhor diretor-presidente.
Apesar de ser um nome conhecido no setor de seguros, Shamieh ainda está longe de ser popular entre fãs e acionistas da Berkshire. Para muitos deles, ouvir “o que Charlie pensa” remete imediatamente a Charlie Munger, antigo parceiro de negócios de Buffett, que morreu em 2023.
Jain levou Shamieh para a Gen Re em 2018. Mas não antes de brincar sobre a possibilidade de a contratação trazer azar, dado o histórico do executivo de chegar a firmas justamente quando enfrentavam crises existenciais, segundo a mais recente edição do livro “The Warren Buffett CEO”, de Robert Miles.
“As coisas não estavam desmoronando. Eu estava acostumado ao caos, e aquilo não era caótico”, disse Shamieh sobre sua chegada à Gen Re no livro.
Os últimos oito anos foram relativamente tranquilos. Um relatório da agência de classificação AM Best mostrou que os prêmios emitidos pela Gen Re e sua reserva financeira cresceram nos cinco anos anteriores. Analistas elogiaram a resseguradora por resistir à tentação de expandir negócios sacrificando lucratividade.
Assim como seus chefes — Jain e o novo CEO da Berkshire, Greg Abel —, Shamieh tem perfil discreto e sereno. Ele fala baixo, com leve sotaque australiano adquirido após sua família deixar o Líbano rumo à Austrália.
“Ele certamente mantinha a calma sob pressão”, disse Thomas Russo, ex-diretor jurídico da AIG. “A Berkshire realmente tomou uma ótima decisão. Ajit é alguém especial, mas cada pessoa é especial à sua maneira.”
Ex-colegas da AIG descrevem Shamieh como um gestor sério e extremamente envolvido no trabalho. Ele distribui elogios com generosidade, mas espera que seus funcionários os mereçam.
“É intelectualmente exigente trabalhar para ele”, afirmou Richard Brassington, que trabalhou com Shamieh entre 2012 e 2015.
Ele também trabalha longas horas. Em algumas manhãs, era conhecido por enviar mais de uma dúzia de e-mails antes das 6h.
O árabe foi sua primeira língua. Parentes do lado paterno eram refugiados palestinos que fugiram de disputas territoriais e instabilidade política, segundo o livro de Miles.
Shamieh se tornou cidadão australiano aos sete anos. Sua família embarcou em um voo de Beirute para Sydney patrocinado por sua tia Janette, que havia emigrado antes para a Austrália. Ele comemorou o aniversário durante o voo, recebendo bichos de pelúcia e ouvindo os comissários cantarem “Parabéns pra Você”.
Na escola, descobriu talento para matemática e inglês, o que o levou a cursar ciência atuarial na Macquarie University por sugestão de um mentor. Estudou probabilidade, risco e estatística — habilidades úteis em passagens pelas consultorias Mercer e Oliver Wyman e, posteriormente, no setor de seguros.
Doug Dachille, ex-diretor de investimentos da AIG e antigo chefe de Shamieh, disse que começou a trabalhar com ele após o então CEO da AIG, Peter Hancock, recomendar que Shamieh assumisse uma unidade destinada a encerrar negócios que a seguradora não queria mais manter em carteira.
“Ele é curioso, inteligente e não se intimida”, disse Dachille. “Quando Charlie entrou no meu escritório, nos primeiros cinco minutos eu soube que tinha uma estrela trabalhando comigo.”
A escolha de Shamieh como sucessor de Jain reforça o papel central do resseguro nas operações da Berkshire. Embora apenas cerca de um terço dos prêmios da Berkshire venha do resseguro, a companhia se destaca entre concorrentes pela disposição em fechar megacontratos complexos nesse segmento.
Seu cargo como presidente da Gen Re também lhe deu ampla exposição ao mercado global de seguros. A firma atua em seguros patrimoniais, de responsabilidade civil, vida e saúde, além de operar em mais de 20 países. Em 2005, respondia por 60% dos prêmios de resseguro da Berkshire, antes de a companhia deixar de divulgar separadamente os resultados da Gen Re.
À medida que fundos de private equity avançam sobre o setor de seguros, Shamieh defendeu de forma contundente a estratégia ultraconservadora da Berkshire, baseada em capital robusto. Em um vídeo comemorando os 100 anos da Gen Re, em 2021, afirmou: “Private equity pensa no médio prazo, não no longo prazo.”
Shamieh também demonstra consciência sobre o desafio de substituir Jain. Ele disse ao autor Robert Miles que as ações da Berkshire podem cair quando Jain anunciar aposentadoria e que acionistas não devem esperar um simples imitador.
“Tentei aprender o máximo possível com Ajit”, afirmou Shamieh. “Só espero conseguir fazer uma fração do que ele fez pela Berkshire.”
Jain já observava Shamieh pelo menos desde 2016. Ben Zehnwirth, professor de Shamieh na Macquarie University, enviou um e-mail a Jain informando que havia se tornado conselheiro do executivo na AIG. Jain respondeu: “Ele está entre os melhores do setor.”
Pouco depois, a Berkshire descobriu como era negociar do outro lado da mesa com Shamieh. Em 2017, ainda na AIG, ele ajudou a fechar um acordo com a Berkshire para pagar US$ 10 bilhões ao conglomerado em troca da assunção de até US$ 20 bilhões em sinistros patrimoniais e de responsabilidade civil, incluindo passivos de longo prazo — reivindicações que podem surgir anos após o vencimento das apólices e são especialmente difíceis de prever.
O acordo acabou sendo extremamente vantajoso para a AIG: segundo demonstrações financeiras da companhia, a Berkshire já desembolsou US$ 13 bilhões para cobrir essas perdas.
“Imagino que isso tenha feito Buffett pensar: ‘talvez seja alguém que queremos no nosso time’”, disse Meyer Shields, diretor-gerente da Keefe, Bruyette & Woods.
Escreva para Krystal Hur em krystal.hur@wsj.com e Heather Gillers em heather.gillers@wsj.com.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Karla Mamona