Como os FIDCs se tornaram uma ‘tábua da salvação’ para varejistas diante de bancos mais seletivos

A onda de firmas brasileiras altamente endividadas e em crise financeira escancarou o uso crescente de um instrumento para levantar capital: os fundos de investimento em direitos creditórios, os FIDCs.
Esse instrumento se tornou particularmente importante para firmas do varejo, para quem antecipar o dinheiro de carnês, parcelas e outras formas de recebíveis tornou-se uma forma de conseguir hoje o dinheiro que só entraria no caixa no futuro.
Com operações e caixa pressionados e um quadro de inadimplência das famílias em alta e consumo aquém do esperado, essas firmas se depararam com um custo de capital mais caro e escasso – e isso vale principalmente para canais mais tradicionais, como bancos.
Ou seja, onde o sistema monetário recuou, o mercado de capitais avançou. Enquanto debêntures, CRIs e CRAs tiveram retração como instrumento de captação na primeira metade de 2026, os fundos de investimento em direitos creditórios cresceram.
Um levantamento ao qual o InvestNews teve acesso apontou que 27 companhias de varejo listadas na B3 possuem cerca de R$ 6 bilhões em operações ligadas a FIDCs. Considerando exposições que não aparecem claramente nos balanços, o montante pode ser ainda maior e variar entre R$ 6,6 bilhões e R$ 8,4 bilhões.
E há casos mais evidentes.
Em recuperação judicial, a Casas Bahia tem aproximadamente R$ 3,95 bilhões ligados a 12 fundos. FIDCs da rede varejista chegavam a pagar CDI+30% ao na tentativa de atrair investidores – o retorno mais elevado é reflexo justamente do risco que o ativo oferece –, como mostrou o InvestNews em reportagem sobre a crise da firma.
Na Lojas Quero-Quero, de materiais de construção, as cotas seniores de um FIDC, o Verdecard, somam cerca de R$ 1,36 bilhão.
Essa concentração faz dos FIDCs uma espécie de termômetro do aperto de crédito no varejo, diz um executivo do setor ouvido pelo InvestNews.
“FIDC no varejo brasileiro não é um fenômeno setorial, é um fenômeno de rating. O fundo entrou exatamente onde o banco recuou: quase sempre com colateral [garantia] integral quando financia o consumidor do varejista, e sem colateral nenhum quando financia o fornecedor”, diz o executivo.
Essa alternativa, porém, nem sempre vale a pena em termos de custos. O CFO de uma varejista listada na bolsa que ainda não utiliza FIDCs como instrumento de crédito disse ao InvestNews que a firma avalia acessar o instrumento, mas não encontrou ainda vantagem sobre a antecipação de recebíveis de cartão.
“Hoje é muito difícil você achar um FIDC mais barato do que CDI mais 4% ou CDI mais 3,8%, por exemplo”, afirmou o executivo, ouvido sob condição de anonimato, em referência ao custo da dívida.
Essa conta ajuda a explicar por que os fundos não se espalharam uniformemente pelo setor. Para firmas que ainda têm acesso a alternativas mais em conta, o FIDC pode não compensar.
Mas ganha relevância quando bancos encurtam prazos, exigem garantias adicionais ou não oferecem todo o volume de recursos necessário.
Do banco ao mercado de capitais
O crescimento do uso de FIDCs por firmas em dificuldades não começou, deve-se dizer, com o atual quadro de deterioração do crédito. Ele faz parte de uma mudança estrutural no financiamento das firmas brasileiras e do amadurecimento do mercado de capitais.
O patrimônio líquido dos fundos passou de R$ 639,79 bilhões em maio de 2025 para R$ 791,42 bilhões em julho de 2026, segundo a Anbima.
No primeiro semestre deste ano, as emissões de FIDCs atingiram o recorde de R$ 53,1 bilhões, de acordo com a Moody’s. Parte relevante desse avanço veio dos fundos monetários, especialmente os ligados ao crédito consignado, e não apenas a operações com varejistas.
“Há dez anos, para cada R$ 1 que os bancos emprestavam às firmas, havia cerca de R$ 0,20 no mercado de capitais e menos de R$ 0,10 em securitização. Hoje, para cada R$ 1 dos bancos, há mais de R$ 1 no mercado de capitais e quase R$ 0,50 em securitização”, afirma Carolina Yaginuma, diretora sênior de Finanças Estruturadas da Fitch.
A comparação considera a securitização como um todo, e não somente os FIDCs. Ainda assim, mostra como esses instrumentos deixaram de ocupar uma posição marginal no financiamento das firmas. O risco também varia conforme o recebível e a estrutura de cada fundo.
No cenário atual, porém, bancos e investidores estão mais seletivos. Companhias com boa qualidade de crédito ainda conseguem captar e, em alguns casos, reduzir spreads (a diferença em relação a taxas de referência).
Para as firmas mais alavancadas, por outro lado, as negociações demoram mais e resultam em prazos menores, taxas mais altas e exigência de garantias. Isso quando conseguem fechar novos contratos.
Segundo Leonardo Albuquerque, analista sênior da Moody’s, os bancos estão restringindo especialmente as linhas mais longas. Em muitos casos, as novas operações ficam limitadas a prazos de até dois anos.
“Não é uma crise de liquidez, mas é um cenário macroeconômico desafiador”, afirma Patricia Maniero, diretora e analista de crédito da Moody’s.
A agência registrou 13 rebaixamentos e três elevações no primeiro semestre nas notas de crédito na carteira de firmas não financeiras apresentada em recente relatório. Também houve aumento das perspectivas negativas, muitas associadas à liquidez e à necessidade de administrar vencimentos nos próximos 12 meses.
A Fitch faz uma avaliação semelhante. A agência de classificação de risco de crédito apontou o varejo como um dos setores com maior número de rebaixamentos no ano, atrás apenas da saúde, mas ressalta que há companhias bem preparadas e até casos de elevação de rating.
Dívida nova para pagar… dívida velha
A finalidade das captações ajuda a dimensionar o aperto. Em vez de financiar novas lojas, aquisições ou grandes projetos de expansão, a maior parte dos recursos levantados está sendo destinada ao pagamento de dívida que já existe – o que reforça o debate sobre se esse dinheiro está sendo bem alocado, como contou o InvestNews ao tratar do fenômeno das firmas zumbi.
Segundo Albuquerque, mais de 70% a 80% das emissões recentes foram feitas para gestão de passivos. Em algumas operações, uma pequena parcela fica no caixa. Em outras, todo o dinheiro é usado no pagamento ou na substituição de dívidas anteriores.
A Fitch observa o mesmo movimento.
Grande parte dos recursos captados nos últimos dois anos serviu para refinanciar passivos, alongar vencimentos e reduzir custos. No varejo, firmas diminuíram a expansão e fecharam lojas pouco rentáveis.
A pressão financeira nem sempre aparece imediatamente no desempenho operacional. “Quando olhamos o balanço e a demonstração de resultado, os números até são satisfatórios. O problema está no fluxo de caixa, basicamente no pagamento de juros, que subiu muito”, afirma Renato Donatti, diretor sênior da Fitch.
Quanto maior a alavancagem, mais dinheiro a companhia precisa destinar às despesas financeiras. Sobra menos para investir, financiar estoques, abrir lojas ou reduzir a própria dívida.
A janela de captação de 2024 e 2025 ajudou a evitar uma deterioração ainda maior. Segundo a Fitch, o mercado de capitais movimentou quase R$ 750 bilhões por ano no período, ante cerca de R$ 300 bilhões anuais anteriormente.
Esse volume permitiu que muitas firmas alongassem vencimentos e reduzissem o risco de refinanciamento. “Quem não aproveitou a janela de 2024 e 2025 para se refinanciar, com spreads baixos e prazos longos, perdeu uma boa oportunidade de alongar os passivos”, diz Donatti.
As firmas que anteciparam os ajustes, reduziram a alavancagem e preservaram caixa começaram a retomar investimentos, ainda que de forma controlada.
Para as demais, captar deixou de ser uma escolha ligada ao crescimento. Agora, há quem tente antecipar o dinheiro do futuro para sobreviver ao presente.
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Autor: Raquel Brandão
