FIDCs da Casas Bahia ofereciam retornos de até CDI+30% ao ano – e tiveram crescimento acelerado em meio à crise
Um retorno de CDI mais 30% ao ano. Com esse chamariz, a Casas Bahia ajudou a amealhar um patrimônio bilionário para um fundo.
Mais especificamente, um fundo de direitos creditórios (FIDC). Explicamos mais adiante como esse instrumento funciona. Por ora, vamos aos números.
A evolução do patrimônio desse FIDC mostra como o chamariz do retorno ultraelevado funcionou – a despeito do risco de uma varejista em franca crise desde 2024, quando tinha entrado em recuperação extrajudicial.
Em maio de 2025, enfim, o patrimônio líquido do fundo estava em R$ 990 milhões. Pouco mais de um ano mais tarde, esse patrimônio duplicou para R$ 1,9 bilhão.
Agora, vamos para a mecânica desse tipo de fundo.
Como funciona
Um FIDC é um fundo que usa o dinheiro dos cotistas para comprar “dinheiro a receber” de firmas. Um fabricante de geladeiras, por exemplo, tem R$ 100 mil a receber de Casas Bahia. Mas só dali a 90 dias. Muitas vezes ele pode preferir receber antes, ainda que menos.
O fundo paga, então, R$ 90 mil ao fornecedor e fica com o direito de receber os R$ 100 mil originais de Casas Bahia. A diferença de R$ 10 mil é de onde sai o lucro dos cotistas, que colocam dinheiro no fundo.
Casas Bahia, nessa estrutura, faz o papel de “sacado” – termo para o agente que serve de lastro para a operação toda.
Uma operação em que o risco é, justamente, de o sacado dar calote. No caso de FIDCs, se a recuperação judicial da Casas Bahia for aprovada, esse risco basicamente se concretiza.
Esse é o modelo dos Fidics de “risco sacado”. Em suas demonstrações de resultados, o grupo lista, pelo menos, três fundos desse tipo, criados para financiar suas cadeias de fornecedores.
O maior deles, aquele com patrimônio de R$ 1,9 bilhão, chama-se IBCB AF01. A firma tamb;em menciona os FIDCs, com R$ 240 milhões de patrimônio, e o GCB Fornecedores Comerciais, com patrimônio líquido de R$ 790 milhões.
No total, os três portfólios aparecem entre os credores com créditos a receber de cerca de R$ 1,4 bilhão.
Descontos amargos na RJ
Na RJ, a rede de varejo interrompe os pagamento ao FIDC até que consiga cumprir o plano de reestruturação, o que pode levar alguns anos.
Só que tem mais. Em processos do gênero, é comum que as dívidas financeiras recebam um desconto – haircut, no jargão. Essa redução de débitos costuma alcançar mais de 90% do valor original.
Só o FIDC IBCB AF01 aparece na lista de credores com quase R$ 1,1 bilhão a receber da Casas Bahia. A cifra representa 58% do patrimônio do FIDC.
Na prática, portanto, o fundo pode receber menos de R$ 110 milhões.
Os fundos de direitos creditórios que operam no modelo de risco sacado da varejista captaram recursos entre investidores profissionais – aqueles com mais de R$ 10 milhões em aplicações financeiras – e institucionais.
Um gestor que pediu anonimato explicou que, nesses modelos, a maior parte dos recursos vem do próprio “sacado”no caso a Casas Bahia. No total, a participação da varejista nesses portfólios alcança R$ 1,8 bilhão.
Há, no entanto, um volume similar, de cerca deR$ 1,8 bilhão, em cotas “seniores”, ou seja, que foram adquiridas por investidores profissionais e institucionais.
FIDCs de crediário
A rede de varejo aparece ainda como devedora de mais cinco fundos de direitos creditórios que forneceram crédito para a companhia (veja na tabela).
A maior dívida, de R$ 4,8 milhões com o Quatá Multissetorial, representa apenas 2% do patrimônio do FIDC.
No total, a dívida da rede de lojas com esses outros veículos alcança R$ 16 milhões.
Há ainda um conjunto de seis FIDCs principais que têm ajudado a financiar a estrutura de crediário da Casas Bahia. São os fundos Feeder, Red Asset (Casas Bahia CDC), Jive (FGCB III Multicarteira), IBCB BS (IBCB Crediário), Casas Bahia e o EP Banqi.
Nesse modelo, no entanto, o impacto tende a ser reduzido, porque os recebíveis antecipados são detidos pela própria varejista ao conceder crédito. Quem vai pagar são os clientes que aderiram aos carnês.
Danos para a indústria de FIDCs
Ainda que para investidores de FIDCs do varejo o evento Casas Bahia tenha um impacto limitado, há um estrago em termos de percepção de risco para o mercado em geral.
“Tem uma questão de reputação da mesma maneira que a RJ da Casas Bahia chamou atenção para a situação apertada do varejo de uma maneira mais ampla”, afirmou o gestor que pediu anonimato.
Conforme o gestor, a situação escancarou a dependência que muitas firmas de consumo cíclico passaram a ter das estruturas de FIDCs para financiar suas operações.
Em um momento no qual os bancos têm fechado a torneira do crédito para firmas muito endividadas, essas companhias têm recorrido aos fundos de antecipação de recebíveis. Ou seja, o mercado – e os investidores – estão assumindo esse risco.
O grupo Casas Bahia soma quase R$ 4 bilhões em dívidas com fundos de direitos creditórios. E a maior parte desse valor foi captada mesmo com a firma em recuperação extrajudicial, que data de junho de 2024.
Incapaz de resolver o problema monetário, a rede de lojas acabou solicitando a conversão da RE em RJ neste mês.
Dentro de um processo de recuperação judicial, as dívidas com os FIDCs entram na fila de espera dos credores. Como o desconto tende a ser elevado após a reestruturação, os fundos são forçados a estancar as amortizações e repassar a perda diretamente aos cotistas.
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Autor: Sérgio Tauhata
