Herdeiro da Ray-Ban desafia holding da família em luta pelo controle da fortuna do grupo

Um dos herdeiros do império da marca Ray-Ban desafiou publicamente a holding de sua família para que apoie a sua proposta de compra das fatias de dois de seus irmãos, uma transação avaliada em 10 bilhões de euros (cerca de US$ 11,5 bilhões). A ofensiva de Leonardo Maria Del Vecchio ocorre a poucos dias de uma assembleia de acionistas crucial, marcada para o próximo dia 30 de junho.
Em uma carta aberta publicada na sexta-feira (19) no site do jornal Quotidiano Nazionale, veículo do qual é proprietário, o empresário de 31 anos acusou o conselho de administração da Delfin Sarl de não fornecer explicações claras sobre a mudança de postura em relação ao negócio. Caso a transação seja concretizada, ele se tornará o maior acionista do veículo de investimentos sediado em Luxemburgo.
Em seu manifesto, Del Vecchio afirmou que o impasse deixou de ser puramente monetário e passou a ser uma questão de governança corporativa. Ele questionou o motivo de os questionamentos sobre o acordo terem surgido apenas agora, depois que os acionistas já haviam votado a favor de elementos essenciais da operação e após declarações públicas que descreviam a reorganização como um movimento em prol da estabilidade da companhia.
A intervenção do herdeiro eleva o tom na disputa pelo controle de uma das maiores fortunas da Europa e joga luz sobre os desafios de levar a proposta adiante em meio à complexa estrutura de governança montada pelo fundador da Luxottica — cuja fusão posterior deu origem à gigante EssilorLuxottica SA — antes de sua morte em 2022.
O plano do jovem executivo visa, em parte, pacificar as divisões internas da família, que há tempos enfrenta dificuldades para alcançar um consenso em grandes decisões.
O objetivo de Del Vecchio é adquirir a participação combinada de 25% que seus irmãos, Luca e Paola, detêm na Delfin. O movimento elevaria sua fatia para 37,5%, isolando-o como o maior acionista individual e potencialmente encerrando anos de incerteza em torno da sucessão no império familiar.
No entanto, o fechamento do negócio depende da garantia de um complexo pacote de financiamento de 10 bilhões de euros junto aos bancos UniCredit SpA, BNP Paribas SA e Crédit Agricole SA, configurando um dos maiores volumes de crédito para aquisição já solicitados por uma pessoa física na Europa, segundo fontes familiarizadas com o assunto.
Del Vecchio revelou que, com o avanço das negociações, os bancos credores passaram a exigir maiores garantias sobre a distribuição de dividendos futuros, estabilidade de capital e a estratégia de longo prazo da Delfin. Embora classifique as demandas das instituições financeiras como legítimas, o herdeiro criticou o conselho da holding por não adotar uma posição unificada e transparente para respondê-las.
As críticas aprofundam as dúvidas sobre a governança na Delfin, que além de controlar uma participação expressiva na EssilorLuxottica, detém investimentos de peso em algumas das instituições financeiras mais estratégicas da Itália, como os bancos Monte dei Paschi di Siena e UniCredit, e a seguradora Assicurazioni Generali.
Com um valor patrimonial líquido que ultrapassa os 40 bilhões de euros, a Delfin consolidou-se como um ator de forte influência no cenário corporativo italiano, figurando frequentemente no centro de debates sobre a consolidação bancária e fusões no setor monetário do país.
Agora, os herdeiros devem se reunir no final deste mês para a assembleia anual da holding, que tem na pauta a aprovação de balanços e a distribuição de proventos. Contudo, o recado final de Leonardo Maria Del Vecchio deixa claro que as expectativas para o encontro mudaram drasticamente: segundo ele, a reunião do dia 30 de junho não será sobre dividendos, balanço ou o fechamento do negócio, mas sim sobre algo muito mais profundo, que é a própria natureza e o futuro da Delfin.
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Autor: Sérgio Tauhata
