Ethereum x Ethereum Classic: por que se dividiram e qual faz mais sentido para o investidor?
Era 20 de julho de 2016. Enquanto o Brasil vivia dias turbulentos, com o processo de impeachment contra Dilma Rousseff e a Operação Lava Jato dominando o noticiário, também rolava um bafafá no mercado cripto, ainda pouco conhecido por aqui: o ethereum (ETH), hoje a segunda maior criptomoeda do mundo, decidiu se dividir em dois. No jargão do mercado, isso é chamado de fork (bifurcação).
A separação aconteceu porque, um mês antes, ocorreu um hack em um projeto de investimentos construído sobre a rede Ethereum, chamado The DAO. Cerca de 3,6 milhões de ETH foram desviados – algo em torno de US$ 60 milhões na época. A comunidade de desenvolvedores então se dividiu: uma parte defendia alterar a blockchain para devolver o dinheiro aos investidores; outra era contra, argumentando que uma blockchain deveria ser imutável, independentemente do que acontecesse.
No fim, a rede que reverteu os efeitos do ataque seguiu com o nome Ethereum (ETH), enquanto a blockchain original, que preservou o registro do hack, passou a se chamar Ethereum Classic (ETC). Mas, dez anos depois, o que mudou entre elas? Quais são as diferenças práticas entre ETH e ETC? E, para quem pensa em investir, faz diferença escolher uma ou outra?
Uma mudança de algoritmo
Uma das principais mudanças foi a alteração do mecanismo de consenso (o sistema usado para validar as transações) na blockchain do Ethereum (ETH). Ela passou de uma rede Proof of Work (PoW) para Proof of Stake (PoS), em 2022, em uma grande atualização chamada The Merge, que saiu em vários jornais, inclusive aqui.
O que significa cada um? O PoW, mesmo mecanismo usado pelo bitcoin (BTC), exige muitos computadores e gasto de energia para minerar criptomoedas, mas é considerado um modelo mais simples, previsível e resistente. O PoS, por outro lado, exige apenas que criptomoedas sejam mantidas na rede, sendo mais eco-friendly, e veio com um detalhe importante: permite o staking, uma forma de renda passiva parecida com os dividendos das ações.
E tem um ponto que vale a menção sobre o PoW do ETC. Para que esse tipo de rede seja segura, como acontece no bitcoin, é preciso que muitos computadores estejam ligados a ela. Caso contrário, ela fica mais vulnerável a ataques. E foi justamente isso que ocorreu – e manchou bastante a imagem do Ethereum Classic.
Entre 2019 e 2020, o ETC foi alvo de vários ataques de 51%. O que significa? É quando alguém consegue controlar temporariamente mais da metade do poder computacional da rede. Isso gerou perdas milionárias para investidores e permitiu a reorganização de blocos da blockchain. Desde então, a rede implementou mudanças e não sofreu novas investidas desse tipo, mas esse passado ainda assombra um pouco o projeto.
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Uma progressista, outra conservadora
Além de dar um upgrade mais eco-friendly em sua blockchain, o Ethereum também gosta de se atualizar – ele é bem mais progressista nos costumes. Depois do Merge, fez várias outras atualizações, como Dencun (2024), Pectra (2025) e Fusaka (2025). Ufa. E tem mais para vir.
O ETC, por outro lado, ficou mais conservador por princípio, tentando sustentar a mesma ideia de quando foi criado. Mas não que ele não mude. Inclusive, está preparando um upgrade para o fim de 2026, visando mudanças na tesouraria de sua blockchain e na governança.
“O resumo é o seguinte: o ETH se posiciona como camada de liquidação programável em constante evolução. O ETC se posiciona como reserva de valor imutável com contratos inteligentes, priorizando estabilidade de regras sobre inovação”, diz Jorge de Almeida, CEO da Brasil Bitcoin.
A escassez conta pontos
Um dos pontos a favor do ETC é sua política monetária. Assim como no caso do bitcoin, que pode ter apenas 21 milhões de unidades mineradas, o Ethereum Classic possui uma oferta máxima fixa de 210,7 milhões de moedas, com reduções periódicas de emissão.
O Ethereum, por outro lado, não possui um teto de emissão definido. No mercado cripto, costuma-se dizer que ele tem um “supply infinito”, o que gera críticas de muitos players do setor.
“Essa proposta (do ETC) ainda possui valor para um nicho específico”, diz Felipe Martorano, analista de criptoativos da Levante. Isso porque ela é deflacionária. É diferente de uma moeda tradicional, como o real e o dólar, por exemplo, que pode ser emitida a qualquer momento pelo governo.
Mas, segundo o especialista, a menor adoção do ETC e segurança computacional tornam a tese mais restrita, volátil e especulativa. E aí entra um ponto a favor do Ethereum: a adoção.
Muita gente usa o Ethereum
O Ethereum domina em desenvolvedores – são cerca de 8 mil ativos -, usuários e capital institucional, inclusive via ETFs (fundos negociados em bolsa), com cerca de US$ 14 bilhões sob gestão.
A diferença de escala também aparece no valor de mercado. O Ethereum tem capitalização superior a US$ 220 bilhões e cerca de US$ 41 bilhões em aplicações de finanças descentralizadas (DeFi), enquanto o Ethereum Classic gira em torno de US$ 1,1 bilhão e possui apenas cerca de US$ 110 mil bloqueados nesses protocolos.
E o Ethereum também é a base para o DeFi, tokens não fungíveis (NFTs), tokenização, stablecoins e Layer 2 (nome dado às blockchains construídas sobre outras blockchains).
O que tudo isso significa para o investidor?
Embora tenham a mesma origem, as duas criptos têm papéis distintos. Para Martorano, da Levante, o Ethereum pode ser analisado como uma infraestrutura tecnológica e financeira, que cresce conforme o avanço do DeFi, staking e outras aplicações.
Já o Ethereum Classic, diz ele, se aproxima mais de uma tese baseada em imutabilidade e preservação da blockchain original.
“Em uma carteira de longo prazo, o ETH poderia ocupar uma posição mais estrutural, sustentada por adoção, atividade econômica e fundamentos. O ETC, caso incluído, faria mais sentido como um beta mais volátil e especulativo do Ethereum”, diz.
Almeida, da Brasil Bitcoin, vai na mesma linha. “O ETH funciona mais como posição core: aposta em plataforma e infraestrutura de liquidação, com ativo produtivo (staking e taxas), maior liquidez e menor risco relativo dentro de cripto. O ETC funciona mais como posição satélite ou temática: aposta de maior risco em imutabilidade e supply fixo”.
E diz que o ETC não é um “ETH mais barato” nem um “ETH mais seguro”, mas sim uma aposta diferente. “Podem coexistir numa carteira, desde que o investidor entenda que está comprando duas teses, não uma versão econômica da mesma coisa.”
Veja as cotações das principais criptomoedas às 8h30.
Bitcoin (BTC): -1,57%, US$ 63.058,63
Ethereum (ETH): -2,45%, US$ 1.837,11
BNB (BNB): -2,37%, US$ 562,16
XRP (XRP): -1,98%, US$ 1,08
Solana (SOL): -1,65%, US$ 74,79
Outros destaques do mercado cripto
ETFs cripto brazucas perdem R$ 4,1 bi. O negócio não está nada bom para os ETFs brasileiros de criptomoedas. Desde outubro do ano passado, quando o bitcoin bateu sua máxima histórica em dólares, na casa dos US$ 126 mil, esses produtos perderam R$ 4,1 bilhões em patrimônio líquido, segundo dados da Economatica compartilhados pelo Estadão. O movimento, claro, foi influenciado em parte pela queda da maior cripto do mundo no período, pressionada por juros altos, guerras e pela turbulência no setor de tecnologia.
Volume bilionário em bitcoin no Brasil. Depois da queda de 20% em junho, o bitcoin vem tendo um julho mais tranquilo. Até agora, a maior criptomoeda do mundo acumula alta de cerca de 7% nos primeiros 16 dias do mês. Com essa calmaria – que ganhou um empurrão extra da inflação mais fraca nos EUA -, os brasileiros já negociaram cerca de R$ 1 bilhão em bitcoin nas principais exchanges do país.
Dinheirão de Wall Street. A Citadel Securities, uma das maiores formadoras de mercado do mundo e peça importante da engrenagem de Wall Street, fez uma aposta de peso no setor cripto. A firma investiu US$ 400 milhões na Crypto.com, em uma rodada que avaliou a exchange em US$ 20 bilhões e marcou sua primeira captação institucional desde a fundação, há quase dez anos. O dinheiro será usado para acelerar a expansão da companhia em áreas como ativos tokenizados, derivativos e mercados preditivos.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Lucas Gabriel Marins
