De contrato novo, Light tem R$ 10 bilhões para investir. Precisa provar que consegue parar de pé

A Light de 2026 vive uma realidade que parecia improvável há três anos, quando precisou recorrer a uma controversa recuperação judicial para renegociar R$ 11 bilhões em dívidas e colocou em xeque a renovação de sua concessão no Rio de Janeiro, que se encerraria em junho deste ano.
Após um extenso período de renegociações de dívida, troca de gestão e chegada de sócios endinheirados, a distribuidora – que atende a região metropolitana do Rio desde 1904 – conseguiu no mês passado a renovação por mais 30 anos. Junto com o acordo, anunciou um plano de investimento de R$ 10 bilhões para os próximos cinco anos, mais do dobro do que aplicou no quinquênio anterior.
Em paralelo, um aumento de capital de até R$ 1,5 bilhão deve sair em 90 dias, ancorado pelos acionistas de referência: o bilionário Carlos Alberto Sicupira, o investidor Ronaldo Cezar Coelho e o BTG Pactual. A saída da recuperação judicial está prevista para o segundo semestre.
“A Light voltou. O fato é esse, a Light voltou”, afirma Ronaldo Cezar Coelho, acionista de referência com cerca de 20% da firma, em entrevista ao InvestNews.
O carioca de 79 anos voltou a ser um investidor relevante da Light em 2020, quando comprou ações da Cemig e da BNDESPar no follow-on que pulverizou o controle da companhia.
Ele encontrou uma firma com dificuldades operacionais e de gestão – o papel, hoje cotado em cerca de R$ 5, valia mais de R$ 20 quando montou a posição. “Não dá para acertar todas”, brinca o investidor.
“Mas a Light é uma firma especial, um orgulho do Rio”, reforça Coelho, que fez fortuna na Bolsa investindo a longo prazo em firmas como a fabricante de cigarros Souza Cruz.
Apesar das notícias favoráveis, a Light permanece com o desafio de operar a distribuição de energia em uma das concessões mais complexas do país.
Atende quase 11 milhões de pessoas em uma área de 11,3 mil km², a menor entre as 14 distribuidoras que tiveram a concessão renovada neste ano – e a mais densamente povoada do país. Como comparação, a Coelba, da Neoenergia, que atende todo o estado da Bahia, leva energia a 14,7 milhões de pessoas em uma área 50 vezes maior que a da Light.
Ao adensamento populacional se soma o desafio do furto de energia, o popular “gato”: cerca de 30% da energia que entra na rede da Light não chega como receita, o dobro da média do setor.
Boa parte do furto ocorre em áreas comandadas por traficantes ou milícias, onde a firma não consegue cortar ligações irregulares, trocar medidores ou cobrar inadimplentes. É uma das pressões estruturais que levaram a Light à crise financeira de 2023.
Um contrato mais moderno
Para o especialista Nivalde de Castro, coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico da UFRJ (Gesel), uma das mudanças mais relevantes do novo contrato é o reconhecimento formal das chamadas Áreas com Severas Restrições Operativas (ASRO) – regiões onde a distribuidora simplesmente não consegue atuar.
Um balanço da Light divulgado em 2024 estimou que 35% dos clientes da firma fazem ligações clandestinas no Rio. A definição técnica das ASROs no setor elétrico é mais trivial: são as áreas onde nem os Correios entram. O conceito foi sistematizado pelo Gesel em projeto de pesquisa com a própria Light e incorporado ao decreto que regula as novas concessões.
Na prática, o que o novo mecanismo permite é uma calibragem regulatória mais fina para a distribuidora. Hoje, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) define um único patamar de perdas para toda a área da Light – o nível de perda que a firma pode repassar à tarifa, calculado como média entre o que acontece em Ipanema e em comunidades dominadas pelo crime.

Tudo que exceder esse percentual sai do bolso da concessionária. Com o novo contrato, abre-se caminho para algo que não existia até hoje no Brasil: regras diferenciadas dentro de uma mesma área de concessão, com metas mais flexíveis para locais onde a firma comprovadamente não consegue operar, e mais rigorosas para o restante, em que a operação funciona plenamente.
A nova lógica deve se refletir nos reajustes de tarifas de energia no Rio a partir de 2027, mas o mecanismo que a Aneel vai aplicar permanece em aberto. “Ano que vem é importante porque é momento de botar na praça as novas condições do contrato, além de um reajuste tarifário muito importante”, reforça Cezar Coelho.
Outro problema (e uma vantagem)
Outro problema, também ligado à falta de segurança no Estado, tem sido o furto de cabos elétricos por causa do cobre. Em janeiro, Copacabana e Leme ficaram horas sem luz após um furto – episódio que escancarou, em bairros nobres do Rio, o problema que a Light enfrenta há anos nas áreas dominadas pelo crime organizado.
“Roubo de cabo é uma questão que transcende o contrato de concessão”, diz o professor Nivalde de Castro. O especialista lembra, contudo, que o novo contrato de concessão prevê que as distribuidoras proponham soluções específicas para essas áreas, com a Aneel avaliando caso a caso. “A regulação é assim, mas, acontecendo um fato novo, a gente tem que fazer um ajuste.”
Coelho reconhece que o furto de cabos passou a ser um custo a mais para as firmas. “O roubo de cobre ficou muito sofisticado. Agora, o caminho é investir em cabos de alumínio no lugar, mudar toda a fiação, mas são investimentos pesados”, diz.
Se os furtos são uma realidade que precisa ser administrada pela distribuidora fluminense, a Light tem uma vantagem quando comparada com pares que atuam nas principais capitais do país.
A rede subterrânea da concessionária, herança dos engenheiros canadenses que construíram o sistema elétrico do Rio a partir dos anos 1950, soma 5,6 mil quilômetros – cerca de 12% da rede total da firma e a maior extensão enterrada do país.
Na capital paulista, atendida pela italiana Enel, 1% dos cabos é enterrado. A exposição dos fios é uma das principais causas dos apagões dos últimos anos, quando chuvas e ventos cada vez mais intensos derrubaram árvores sobre a fiação aérea.
Os blecautes de outubro de 2024 e dezembro de 2025 deixaram milhões de imóveis sem luz por dias e levaram o governo federal, o governo de São Paulo e a prefeitura da capital a pedir formalmente à Aneel a abertura do processo para retirar a concessão da Enel SP.
Reestruturação e pessoas
Para sair da crise, além da reestruturação das dívidas – que caíram aproximadamente 44%, para cerca de R$ 6 bilhões –, a Light passou por uma transformação radical tanto no quadro de acionistas quanto na gestão.
Na véspera do pedido de recuperação judicial (RJ), em maio de 2023, o empresário e investidor Nelson Tanure surpreendeu o mercado ao comprar 15% da firma. Conhecido pelo perfil agressivo na renegociação de passivos, Tanure passou a comandar as conversas com credores que culminaram no acordo de abril de 2024.
Reservadamente, os principais acionistas apontam a atuação de Tanure como essencial para o desenho de um plano que garantisse a sobrevivência da centenária firma. Foi nesse período que chegou o atual CEO, Alexandre Nogueira, vindo do grupo Energisa e que substituiu Octavio Pereira Lopes.
Atribui-se a Nogueira a pacificação com os reguladores, que ficaram incomodados com a manobra usada para conseguir pedir RJ. Como firmas que prestam serviços essenciais não podem, em tese, recorrer à recuperação judicial, foi a holding que controla a Light que disparou o mecanismo, levando junto a concessionária.

Em março deste ano, Nelson Tanure encerrou seu investimento na Light diante de crise financeira – e de liquidez – que fez com que boa parte de suas ações na firma fossem tomadas por credores.
A saída de Tanure do conselho ocorreu em comum acordo com os demais sócios de referência, em meio à investigação sobre sua relação com o Banco Master de Daniel Vorcaro.
Hoje, Ronaldo Cezar Coelho, Carlos Alberto Sicupira e o BTG – que entrou na Light em 2025 comprando a posição que pertencia a Vorcaro, já em busca de recursos para honrar seus passivos – formam o trio de acionistas de referência. Juntos, dão o lastro monetário para a saída da recuperação judicial.
Para Coelho, porém, o investimento na Light transcende a análise fundamentalista. Ele estudou ao lado da sede da companhia, no Colégio Pedro II, no centro do Rio. “A Light, pra mim, foi um orgulho. Confesso que sempre tive um deslumbramento imenso com a firma”, lembra.
“A Light realmente vive um tempo novo. Eu brinco que é a Light de 150 anos. Temos 120 anos de história e teremos pelo menos mais 30 anos, em que temos condições de destravar as todas as qualidades que essa firma tem.”
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Rikardy Tooge