Alguém vai comprar esta picape elétrica barata com vidros manuais e sem rádio?

Uma nova startup automotiva aposta que os americanos estão tão frustrados com os altos preços dos carros que considerarão comprar uma picape elétrica de dois lugares, com vidros de manivela e sem rádio.
A Slate Auto, montadora sediada em Michigan apoiada pelo fundador da Amazon, Jeff Bezos, está correndo para iniciar a produção ainda este ano de seu primeiro modelo: uma picape compacta e deliberadamente espartana, que custará a partir de US$ 24.950, segundo a firma informou na quarta-feira. Veículos desse tipo praticamente desapareceram das ruas dos EUA há mais de uma década.
Hoje, os compradores de automóveis têm apenas oito modelos novos disponíveis por menos de US$ 25 mil, com montadoras alertando que é difícil — ou até impossível — obter lucro relevante com esses veículos.
A Slate acredita que pode romper essa tendência. “Uma montadora americana pode produzir um veículo acessível — e não apenas acessível, mas um veículo que as pessoas amem”, disse Peter Faricy, CEO da Slate.
Faricy afirmou que as margens brutas serão positivas no modelo básico, e espera que os custos caiam ainda mais conforme a firma se consolide junto aos fornecedores.
As medidas de redução de custos são incomuns: trocar pintura externa por envelopamentos personalizados de US$ 500, oferecer suporte para smartphone no painel em vez de sistema de navegação e vender um kit opcional “faça você mesmo” que transforma a picape em um SUV de cinco lugares.
Mas será que os consumidores vão aceitar algo tão austero — e ainda por cima elétrico?
“Acho que temos uma chance”
Fundada em 2022, a Slate levantou US$ 1,3 bilhão de investidores como Bezos e a TWG Global.
A firma saiu do anonimato em abril de 2025, se posicionando como uma startup enxuta focada em manter custos baixos. Pouco depois, acabou envolvida nas turbulências da indústria automotiva americana.
Pouco mais de uma semana após revelar a picape e seu preço estimado, o presidente Donald Trump impôs uma tarifa de 25% sobre peças automotivas importadas. No outono, o Congresso eliminou um crédito fiscal de US$ 7.500 para veículos elétricos, o que provavelmente teria reduzido o preço do veículo para menos de US$ 20 mil.
A firma representa também um retorno pessoal para Faricy. A sede da Slate em Troy, Michigan, fica a cerca de 100 metros de sua antiga escola primária. Ele trabalhou na Ford antes de ir para a Amazon, onde liderou a expansão do Marketplace.
Faricy entrou na Slate em março, substituindo a veterana da indústria automotiva Chris Barman como CEO. Barman continua na firma em outra função.
O executivo disse ter se surpreendido com fornecedores cobrando uma espécie de “taxa de startup”, por a firma ser nova e considerada mais arriscada. Ele reconhece que a Slate é uma azarona em um setor rígido, onde poucas startups sobrevivem no longo prazo.
“Se conseguirmos executar e lançar no prazo e provar isso, acho que temos chance de construir uma base de clientes entusiasmada”, disse.
Faricy afirmou que a firma foi estruturada para sobreviver independentemente de incentivos governamentais ou problemas na cadeia de suprimentos. “Quando perguntam se dependemos de incentivos atuais ou futuros, a resposta é não”, disse.
Segundo ele, uma das maiores vantagens da Slate é justamente o que ela não tem: uma oficina de pintura e uma planta de estampagem de metal — ambos custos elevados na indústria automotiva. Na fábrica em Warsaw, Indiana, um sistema robótico vai soldar carroceria e chassi.
A firma chegou a considerar eliminar diversos recursos comuns para atingir o preço-alvo, focando no que “realmente importa para os motoristas”, segundo Eric Keipper, chefe de engenharia. Por isso, o modelo não tem iluminação ambiente nem controle de cruzeiro adaptativo. Mas conta com controle de cruzeiro padrão e recursos de segurança como frenagem automática de emergência.
A Slate chegou a cogitar eliminar o ar-condicionado, mas recuou após a demanda dos clientes.
O kit SUV também oferece uma proposta incomum: o proprietário pode transformar a picape em um veículo de cinco lugares e depois voltar ao formato original.
Um retorno às picapes pequenas?
A picape da Slate é menor que um Toyota Corolla, tornando-se a menor do mercado americano. Ela tem o tamanho de uma Ford Ranger de 35 anos atrás.
Picapes pequenas eram populares no passado, mas perderam espaço para modelos maiores e mais caros. Em 2014, representavam menos de 1% das vendas.
Mais recentemente, o segmento voltou a ganhar algum fôlego com a Ford Maverick, que custa cerca de US$ 30 mil e oferece versão híbrida.
Analistas, porém, dizem que consumidores americanos ainda preferem veículos maiores e frequentemente a gasolina.
“Acho difícil que esse veículo atraia além de um público muito nichado”, disse Erin Keating, da Cox Automotive.
Um momento difícil para os elétricos
O lançamento ocorre em um momento de desaceleração da demanda por veículos elétricos nos EUA. As vendas caíram 20% em maio em relação ao ano anterior.
A Slate terá autonomia de cerca de 150 milhas, com opção de bateria adicional de 90 milhas. O veículo poderá usar a rede de recarga da Tesla e recarregar de 20% a 80% em cerca de 30 minutos.
Outros poucos modelos próximos de preço são o Chevrolet Bolt e o Nissan Leaf — sendo que o Bolt será descontinuado e o Leaf teve versões baratas retiradas do mercado americano.
A Ford também planeja lançar uma picape elétrica de quatro portas por cerca de US$ 30 mil, sem ser um modelo “espartano”, numa possível crítica indireta à Slate.
A firma afirma já ter mais de 160 mil reservas e prevê início das entregas no quarto trimestre.
Por enquanto, não há plano concreto para um segundo modelo. Mas a estratégia seguirá focada em simplicidade e baixo custo.
Escreva para Ryan Felton em ryan.felton@wsj.com
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Autor: Karla Mamona