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Miami como hub: na onda de empresas brasileiras nos EUA, Link busca aluno americano e expansão global

O PIB do estado da Flórida é equivalente a cerca de 80% do PIB do Brasil. A renda per capita é seis vezes o valor da métrica para o brasileiro. Os dados passam a dimensão do tamanho da oportunidade e costumam ser citados por empreendedores brasileiros que decidem buscar o estado americano e, mais especificamente, Miami, como porta de entrada do mercado dos Estados Unidos.

É uma lista que tem crescido nos últimos anos, de bancos tradicionais a novas forças do setor monetário e firmas de serviços que atuam junto ao consumidor. E que ganhará em breve um representante na educação, com a chegada da Link School of Business em agosto deste ano.

A escola de negócios com foco em empreendedorismo começa a receber alunos de primeiro ano de graduação em administração de negócios na última semana de agosto em sua futura sede em Miami, em Coconut Grove, em uma área da economia que, a exemplo do Brasil, é regulada pelo governo.

A internacionalização faz parte do plano estratégico da instituição há alguns anos. E há razões objetivas para isso. “Queremos que o aluno, independentemente de onde esteja, tenha acesso e possa ‘beber’ dos mercados mais avançados que existem, com todas as implicações desse fato”, disse Álvaro Schocair, CEO e fundador da Link School of Business, ao InvestNews.

Schocair ponderou que o fato de o Brasil representar um dos maiores mercados domésticos do mundo, em uma língua que não é universal como o inglês, acaba tendo o efeito de desestimular planos globais, e mais ambiciosos, de empreendedores do país, a despeito da capacidade de criação de negócios.

Ele apontou como exemplo algumas exceções que fogem à regra do foco doméstico, como a Brex, fintech com soluções de tecnologia para a gestão de despesas e pagamentos por pequenas e médias firmas, fundada no Vale do Silício pelos brasileiros Pedro Franceschi e Henrique Dubugras. A Brex foi vendida no início deste ano ao Capital One por US$ 5,15 bilhões.

Outra razão para a expansão nos EUA é a perspectiva de atração de professores, mentores, palestrantes e outros profissionais mais completos em termos do que há de mais avançado em pesquisa, citando vencedores do Nobel em diferentes áreas. Isso vale também para o acesso a P&D (Pesquisa & Desenvolvimento) em áreas como dados e IA (Inteligência Artificial), software e hardware.

Segundo ele, o plano é que a Link em Miami seja uma escola de negócios com professores americanos e de outros países que morem nos Estados Unidos, para alunos com a mesma procedência diversa.

“A ideia não é ser uma escola voltada para o brasileiro que mora nos EUA, embora isso possa acontecer. Valorizamos a miscigenação que existe na educação americana, com gente de todo o mundo.”

O investimento na operação em Miami chegou US$ 10 milhões (mais de R$ 50 milhões), volume que foi captado pela Link junto a investidores já presentes no quadro de acionistas e novos entrantes, incluindo pais de alunos. Schocair, que é também CEO da gestora Quebec Impact Assets e anteriormente foi sócio e membro do conselho da Tarpon Investimentos, disse que houve demanda acima da oferta.

Autorização para operar nos EUA

O processo de obtenção da licença nos EUA durou um ano e foi classificado pelo CEO e fundador como o maior feito até aqui da trajetória da Link, que nasceu há oito anos no Brasil e que se firmou como uma das escolas de negócios de referência do país pelo seu foco em empreendedorismo.

O fundador da Link se refere ao fato de que não há registros de que outra instituição de ensino do Brasil já tenha conseguido licença para abrir uma faculdade no competitivo mercado americano.

“Por ser uma escola brasileira, os americanos analisam como alguém de fora entrando no mercado, com prós e contras no processo de verificação. E nos saímos bem”, disse Schocair.

“É como se fosse a Champions League da educação. Como disse, queremos atrair alunos americanos pra valer e vermos se temos gabarito para disputar de igual para igual, porque lá muitas escolas têm tradição, muita tecnologia e profundidade de ensino”, disse Schocair.

Segundo ele, o perfil médio do aluno é semelhante ao que a Link busca no Brasil: alunos descontentes com o modelo tradicional de faculdade e que queiram empreender já a partir do primeiro ano, com aplicação prática do aprendizado em novos negócios e uso de tecnologia.

Projeção da sede da brasileira Link School of Business em Miami, em Coconut Grove (Divulgação)

Flórida (e Miami) como palco de disputa

Nos últimos anos, a Flórida se tornou território de disputa por clientes brasileiros, latino-americanos e americanos de firmas de outros setores, notadamente do monetário.

Bancos tradicionais, como Itaú e Bradesco, e instituições especializadas em investimentos, como BTG Pactual e XP, montaram operações tendo como base o estado americano – em alguns casos, com aquisições para reforçar o tamanho local ou ganhar licenças necessárias. Em comum nesses casos, o foco no cliente de alta renda.

Há também novas forças com modelos digitais que escolheram o sul da Flórida como porta de entrada com uma ambição mais abrangente em termos de público-alvo.

O Nubank recebeu no início de 2026 uma licença condicional para montar uma operação nos Estados Unidos, com prazo para abrir um banco nacional em até 18 meses. A sede do banco será em Miami, sob a liderança da cofundadora Cristina Junqueira.

Como parte da estratégia de marca, o Nubank adquiriu os naming rights do estádio do Inter Miami, time do craque argentino Lionel Messi, da Major League Soccer. Uma ação semelhante havia sido adotada por outro player monetário no estado, o Inter, que dá nome ao estádio do Orlando City.

O Nubank também promoveu ativações no fim de abril no Grande Prêmio de Miami de Fórmula 1, a partir do patrocínio iniciado nesta temporada da equipe Mercedes, com os pilotos George Russell e Kimi Antonelli com macacão roxo – o italiano acabou sendo o vencedor da etapa.

Como exemplo da estratégia de associação com o esporte para reforçar a marca junto ao público local, o Itaú é o principal patrocinador do Miami Open, de tênis, há mais de uma década.

Outra firma que escolheu o sul da Flórida em particular como um dos alvos do plano de expansão internacional foi a Oakberry, rede de lojas próprias e de franquias de venda de açaí ao consumidor, com recursos de uma captação junto a fundos geridos pelo BTG Pactual no fim de 2023.

Planos de expansão global

A médio prazo, em cinco ou dez anos, segundo Schocair, o plano é que a Link se torne uma escola com alcance geográfico mais abrangente, com campus em cidades como Madri e Xangai, entre outras.

“Vemos Miami como sede do segundo campus, depois de São Paulo. O objetivo é se tornar uma escola global e que o aluno que se matricule para um curso de quatro anos tenha acesso ao mesmo método de ensino e que ele possa escolher onde vai estudar a cada semestre”, disse o CEO da Link.

Outro foco é o aprofundamento de parcerias voltadas à chamada deep tech, ou seja, com centros de tecnologia de referência como Stanford, MIT (Massachusetts Institute of Technology), Berkeley, IIT (Indian Institutes of Technology) e ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), que atuam com pesquisa avançada e inovações em engenharia em busca de soluções de fato disruptivas.

Por fim, o fundador da Link disse que espera que o fundo de capital de risco já existente e com uma carteira de aportes em projetos dos alunos cresça nos próximos anos a tal ponto que consiga superar o próprio “criador”: “vemos a Link mais como um fundo de venture capital que tenha uma universidade para formar fundadores e donos de negócios do que o contrário, como acontece hoje.”

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Autor: Marcelo Sakate

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