Cobertor curto: 7 ações do Ibovespa mais expostas ao impacto dos juros altos em seus resultados
Raízen, Casas Bahia, Braskem, GPA, Light, Grupo Toky… a lista de firmas brasileiras que sucumbiram ao peso de suas dívidas e dos juros altos nos últimos meses e se viram obrigadas a pedir recuperação judicial ou extrajudicial para renegociação é crescente.
Em todos esses casos, investidores que compraram ações ou papéis da dívida tiveram que amargar perdas que podem não ser recuperadas tão cedo – ou talvez nunca mais.
Cada caso acima citado guarda suas próprias razões para a crise financeira, como erros de gestão que levaram à piora dos resultados.
Em comum a todas as firmas, um quadro de custo elevado de dívida que aumentou a partir de 2022 e que se mantém desde então, com juros básicos na casa de de dois dígitos. No início de 2021, a Selic, que serve de referência para o custo de capital no país, estava em 2,00% ao ano; um ano depois, já alcançava o patamar de 10,75%; hoje está em 14% ao ano.
A má notícia para muitas firmas brasileiras – e para investidores em ações e crédito privado – é que essa conta está cada vez mais pesada nos seus respectivos resultados: o custo da dívida abocanha boa parte do lucro operacional, principalmente das que dependem de empréstimo para tocar o dia a dia, crescer ou comprar máquinas e equipamentos.
Um raio-x claro disso apareceu na temporada de balanços do segundo trimestre: o resultado monetário líquido de uma amostra de 44 firmas do Ibovespa acompanhadas (que exclui a Petrobras) consumiu 6,6% da receita dessas companhias; um ano antes, havia sido 5,3%.
Os dados são parte de um levantamento da TAG Investimentos, gestora com R$ 18 bilhões em ativos sob administração, ao qual o InvestNews teve acesso em primeira mão.
Ou seja, para cada R$ 100 faturados, quase R$ 7 foram embora só para pagar juro, um peso monetário que está ainda aumentando.
As firmas que mais sentiram o aperto, segundo análise da TAG, foram aquelas que vivem do consumo de massa financiado no cartão de crédito e no carnê, espremidas nas duas pontas: demanda mais fraca de um lado, despesa financeira inflada pelo juro alto do outro.
Para o investidor, há algumas formas de entender e descobrir o quão exposta ou não está uma firma que tem dívidas.
O peso dos juros altos
Uma das mais comuns adotadas no mercado é analisar a relação entre o lucro operacional (medido pelo Ebit, o lucro antes de juros e impostos) e a despesa financeira com pagamento de juros do período.
Em linhas gerais, uma firma cujo lucro operacional seja capaz de cobrir com folga a despesa financeira com juros – acima de 3 vezes, por exemplo – tem uma saúde melhor sob esse ponto de vista.
No mundo da análise financeira, essa métrica é chamada de “índice de cobertura de juros“. Quanto maior o número, mais saudável a firma.
Se o índice for de 3 vezes, como citado, por exemplo, isso significa que o lucro operacional de um exercício (trimestre ou ano) seria capaz de pagar três vezes os gastos com juros: é considerada uma margem de segurança confortável.
O sinal de alerta, segundo o time de analistas da TAG, vem quando esse indicador está abaixo de 1,5 vez. Abaixo desse ponto, a companhia entra em uma “zona vulnerável”, em que o custo da dívida é relevante.
Das 44 firmas analisadas no estudo, sete já se encontram nessa zona que requer mais atenção.
Veja abaixo em ordem decrescente:
- Localiza (RENT3), com cobertura de 1,3 vez;
- Smart Fit (SMFT3), com 1,2 vez;
- PetroRecôncavo (RECV3) e Klabin (KLBN11), empatadas em 1 vez;
- Energisa (ENGI11), com 0,9 vez;
- Magazine Luiza (MGLU3), com 0,6 vez;
- Auren (AURE3), com 0,5 vez.
No caso das três últimas do estudo da TAG, o lucro operacional já não cobre os juros de suas dívidas. “São operações razoáveis, mas com o lucro destruído pelo custo do juro”, resume a gestora sobre o quadro.
O juro alto, como explicamos acima, também atrapalha o outro lado do balcão, o do consumidor. Essa pressão fica escancarada no varejo, que depende diretamente do consumo das famílias, como explicou o InvestNews em recente reportagem sobre o assunto.
No segundo trimestre, quase todas as firmas do setor viram as vendas encolherem em termos reais. Em outras palavras, venderam menos que no ano passado quando é descontada a inflação.
Estamos falando, nessa análise, do critério chamado “vendas nas mesmas lojas”, que não conta pontos de venda recém-abertos. É, portanto, um termômetro mais preciso da saúde do negócio.
A queda mais forte foi da Lojas Renner (LREN3), que viu as vendas no conceito “mesmas lojas” caírem 4,1% na comparação real frente ao mesmo período do ano anterior.
Na sequência apareceram Assaí (ASAI3), com queda de 3,7%, e Iguatemi (IGTI11), de 2,9%.
Mas há firmas do varejo que estão conseguindo resistir de alguma forma à pressão dos juros e do endividamento recorde dos brasileiros.
São os casos, por exemplo, da RD Saúde (RADL3), das redes Drogasil e DrogaRaia, que pega carona na onda das “canetas emagrecedoras”, e da Vivara (VIVA3), que mira o consumo do público de renda mais alta, menos sensível ao juro elevado.
No meio do caminho está, até aqui, o Magalu, que aproveitou a demanda com a Copa do Mundo para sustentar as vendas no segundo trimestre, mas, por outro lado, sentiu o custo da dívida: as despesas financeiras chegaram R$ 572 milhões e pesaram para o prejuízo de R$ 72 milhões.
Olhando para a frente, o time de analistas da TAG Investimentos acredita que o alívio monetário para as firmas vai ser lento.
O Banco Central tem cortado a taxa Selic aos poucos e ela segue perto do mais alto patamar em duas décadas, o que significa que firmas com “índice de cobertura de juros” abaixo de 1,5 vez devem seguir com o lucro líquido espremido por mais trimestres – e isso significa que o investidor em ações ou papéis da dívida deve redobrar a sua atenção.
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Autor: Paula Barra