Os juros do Tesouro IPCA+ subiram, mas o seu fundo de renda fixa teve perdas. Entenda as razões
Com as taxas de juros de títulos públicos indexados à inflação em patamares historicamente elevados – as NTN-Bs, ou Tesouro IPCA+, chegaram a superar 8% ao ano em junho –, fundos de renda fixa e previdência com patrimônio concentrado nesses papéis viram seus retornos encolherem. E, em muitos casos, a registrar perdas.
Dos 379 fundos com mais da metade do patrimônio investido diretamente em NTN-Bs, 170 terminaram junho no vermelho, pressionados pela alta dos juros de longo prazo. É o que mostra levantamento do InvestNews com dados da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e da Anbima.
A subida das taxas se reflete no valor dos papéis, que sofrem queda por causa da chamada marcação a mercado, com a sua atualização diária (explicamos mais logo abaixo).
A rentabilidade média dos fundos analisados foi negativa em 0,12% no mês. O resultado ficou bem abaixo da variação do CDI, que avançou 1,12% no período, mas foi menos negativo que o IMA-B, que caiu 1,04%. Referência da renda fixa, o índice IMA-B acompanha uma carteira de títulos públicos atrelados à inflação com vencimentos de curto, médio e longo prazo.
Quem aplicou nesses veículos para aproveitar os juros elevados, portanto, pode ter levado um susto ao encontrar perdas em um cenário de Selic ainda em dois dígitos.
O levantamento considerou fundos de renda fixa e previdência de renda fixa com patrimônio superior a R$ 10 milhões e mais de 50% da carteira alocada diretamente em NTN-Bs.
As perdas se concentraram nos papéis com vencimentos mais longos. Fundos com data-alvo em 2050 caíram, em média, 2,84% em junho. Nos que miram 2060, o recuo foi de 2,7%. Entre os produtos voltados para 2040, a queda ficou próxima de 2,2%.
Por categoria, 48 dos 74 fundos previdenciários analisados registraram retorno negativo. Entre os 305 classificados como renda fixa, 122 fecharam o mês no vermelho.
O pior resultado da lista foi o do JBFO Juros Ativo Longo, com queda de 3,52%. Na sequência aparecem o Trend B50 Master e o Previ Renda Fixa Vértice 2050, ambos com perdas próximas de 2,86%.
A queda não poupou os fundos mais pulverizados: o Trend Inflação Longa, com mais de 7 mil cotistas, recuou 2,06%. O Trend Inflação Geral, com mais de 8 mil investidores, perdeu 1,05%; o Sicoob Inflação, com cerca de 1,5 mil cotistas, caiu 1%.
Por que a alta dos juros derrubou as cotas
Os fundos concentrados em NTN-Bs foram afetados pela chamada abertura da curva de juros futuros, com alta das taxas dos papéis de vencimento no longo prazo.
Enquanto o corte da Selic para 14,25% ao ano na última reunião do Copom ajudou a reduzir as taxas nos vencimentos mais curtos, os juros de longo prazo continuaram pressionados pela piora das expectativas de inflação, pelo risco fiscal e pelas incertezas externas. A NTN-B com vencimento em 2035, por exemplo, encerrou junho pagando 8,14% acima da inflação, ante 7,72% no fim de maio.
Na renda fixa, como explicado acima, taxa e preço caminham em direções opostas. Quando o mercado passa a exigir juros maiores, os títulos já emitidos perdem valor. Esse ajuste aparece diariamente nas cotas dos fundos por meio da marcação a mercado.
Pense em uma NTN-B que paga IPCA mais 7% ao ano. Se, um mês depois, papéis semelhantes passam a oferecer IPCA mais 8%, o título antigo se torna menos atrativo e seu preço cai até que o retorno volte a se alinhar à nova taxa. Quanto mais distante o vencimento, maior tende a ser a oscilação.
O movimento apareceu nos índices da Anbima, a associação de entidades do mercado de capitais. O IMA-B 5, formado por NTN-Bs com vencimento de até cinco anos, avançou 0,22% em junho. Já o IMA-B 5+, que reúne os papéis mais longos, caiu 2,05%, o pior desempenho entre os principais índices de renda fixa no mês. O IMA-B, que combina diferentes prazos, recuou 1,04%.
| Índice | Categoria | O que representa | Rentabilidade mês (jun/26) | Rentabilidade 2026 (acum.) |
| CDI | Pós-fixado | Referência para renda fixa conservadora | 1,12% | 6,85% |
| IMA-B | Inflação | Reúne NTN-Bs de todos os vencimentos | -1,04% | 4,07% |
| IMA-B 5 | Inflação | NTN-Bs com vencimento até 5 anos | 0,22% | 6,50% |
| IMA-B 5+ | Inflação | NTN-Bs com vencimento acima de 5 anos | -2,05% | 2,20% |
O desempenho médio dos fundos, de -0,12%, ficou acima do IMA-B. Isso mostra que, no conjunto, as carteiras perderam menos que o índice, embora o recorte reúna estratégias com prazos e benchmarks diferentes. No ano, contudo, esses fundos têm média de ganhos de 4,9%, contra avanço de 4,07% do IMA-B.
O que esperar para os próximos meses?
O cenário para os próximos meses combina juros reais elevados e volatilidade. As taxas atuais podem ser atrativas para investidores com horizonte de longo prazo, mas uma nova subida das taxas de longo prazo pode ampliar as perdas dos fundos mais expostos.
Para Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, a renda fixa brasileira seguirá oferecendo retornos nominais e reais elevados, desde que o investidor respeite o prazo e o risco de cada papel.
“Os pós-fixados seguem muito competitivos, beneficiados por um carrego confortável próximo à taxa Selic. Por outro lado, as NTN-Bs, com juros reais rodando próximos de 8% em alguns vencimentos, oferecem prêmios historicamente muito atrativos para quem tem horizonte de longo prazo”, afirma.
O que isso quer dizer: se esse investidor mantiver os papéis na carteira até o vencimento, vai receber o retorno contratado e não sofrerá impacto de perdas no meio do caminho por causa da alta dos juros.
Essas taxas embutem riscos fiscais, inflacionários e externos. Segundo Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset Brasil, a inflação persistente, as dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida pública brasileira e os juros americanos devem manter o mercado pressionado e volátil.
A demanda institucional mais fraca também reduz a procura por NTN-Bs de vencimento no longo prazo, o que se reflete nas taxas e nos preços. Segundo Araújo, os resgates persistentes de investidores com esse perfil levaram fundos multimercados e de renda fixa ativa a priorizar ativos de alta liquidez e menor risco de mercado, como as LFTs – o Tesouro Selic, que é um papel pós-fixado -, em detrimento dos títulos indexados à inflação de prazo mais longo.
Com menos compradores para as NTN-Bs longas, o Tesouro pode manter lotes menores ou concentrar uma parcela maior das emissões em LFTs para evitar fixar por décadas um custo real próximo de 8%. A contrapartida é uma dívida mais indexada à Selic e sensível ao nível da taxa básica.
“Para observarmos um fechamento [queda] consistente da curva de juros reais, o mercado precisará de sinalizações concretas de consolidação fiscal e de uma convergência mais clara da inflação para a meta”, diz Araújo.
Onde estão as melhores oportunidades?
Apesar das taxas elevadas em papéis com diferentes vencimentos, Araújo vê uma relação mais equilibrada entre risco e retorno naqueles com prazos intermediários, como as NTN-Bs de 2029 e 2035.
Esses papéis permitem capturar juros reais elevados sem expor o investidor à mesma volatilidade dos títulos que vencem depois de 2045. Quanto mais longo o prazo, maior a sensibilidade do preço a novas mudanças nas taxas.
A recomendação do especialista para investidores é montar as posições gradualmente, combinando títulos atrelados ao IPCA com uma parcela relevante de pós-fixados. A estratégia preserva liquidez e reduz as oscilações da carteira caso os juros reais voltem a subir.
Os prefixados, por sua vez, exigem uma convicção maior de que a inflação e os juros caminharão para baixo. Já as NTN-Bs, o Tesouro IPCA+, acrescentam a proteção contratual contra a inflação, embora continuem sujeitas a perdas no curto prazo.
A TAG Investimentos também vê oportunidade nas taxas atuais. A gestora mantém exposição acima da média às NTN-Bs, especialmente nos vencimentos mais curtos, diante de juros reais entre 7,5% e 8%. A preferência por esses papéis mostra, porém, que considerar as taxas atrativas não significa ignorar o risco de novas perdas nos prazos mais longos.
Para a gestora, o risco também deve ser analisado de acordo com o objetivo do investidor. Quem poupa para aposentadoria, educação ou outra despesa futura corrigida pela inflação deveria observar a preservação do poder de compra no longo prazo, e não apenas a volatilidade mensal.
Há, contudo, uma diferença importante entre comprar diretamente uma NTN-B e investir por meio de um fundo. No título individual, o investidor conhece a taxa e o vencimento e pode decidir carregá-lo até a data final. No fundo, a carteira é renovada continuamente: o gestor vende títulos, compra novos papéis e pode manter a exposição aos juros longos por mais tempo.
Para quem já está nesses fundos, portanto, as taxas atuais podem representar maior potencial de retorno adiante, mas não eliminam o risco de novas quedas no caminho. Quanto mais longa a carteira, maior tende a ser a volatilidade que o investidor precisará suportar. E é importante ter isso em mente.
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Autor: Paula Barra