Cenário reformista pode trazer guinada aos investimentos em 2027. Entenda
Volta dos IPOs, bolsa em alta mesmo após os recordes recentes, Selic em um dígito ou bem perto e dólar abaixo de R$ 5. Esse cenário pode se tornar realidade em 2027, caso realmente se confirmem o resgate da disciplina fiscal e o avanço de reformas estruturais em um próximo governo.
Nesse eventual ambiente reformista, que embute a perspectiva de recuperação da credibilidade das contas públicas, os prêmios de risco exigidos pelo mercado tendem a cair.
Esse isso muda tudo para o investidor. Juros em queda geram uma espécie de efeito dominó que afeta quase todas as classes de investimentos, uma atrás da outra.
A reação dos mercados após o primeiro turno deu uma amostra do que se poderia esperar nos próximos meses.
Mas é claro que esse quadro ainda deve ser tratado como um grande “se”. O que há é uma mudança de expectativa por parte dos investidores.
O risco, portanto, é o de que parte ou até mesmo nenhuma das premissas se concretize. Nessa hipótese, os preços de ativos no Brasil voltariam a incorporar as incertezas atuais.
Na prática, retornariam ao nível no qual estavam antes dessa mudança de perspectiva, com dólar acima de R$ 5, bolsa na berlinda, crédito caro e uma concentração desproporcional na renda fixa.
No entanto, se houver, de fato, um choque de credibilidade fiscal, o dinheiro, simplesmente muda de direção.
E o que fica diferente? Juros em queda aumentam o valor futuro estimado para as firmas na bolsa, indicador que o mercado chama de “valuation“. Com isso, as companhias passam a ficar mais atrativas.
Ao mesmo tempo, com um rendimento menor na renda fixa, os recursos, gradativamente, deixam de ficar represados em títulos de dívida e começam a retornar para as ações.
Um momento de maior equilíbrio de alocação nas carteiras entre as rendas fixa e variável pode ainda trazer os recursos de volta a outros mercados, como os de fundos imobiliários, que têm sofrido com os juros altos nos últimos anos
Para as companhias, juros menores significam custos de financiamentos mais baixos. As firmas reduzem o peso do que pagam pelos empréstimos e podem trocar dívida cara por dívida mais barata. Muitas ganham fôlego para arrumar a casa que ficou bagunçada por vários anos; principalmente as do varejo – Magalu, por exemplo, subiu 30% nesta semana, por conta da virada nas expectativas após o primeiro turno.
Condições de crédito melhores, por sua vez, ajudam a dar mais tração à atividade econômica. No médio e longo prazos, o custo fica menor para quem busca financiar a casa própria, a troca de carro e até as compras no crediário.
A maior confiança no controle de gastos e na solvência das contas públicas tende a manter o dólar mais comportado ante o real. Um câmbio menos volátil e mais baixo, por sua vez, ajuda a manter tanto a inflação corrente, quanto as expectativas sobre os preços futuros sob controle.
Com uma inflação sob controle e as expectativas “ancoradas”, ou seja, quando os agente monetários confiam que a condução do rumo dos juros pelo Banco Central vai assegurar esse equilíbrio nos anos seguintes, o BC poderia levar a Selic a um dígito, um cenário que não ocorre desde o fim de 2021.
Analistas da XP e do BTG Pactual apontam para a possibilidade de o BC ter espaço para cortar a taxa básica até 9,50% a 10,50% ao ano no fim de 2027. Isso, claro, na dependência de o futuro governo manter o controle rigoroso das despesas e o cumprimento das metas fiscais.
Na pesquisa Focus, do BC, que reúne as projeções de instituições financeiras, a estimativa para a Selic no fim de 2027 antes do primeiro turno alcançava 12%, vindo dos atuais 13,75% ao ano.
No câmbio, o Bank of America (BofA) e o J.P.Morgan veem um forte fluxo de entrada de dólares para a bolsa e a renda fixa no Brasil, caso haja uma maior disciplina fiscal. Nesse cenário, o câmbio projetado para o fim de 2027 poderia se situar na faixa de R$ 4,80 a R$ 5,00.
O dólar poderia até mesmo recuar para R$ 4,50, na hipótese de um ajuste mais forte nas contas públicas, com geração de superávits primários acima de 2%, e a aprovação de reformas estruturais.
Para se ter uma ideia do quão baixo esse patamar de dólar representa, basta lembrar que a mediana das projeções de mercado coletadas antes do primeiro turno indicava o dólar a R$ 5,28 no fim do ano que vem.
Projeções do Morgan Stanley e do Citi indicam que a queda expressiva das taxas de juros de longo prazo e a redução do custo de capital para o setor privado impulsionariam o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2027. Sairiam de cena as atuais previsões de avanço de 1,4%, conforme a Focus, e o crescimento poderia alcançar taxas entre 2,5% a 3% já no ano que vem.
A grande rotação
Para os investidores, essa melhora nos fundamentos sustentaria uma mudança fundamental de estratégia, com uma retomada muito forte da renda variável. Com a Selic deixando o patamar contracionista e as taxas reais de longo prazo cedendo, ocorreria a chamada “grande rotação” de portfólios.
O Itaú BBA estima que mudança de direção do dinheiro, incluindo estrangeiros e investidores locais, pode levar mais de R$ 270 bilhões de volta à bolsa ou aos fundos de ações. O cálculo leva em conta a média histórica de alocações.
Com essa injeção massiva de capital e a queda do custo monetário das firmas impulsionando seus lucros, as casas de análise enxergam o Ibovespa nos 250 mil pontos até o final de 2027.
A forte demanda por ações e os preços mais justos em tela reabririam a janela de Ofertas Públicas Iniciais (IPOs) e de ofertas subsequentes (follow-ons).
No melhor cenário, dezenas de firmas de setores ligados à economia doméstica, como varejo, saúde, tecnologia, shoppings e construção civil, voltariam a acessar a B3 para captar recursos.
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Autor: Sérgio Tauhata
