Os EUA esperavam um boom de empregos temporários com a Copa. Não rolou
O boom de contratações que se esperava que a Copa traria para os Estados Unidos parece que, no fim das contas, não se concretizou.
Antes da estreia do torneio em 11 de junho, a FIFA previu que os jogos poderiam criar o equivalente a 185 mil empregos, principalmente no setor de lazer e hospitalidade. Muitos bancos de Wall Street projetavam um empurrão menor, mas ainda assim expressivo.
Em vez disso, o último relatório de emprego mostrou que qualquer avanço nas vagas de lazer e hospitalidade em maio foi completamente apagado em junho, deixando o setor com 21 mil postos a menos nos últimos dois meses.
A Copa do Mundo, um evento de cinco semanas que deve levar mais de um milhão de torcedores a 11 cidades-sede americanas, de Nova York a Los Angeles, deveria dar algum alívio neste ano a uma indústria do turismo pressionada pelo endurecimento das fronteiras dos EUA promovido por Donald Trump e pela disparada nos preços dos combustíveis provocada pela guerra no Irã. Mas hospedagens caras e ingressos salgados levantaram dúvidas sobre o tamanho do impulso.
“Tensões geopolíticas, passagens aéreas mais caras e outras barreiras podem ter limitado as viagens internacionais para a Copa, o que está pesando sobre a quantidade de contratações necessárias em lazer e hospitalidade”, disse Eli Nir, economista para os EUA do TD Securities.
Embora os hotéis americanos tenham registrado receita recorde por quarto disponível na semana de 21 a 27 de junho — o período mais movimentado da Copa até agora —, a melhora veio mais das diárias mais altas do que de um número maior de hóspedes. Dados da CoStar mostram que a receita por quarto disponível subiu quase 17% nos mercados-sede, mesmo com a ocupação caindo quase 3 pontos percentuais na comparação com um ano antes.
Os Estados Unidos, que dividem a organização do torneio com Canadá e México, concentram a maior parte dos jogos. Mesmo antes de a bola rolar, a indústria hoteleira americana já alertava para uma demanda mais fraca. Uma pesquisa de abril da American Hotel & Lodging Association nas cidades-sede constatou que as reservas estavam abaixo do esperado para 80% dos respondentes.
Os operadores de hotéis citaram a devolução, pela FIFA, de blocos de quartos não utilizados, atrasos na emissão de vistos e tensões geopolíticas que pesaram sobre as viagens internacionais, enquanto a CoStar apontou que parte dos viajantes a negócios e a lazer pode ter evitado as cidades-sede por causa dos preços mais altos e da multidão esperada.
As mpresas estão preferindo pagar horas extras aos funcionários que já têm, em vez de contratar novos. Essa é a análise de Shruti Mishra, economista do Bank of America. O banco havia projetado que o torneio criaria até 40 mil vagas entre junho e julho.
No plano nacional, o setor não registrou avanço na média de horas semanais trabalhadas em junho, e o crescimento dos salários seguiu mais lento do que na maioria dos outros setores. Alguns empregadores bem no meio da ação, porém — como o Lala’s Argentine Grill, em Los Angeles —, estão adotando essa estratégia.
Horacio Weschler, dono do Lala’s, contou que as reservas se esgotam quase de imediato nos dias de jogo da Argentina, e que torcedores de lugares como Paraguai e Austrália, que foram assistir às suas seleções na Califórnia, incluíram o restaurante no roteiro. Ainda assim, ele está oferecendo turnos extras aos seus mais de 100 funcionários em vez de treinar novos contratados.
“Está difícil encontrar trabalhadores”, disse Weschler. “Então decidimos dar prioridade a quem já trabalha com a gente há mais tempo.”
Mais perto dos estádios, o avanço foi mais nítido. As contratações de firmas de entretenimento e de alimentos e bebidas nos bairros onde ficam os estádios superaram as de outras regiões em maio, segundo dados da Gusto, uma plataforma de processamento de folha de pagamento.
Já alguns empregadores mais afastados estão se arrependendo de ter reforçado a equipe. Brett Dowell, dono do Hammers Dueling Piano Bar, em Kansas City, diz que contratou cinco pessoas em maio, mas a Copa não conseguiu expandir o movimento turístico na área para além do polo tradicional de entretenimento conhecido como Power and Light District — e ele parou de escalar os novos contratados.
“Os estabelecimentos locais fora dali estão passando por dificuldades”, disse Dowell. “No nosso caso, não valeu a pena.”
Por Augusta Saraiva e Maya Prakash — Bloomberg
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Autor: Alexandre Versignassi