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Irã fecha Estreito de Ormuz de novo, mas mantém negociações com os EUA

O governo do Irã anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz para o tráfego de navios, alegando uma suposta violação do cessar-fogo por parte de Israel. O anúncio ocorre no mesmo momento em que o Paquistão confirmou o início das negociações entre Estados Unidos e Irã para este domingo, na Suíça.

A decisão de bloquear Ormuz lança uma nova sombra sobre as conversas, cujo objetivo é encerrar de forma definitiva o conflito que mergulhou o Oriente Médio no caos. Embora o impacto imediato sobre o tráfego de embarcações ainda não esteja claro, milhões de barris de petróleo já vinham deixando a região de forma clandestina diariamente, mesmo antes do recente cessar-fogo.

Segundo a agência de notícias semioficial Tasnim, o comando militar conjunto do Irã informou neste sábado que o fechamento é o “primeiro passo” em resposta aos contínuos ataques de Israel no sul do Líbano.

As negociações de paz, originalmente previstas para começar na sexta-feira, foram adiadas devido à intensificação dos combates entre as forças israelenses e os militantes do Hezbollah, grupo apoiado por Teerã. A TV estatal iraniana informou que uma comitiva já está a caminho da Suíça para a abertura dos trabalhos neste domingo.

O vice-presidente dos EUA, JD Vance, que planejava estar na Suíça na sexta-feira, informou que os enviados americanos Steve Witkoff e Jared Kushner já estão no país preparando a base para as discussões técnicas, e expressou esperança de viajar para a Europa nos próximos dias. “Estou muito confiante de que podemos manter o cessar-fogo. Vamos dar uma chance a esta negociação”, afirmou Vance em entrevista à Fox News.

A delegação iraniana conta com figuras de peso, incluindo o presidente do Parlamento e principal negociador, Mohammad Bagher Ghalibaf, o chanceler Abbas Araghchi e o presidente do Banco Central, Abdolnaser Hemmati.

O fator petróleo

Havia uma grande expectativa de que o tráfego na região — por onde passava cerca de um quinto do petróleo e gás natural do mundo antes da guerra — fosse normalizado após o presidente americano, Donald Trump, assinar um memorando de entendimento com o colega iraniano, Masoud Pezeshkian, suspendendo os bloqueios mútuos. No entanto, a nova ameaça de fechamento sugere que o otimismo foi prematuro.

Nas últimas semanas, os navios vinham utilizando duas rotas em Ormuz: uma junto à costa do Irã e outra ao sul, na costa de Omã. Esta semana, Teerã emitiu um comunicado alertando que nenhuma embarcação cruzará a via sem sua autorização. Acredita-se que o trecho central entre as duas rotas tenha sido minado durante o conflito.

Apesar das tensões, o Comando Central dos EUA informou que o fluxo comercial aumentou no sábado, com 55 navios mercantes transitando pelo estreito carregando mais de 17 milhões de barris de petróleo.

“O Irã anunciou o fechamento do Estreito, mas ainda não está claro se isso passa de retórica”, avaliou Daniel Shapiro, ex-embaixador dos EUA em Israel e membro do Atlantic Council. “Enquanto isso, eles enviam negociadores para a Suíça. Isso sugere que eles não querem perder os benefícios prometidos no memorando.”

Alaeddin Boroujerdi, parlamentar iraniano e membro da comissão de segurança nacional, justificou o bloqueio promovido pela Guarda Revolucionária como uma reação à implementação unilateral do acordo inicial. “É natural que utilizemos nosso poder de barganha. Este é o nosso primeiro passo operacional sério e esperamos que seja eficaz”, disse ele à TV estatal.

Ainda assim, mesmo antes do cessar-fogo entre Washington e Teerã, petroleiros já driblavam as restrições na rota de Omã navegando à noite e com os sinais de satélite desligados.

A declaração do Irã deve deixar armadores mais conservadores — cujos navios estão retidos em Ormuz há meses — ainda mais receosos em deixar a área, apesar de forças navais ocidentais terem garantido que a passagem estava liberada a qualquer momento.

“Espero que isso se repita nos próximos dias e semanas. O Irã está usando o controle sobre Ormuz para tentar forçar um cessar-fogo no Líbano”, afirmou Martin Kelly, chefe de consultoria do EOS Risk Group, lembrando que Teerã já havia anunciado bloqueios semelhantes anteriormente que não foram efetivamente cumpridos.

No mercado monetário, o petróleo tipo Brent subiu 0,9% na sexta-feira, cotado a US$ 80 o barril, acumulando alta de 7,7% na semana. O preço da commodity segue cerca de 30% mais alto no ano devido à lentidão para a normalização dos fluxos, e analistas preveem novos picos na abertura dos mercados na próxima semana caso o impasse no Líbano persista.

Hostilidades continuam no Líbano

Embora Israel e o Hezbollah tenham declarado formalmente na sexta-feira que aceitavam uma trégua, a violência não cessou. O exército libanês denunciou na rede social X que bombardeios israelenses atingiram o sul do país e o Vale do Bekaa, deixando mortos e feridos. A agência nacional do Líbano reportou cinco mortes na cidade de Nabatieh.

Por sua vez, o Hezbollah afirmou no Telegram que suas forças emboscaram tropas israelenses que tentavam avançar na mesma região durante a madrugada. O grupo declarou que cumpre o cessar-fogo, mas que “não tolerará tentativas do inimigo de expandir sua ocupação”.

Já as Forças de Defesa de Israel (FDI) informaram ter atacado depósitos de armas e centros de comando do Hezbollah após o disparo de mais de 50 projéteis contra suas posições. Israel reiterou que mantém o compromisso com a trégua, mas continuará agindo para eliminar qualquer ameaça.

Pressão política sobre Trump

O atraso na consolidação do acordo com o Irã representa um revés para Donald Trump, que vem enfrentando duras críticas internas sob a acusação de conceder benefícios monetários e alívio de sanções excessivos a Teerã. O presidente americano defende que o pacto evitará uma crise econômica global ao reabrir integralmente o Estreito de Ormuz.

“O Irã foi completamente derrotado militarmente”, publicou Trump em sua rede Truth Social. “O Irã saiu impune por 47 anos, até que eu cheguei. Então tudo mudou.” Na sexta-feira, durante evento na Base Aérea de Andrews — onde apresentou o novo avião presidencial doado pelo Catar —, Trump ponderou que ambos os lados ainda têm tempo para se entender. “Caso contrário, faremos coisas que não os deixarão felizes, mas não acho que chegará a esse ponto.”

O conflito atual estourou em 28 de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel lançaram ataques aéreos coordenados contra o Irã, desencadeando uma retaliação de Teerã com mísseis e drones que atingiram Israel e nações do Golfo Pérsico, resultando em milhares de mortes.

O cenário também evidenciou o desgaste na relação entre Washington e Tel Aviv. Trump chegou a xingar o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, em telefonemas recentes, acusando-o de quase arruinar o acordo com o Irã ao intensificar os bombardeios.

Israel, contudo, insiste que manterá suas tropas posicionadas na fronteira até ter garantias de que o Hezbollah não representa mais um perigo. Uma pesquisa divulgada pelo Canal 12, o de maior audiência em Israel, apontou que 67% dos israelenses consideram o acordo entre EUA e Irã prejudicial ao país, enquanto apenas 9% o veem como positivo.

EUA e Israel sustentam que a ofensiva militar contra o Irã teve como objetivo frear o desenvolvimento de armas atômicas por Teerã. O regime iraniano nega a intenção de construir uma bomba, embora tenha enriquecido urânio em níveis muito superiores aos necessários para fins de energia civil.

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Autor: Sérgio Tauhata

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