O mundo corre atrás do efeito Ozempic e da próxima geração de GLP-1. A Medley escolheu outro caminho
A febre dos medicamentos para obesidade tomou conta da indústria farmacêutica global. Substâncias análogas ao GLP-1 e ao GIP já concentram 38% de todos os fluxos comerciais projetados de remédios em fase avançada de pesquisa da indústria, enquanto essa doença responde por 25% do valor total das vendas previstas – versus apenas 1% em 2022.
Eli Lilly e Novo Nordisk, donas do Zepbound e do Mounjaro e do Ozempic e do Wegovy, respectivamente, dominam esse mercado. E muitos dos maiores laboratórios do mundo buscam ou já tentaram entrar na corrida.
A Pfizer foi uma delas – e já mudou de planos. A gigante americana apostou em P&D (pesquisa & desenvolvimento) próprio, mas descontinuou três candidatos a GLP-1 em sequência, o último deles em agosto de 2025, após resultados incertos nos testes.
Depois de anos, a firma decidiu não continuar o desenvolvimento interno e, em vez disso, comprou a Metsera, startup com portfólio de ativos de incretinas (categoria de hormônios do GLP-1), por US$ 10 bilhões, em uma das maiores aquisições de 2025.
No Brasil, a Medley fez também outra escolha. A firma que a francesa Sanofi vendeu neste ano para a também brasileira EMS – em processo que ainda depende de aval regulatório (veja mais abaixo) -, é uma das líderes no mercado de genéricos no país e decidiu não buscar seu próprio GLP-1.
A EMS, diga-se de passagem, foi o primeiro laboratório nacional a lançar uma versão de caneta emagrecedora à base de semaglutida depois que a patente venceu no país em março. O Ozivy chegou às farmácias em junho.
O foco da Medley está nas doenças que matam mais brasileiros todos os dias e que não entraram no hype da mídia e de investidores, como hipertensão, doenças cardiovasculares, enxaqueca e diabetes (mas não com canetinhas emagrecedoras).
Tratamentos para perda de peso e oncologia estão no radar da liderança da farmacêutica, mas sem planos concretos de investimento em novas moléculas.
“A Medley está de olho em tudo isso [oncologia e obesidade], mas nós olhamos muito também para o presente”, disse Lúcia Rossato, CEO da companhia, em entrevista ao InvestNews.
A Medley cresceu 20% em 2025 em receitas e outros 23% no primeiro trimestre de 2026 – em que a firma completa 30 anos de existência.
Globalmente, a GSK decidiu adotar estratégia semelhante por estender que uma entrada tardia em um segmento altamente competitivo não valia a pena: decidiu colocar o foco – entre outras doenças – nos efeitos causados pela obesidade, em vez da perda de peso em si.
Oportunidades silenciosas
Enquanto bilhões de dólares são investidos para novas moléculas para obesidade e oncologia, as doenças crônicas mais prevalentes seguem como um oceano de oportunidades – o que inclui o desafio histórico de ampliar a aderência de pacientes ao tratamento.
“As doenças crônicas silenciosas são mais propensas ao abandono do que as não silenciosas”, disse a executiva da Medley.
Hipertensão e diabetes matam em silêncio: o paciente não sente os sintomas, interrompe o tratamento com remédio, e o custo recai sobre o sistema de saúde público e sobre o setor privado em forma de internações e complicações.
Segundo a executiva, parte significativa do crescimento da Medley vem justamente da entrada de novos pacientes nessas categorias – e da adoção de estratégias para reduzir o abandono de tratamento.
O portfólio da Medley cobre atualmente mais de 100 moléculas, com distribuição que vai de farmácia popular a medicamentos de prescrição, e passa por renovação de cerca de 20% ao ano.
As receitas chegaram ao patamar de R$ 1,5 bilhão com esse foco.
“Se você, como laboratório, não renova, fica para trás”, diz Rossato. Em 2025, a firma lançou genéricos para diabetes, enxaqueca e analgesia. Para o segundo semestre de 2026, prevê novos antibióticos. O investimento em P&D é da ordem de R$ 25 milhões por ano.
Mesmo para laboratórios que decidem entrar na corrida do cada vez mais competitivo mercado de GLP-1 e GIP, há quem faça a escolha estratégica de não dedicar tanto capital e P&D.
“As principais moléculas já foram [desenvolvidas]. Acho que vem aí uma nova onda. Só que o mercado de ‘canetas’ [emagrecedoras] lá fora já despencou. Hoje, tem caneta sendo vendida na Índia por US$ 14″, disse João Adibe, CEO da Cimed, em recente conversa com o InvestNews.
Incertezas no radar
Os investimentos da Medley em novas moléculas para doenças crônicas e o crescimento na casa de 20% acontecem em momento de incertezas.
Em dezembro de 2024, a Sanofi anunciou a intenção de tornar a Medley uma firma independente, com venda potencial para interessados. O grupo francês havia adquirido quinze anos antes a firma fundada por Alexandre Negrão em Campinas, no interior paulista, em 1996.
Esse processo culminou com a venda por US$ 600 milhões (cerca de R$ 3,2 bilhões) para a EMS, comandada e controlada pelo empresário Carlos Sanchez, em negócio anunciado em março deste ano e que aguarda aprovação do Cade, o órgão de defesa da concorrência.
O processo de cisão dos negócios da Sanofi, portanto, conseguiu até aqui fugir do risco de perda de valor, seja por “distração” da liderança, por perda de talentos ou queda de resultado, associado a casos como esse.
Na Medley, o turnover de funcionários foi de 4,2% em 2025 e chegou a “próximo de zero” em 2026, segundo a diretora de RH e Comunicação, Solange Pace, na mesma entrevista – números que a firma aponta como inferiores aos do mercado farmacêutico em geral.
A estratégia foi adotar um conjunto de iniciativas para transformar a incerteza dos colaboradores em oportunidades de carreira.
Três comportamentos guiaram o processo: “senso de dono”, agilidade e o que a firma chama de “comportamento ambidestro” — executar o presente sem perder o olhar do futuro.
Indicadores-chave passaram a ser revisados com maior frequência, houve simplificação de processos, e a firma deliberadamente acelerou a transição de um modelo matricial, que demanda mais processos entre áreas, para um mais ágil e condizente com o varejo farmacêutico.
90 mil farmácias
O terceiro pilar da estratégia da Medley tem sido a execução regional. Os medicamentos estão presentes em mais de 90 mil farmácias no Brasil, com uma estratégia que busca a adaptação às preferências regionais.
“Não adianta soltarmos uma campanha nacional linda que não leve em consideração aspectos regionais de cultura e de comportamento desse consumidor”, disse a executiva, que citou dois exemplos.
A firma começou a regionalização de forma mais agressiva há dois anos: do posicionamento de marca em festas locais ao sortimento específico de acordo com o perfil de farmácia.
A tecnologia entrou como aliada. Ferramentas de inteligência artificial (IA) hoje orientam o direcionamento estratégico da força de vendas loja a loja, otimiza o abastecimento nos centros de distribuição e ajuda a prever a demanda por classe terapêutica por região.
Drones já começam a entrar no radar como solução logística para contornar casos de dificuldades extremas para entrega – por exemplo, para comunidades ribeirinhas no Amazonas.
Segundo Rossato, o papel da farmácia em si está em transformação: de vacinação e autocuidado a saúde mental: “o ponto de venda tradicional funciona cada vez mais como hub de cuidados com a saúde”, disse.
A expansão do e-commerce farmacêutico, que continua a crescer acima da média do varejo online, não substitui a loja física: há uma coexistência que funciona de maneira diferente em cada região.
Com a esperada aprovação da venda à EMS pelo Cade, a Medley planeja direcionar mais investimento para ampliar e renovar o portfólio, em tecnologia industrial e expansão.
A fábrica em Campinas recebe aportes constantes – a mais recente, uma máquina alemã de embalagem capaz de fazer 700 blisters por minuto. É um processo contínuo, segundo a chefe da Medley.
“Precisamos investir e precisamos de tecnologia”, diz Rossato, citando o foco em genéricos, em marcas e no acesso pelo consumidor.
— Colaborou Raquel Brandão.
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Autor: Marcelo Sakate
