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Para reerguer a Cosan, vendas de ativos precisam somar R$ 10 bilhões – metade já foi

Em reestruturação, a Cosan trabalha para vender R$ 10 bilhões em ativos e tornar a holding criada pelo empresário Rubens Ometto novamente saudável, ainda que menor do que já foi.

O prazo começou a correr em novembro de 2025, quando se encerrou a segunda oferta da capitalização que trouxe os sócios do BTG Pactual e a gestora Perfin para o bloco de controle da companhia. O objetivo, apurou o InvestNews, é equalizar a dívida em 18 meses – até maio de 2027.

“Quanto mais demorar, mais cara fica a dívida e mais coisas vão precisar ser vendidas”, diz uma pessoa a par da operação ao InvestNews. Passados pouco mais de sete meses da entrada dos novos sócios, a avaliação é que o cronograma está evoluindo conforme o esperado. Até agora, a Cosan arrecadou cerca de R$ 5,5 bilhões em uma série de operações desde dezembro. 

Pelo menos R$ 3 bilhões vieram do IPO de sua firma de gás natural, a Compass, em maio, e da venda de 12% do portfólio de terras agrícolas da Radar – sociedade entre o grupo de Ometto e a gestora americana Nuveen – em meados de junho, uma operação que se tornou um imbróglio entre as gigantes do agro Bom Futuro e SLC.

Há ainda R$ 2,8 bilhões que a Cosan levantou no fim de 2025 por meio de um instrumento monetário conhecido como total return swap, que envolveu 9,94% da sua participação na Rumo. Foi uma forma de antecipar caixa mantendo a exposição econômica ao papel.

A Cosan detém hoje 20,33% da gigante de ferrovias diretamente, sem contar o percentual mantido via swap, e está em processo de venda dessa fatia, com as propostas definitivas (vinculantes) previstas para agosto. O negócio conta com oito interessados, como a americana Bunge, a chinesa Cofco e a brasileira Inpasa, maior produtora de etanol de milho do país. 

A expectativa é que os papéis sejam negociados considerando um valor de mercado da companhia de R$ 25 bilhões, o que atribuiria algo como R$ 5 bilhões à participação da Cosan. Somando todas as operações, a Cosan chegaria a pouco mais de R$ 10 bilhões, alcançando a meta.

O que vem depois

Concluída a venda de ativos, a Cosan que sobra será, por óbvio, menor do que a que existia antes da capitalização de R$ 10,5 bilhões liderada pelo BTG e pela Perfin.

Além de vender a fatia na Rumo, a holding optou por não participar da recuperação extrajudicial da Raízen, joint venture de açúcar e etanol com a Shell, o que significou perder o controle do negócio e ficar com uma posição minoritária. Segue, por ora, no controle da Compass, da produtora de lubrificantes Moove e da Radar.

Ainda antes da chegada dos novos sócios, a Cosan já havia desfeito uma aposta frustrada na mineradora Vale em janeiro do ano passado. A operação, somados os efeitos da desvalorização do papel e o custo da dívida usada para financiar a compra, deixou um prejuízo estimado em R$ 7,5 bilhões para o grupo de Rubens Ometto.

A Cosan chegou à reestruturação com uma dívida líquida corporativa de R$ 18,2 bilhões no terceiro trimestre de 2025, véspera da capitalização. Caiu para R$ 9,8 bilhões no trimestre seguinte, já sob uma metodologia ligeiramente diferente.

No primeiro trimestre deste ano (dados mais recentes), subiu de novo, para R$ 11,5 bilhões, por causa da ausência de dividendos relevantes das investidas e de cerca de R$ 1 bilhão em custos com a liquidação antecipada de bonds, mostrando que o processo de desalavancagem não será em linha reta.

André Esteves e Rubens Ometto, controladores da Cosan (Ilustração: João Brito)

O índice de cobertura do serviço da dívida, que mede quanto dos dividendos recebidos das controladas cobre os juros pagos pela holding, caiu para 0,4 vez no início deste ano, um terço do nível de 12 meses atrás. Na prática, os dividendos das investidas hoje cobrem menos da metade das despesas financeiras da companhia. Quando maior esse índice, melhor.

“A Cosan ainda tem um endividamento que não é condizente com o tamanho da estrutura dela”, diz uma fonte. Na leitura dessa fonte, o problema não era um ativo específico, mas o tamanho que a holding ganhou ao longo dos anos, maior do que a geração de caixa das controladas conseguia sustentar diante das atuais taxas de juros.

Passada a reestruturação, a perspectiva hoje é a de que a Cosan não volte a olhar novos investimentos. “Não vejo interesse neste momento e não deve ser o caminho”, prossegue a fonte. “Vai ficar com a holding menor, mas equacionada e sem dívida”, diz.

A ideia é que a Cosan emerja da reestruturação sem dívida mas também sem ambição de crescer por meio de aquisição, pelo menos não no nível da holding. O crescimento futuro, se houver, deve vir de dentro das próprias controladas.

Fim da holding?

Na teleconferência sobre os resultados da Cosan no primeiro trimestre deste ano, realizada em maio, o CEO Marcelo Martins chegou a dizer que era “bastante razoável” imaginar a Cosan deixando de existir em um horizonte de três a cinco anos, com as participações do grupo passando direto aos acionistas. As ações caíram cerca de 5% naquele dia. 

Cinco dias depois, o fundador Rubens Ometto concedeu entrevista ao Estadão para tentar “apagar o incêndio” causado pela declaração do executivo.

“A Cosan não vai acabar, absolutamente”, disse. Chamou a fala de Martins de mal interpretada e prometeu que o negócio seguirá com “cara de dono”, nas mãos da família, “por muitos anos” – o empresário está hoje com 76 anos.

Ometto confirmou a meta de zerar a dívida até o fim deste ano. E fez mea-culpa dos motivos que levaram à crise: “erramos na mão em relação aos juros, fizemos mais investimentos do que devíamos”.

Sobre a sucessão, a resposta que deu foi menos categórica do que o resto da entrevista. “Meus netos estão chegando aí, então tenho de prepará-los”, disse, quando questionado sobre o plano. 

Ometto tem duas filhas, Isabel e Gabriela, de 49 e 47 anos, respectivamente, que nunca assumiram cargos executivos no grupo. Em entrevistas anteriores, o próprio empresário já havia dito que elas participariam do conselho, mas sem função de gestão.

Rubens Ometto, fundador e chairman da Cosan (Bloomberg)
Rubens Ometto, fundador e chairman da Cosan: 76 anos e planos de sucessão (Bloomberg)

Os netos, incluindo Pedro Rubens e João Rubens, filhos de Isabel, já foram nomeados pelo avô em outras ocasiões — um indício de que a dupla pode, no futuro, assumir papel mais ativo no grupo. Da caçula Gabriela há outros três: Maria Eduarda, Gustavo e Frederico.

Enquanto o futuro não se resolve, o acordo de acionistas que trouxe o BTG e a Perfin já embutiu um prazo. Ometto segue como presidente do conselho até 2031, quando completa 81 anos – o limite de três mandatos previsto no acordo assinado com os novos sócios. 

O que acontece depois disso não está definido. Pode ser a holding operando enxuta, sob controle da família, como Ometto insiste que será. Pode ser a distribuição direta das participações aos acionistas, como o CEO Marcelo Martins sugeriu. Ou pode ser, simplesmente, que não exista mais uma Cosan para presidir.

Procurada pelo InvestNews, a Cosan não comentou.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Rikardy Tooge

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