Após US$ 90 bilhões em aquisições, Bob Iger diz adeus à Disney pela segunda (e última) vez

Bob Iger deixou a presidência-executiva da Walt Disney Company há poucas semanas, encerrando as duas décadas em que comandou a maior firma de entretenimento do mundo.
Em duas passagens pelo cargo, ele moldou uma reestruturação completa da companhia com uma série de aquisições agressivas que somaram cerca de US$ 90 bilhões, trazendo para o portfólio Pixar, Marvel, Lucasfilm com Star Wars, e a 21st Century Fox.
- Leia mais: O que o novo CEO da Disney precisa tirar do papel
Comprometeu quase US$ 100 bilhões em parques temáticos e apostou pesado no streaming. A receita da Disney triplicou. As ações multiplicaram-se por cinco entre 2005 e 2020, superando facilmente o S&P 500.
Aos 75 anos, o executivo deixa a Disney com a missão entregue, mas com pendências relevantes para o sucessor, Josh D’Amaro, que assumiu o cargo neste ano após anos no comando da divisão de parques temáticos.
Duas passagens
Esta é a segunda vez que Iger deixa a presidência da Disney. Na primeira, às vésperas da pandemia de covid-19, ele anunciou a saída e nomeou o então chefe dos parques temáticos, Bob Chapek, como sucessor.
A escolha mostrou-se desastrosa.
A gestão de Chapek foi marcada pela disrupção da pandemia, pressão política e uma série de batalhas internas. Foi demitido em menos de três anos, e Iger voltou ao cargo em novembro de 2022 para uma segunda passagem dolorosa de reestruturação e cortes de pessoal.
Ao Financial Times, Iger admite que o segundo round foi muito menos divertido que o primeiro. Sua reaproximação com a firma começou com um telefonema em uma sexta-feira da então presidente do conselho, Susan Arnold.
Iger consultou a esposa, Willow, que disse: “Você tem que dizer sim. Você ama essas pessoas, e você ama essa firma”. Iger aceitou. Na segunda-feira seguinte, já estava de volta ao escritório.
A crise de 2022, segundo Iger, era “significativamente” pior que a herdada em 2005, quando assumiu o lugar de Michael Eisner. Naquela primeira vez, a Disney havia acabado de afastar uma tentativa de aquisição hostil pela Comcast, e a relação crucial com Steve Jobs, da então parceira Pixar, estava em frangalhos.
Reescrevendo Hollywood
Iger definiu três prioridades que viraram mantra durante seu primeiro mandato: conteúdo de qualidade, tecnologia e parques temáticos. E partiu para uma agressiva ofensiva de M&A.
Um a um, mirou Pixar (US$ 7,4 bilhões em 2006), Marvel (US$ 4 bilhões em 2009), Lucasfilm com Star Wars (US$ 4 bilhões em 2012) e Fox (US$ 71 bilhões em 2019).
O cineasta Steven Spielberg, amigo próximo do executivo, disse ao FT: “Nunca houve ninguém na história do entretenimento que tenha tido sucessos sequenciais como Bob Iger. De repente, a Disney tinha um líder que começava a rivalizar com o próprio Walt.”
Houve deals que ficaram pelo caminho. Iger conta ao FT que esteve próximo de comprar o Twitter de Jack Dorsey por “um preço atraente”, mas desistiu na manhã do fechamento, com receio de que seria “uma distração horrível”.
O maior negócio que nunca aconteceu foi uma fusão com a Apple, em conversas iniciais. “Discutimos internamente e tivemos algumas conversas com a Apple, mas nunca foi para frente. A Apple não mostrou tanto interesse.”
O que D’Amaro herda
O sucessor escolhido vem da divisão de parques, assim como Chapek. Hollywood ainda olha com desconfiança para executivos com perfil mais comercial em detrimento dos com bagagem em criação. Mas D’Amaro tem o aval de Iger e a missão clara de continuar a evolução.

Os desafios são pesados. A Disney+ finalmente atingiu rentabilidade, mas com margens muito abaixo das da Netflix. O grupo depende fortemente dos lucros dos parques temáticos, que hoje representam cerca de 60% do resultado operacional, quando antes os estúdios, TV e parques dividiam essa fatia mais ou menos por igual.
O investidor ativista Nelson Peltz, que travou batalha pública com Iger em 2024, segue criticando a falta de margens “estilo Netflix” no streaming, e recentemente sugeriu que a indicação de D’Amaro foi pretexto de Iger para se manter influente.
Legado do streaming
A virada do Disney+ no streaming brasileiro tem ligação direta com a estratégia que Iger desenhou. Em 2024, durante seu segundo mandato, ele decidiu fundir o catálogo do Star+ (lançamento de 2021 para concorrer com Netflix e Amazon Prime na América Latina) dentro do Disney+, e simultaneamente integrar a ESPN na mesma plataforma.
A consolidação simplificou a oferta para o assinante brasileiro, hoje na faixa entre R$ 27,99 (plano básico com anúncios) e R$ 62,90 (plano Premium com ESPN integrada).
A Disney encerrou 2026 como o primeiro estúdio a atingir US$ 3 bilhões em bilheteria global no ano, impulsionada por Toy Story 5 e outras estreias do portfólio que Iger ajudou a construir. Para 2026, a firma anunciou investimento de US$ 24 bilhões em produção de conteúdo.
Sobre a inteligência artificial, Iger se mostrou tranquilo ao FT: “Acho que o artista vai sempre ter vantagem sobre a IA. O Mickey Mouse foi criado há quase 100 anos. Uma boa história, bem contada, vai encontrar seu público, não importa o quê.”
Em dezembro deste ano, seu mandato como membro do conselho também termina. Até lá, Iger continua como funcionário, sem cargo formal. Sobre o futuro, ele disse que tem dúvidas profundas sobre como será a vida sem o título e a estrutura corporativa. “Quem sou eu?”
O que achou dessa notícia? Deixe um comentário abaixo e/ou compartilhe em suas redes sociais. Assim deixaremos mais pessoas por dentro do mundo das finanças, economia e investimentos!
Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: Rikardy Tooge
