Serra Verde: como o apoio bilionário dos EUA viabiliza a única mina comercial de terras raras no Brasil

A venda da Serra Verde, mineradora brasileira de terras raras, para uma firma americana ainda não foi consumada, mas o governo dos Estados Unidos já se adiantou para proteger seus interesses: se comprometeu com pelo menos US$ 1,6 bilhão em empréstimos, aportes e compras futuras ligados à mineradora e à sua produção.
O apoio transformou a mina Pela Ema, no norte de Goiás, em uma peça importante dos esforços americanos para reduzir a dependência da China na exploração e no refino de terras raras.
Agora, os acionistas da USA Rare Earth podem dar nesta sexta-feira (28) o último grande passo para a conclusão da compra da mineradora brasileira. Eles decidirão se autorizam a emissão de 126,8 milhões de novas ações, que serão usadas como parte do pagamento.
Anunciado em abril, o negócio avaliou a Serra Verde em US$ 2,8 bilhões. A USA Rare Earth espera concluir a operação logo após a assembleia, desde que as demais condições previstas no acordo sejam cumpridas.
Mesmo antes da transferência do controle, porém, o governo americano já assegurou influência sobre o destino da produção de terras raras vindas da mina Pela Ema, a única em operação comercial no Brasil.
Na última segunda-feira (24), o Departamento de Guerra dos Estados Unidos anunciou uma estrutura financeira de US$ 1,55 bilhão para a US SIIE, firma criada para comprar e comercializar as terras raras produzidas pela Serra Verde.
O pacote inclui um aporte de US$ 750 milhões do próprio Pentágono – valor 50% superior aos US$ 500 milhões previstos inicialmente – e uma linha de crédito de até US$ 500 milhões concedida por um banco privado, cuja identidade não foi divulgada.
Além disso, a Agência de Logística de Defesa, ligada ao Pentágono, comprometeu-se a adquirir pelo menos US$ 300 milhões em produtos da US SIIE nos próximos cinco anos.
Para garantir a matéria-prima, a US SIIE firmou com a Serra Verde um contrato conhecido no mercado como offtake, pelo qual a nova firma comprará toda a produção da primeira fase da mina durante 15 anos.
O acordo inclui preços mínimos e uma cláusula take-or-pay, que obriga a compradora a pagar pelo volume contratado mesmo que não retire todo o produto. Esse tipo de garantia reduz o risco comercial e facilita o financiamento de projetos minerais mais arriscados economicamente, como é o caso das terras raras.
Até o momento, o governo americano garantiu ao menos US$ 1,6 bilhão em financiamento diretamente ligado à Serra Verde e à sua produção. A ofensiva promete uma virada financeira e comercial para a firma brasileira.
Isso porque, apesar de a Serra Verde extrair e vender terras raras desde 2024, a mineradora ainda acumulava prejuízos milionários e ainda se definia como “pré-operacional”, mesmo extraindo e vendendo terras raras há dois anos.
Made in Goiás
A Serra Verde foi criada em 2010 pela gestora americana Denham Capital para desenvolver a mina de Pela Ema, uma jazida de terras raras localizada no município goiano de Minaçu. Mais tarde, entraram no negócio a gestora britânica Vision Blue Resources e a americana EMG.
A mineradora começou a produzir em escala comercial em 2024. De lá saem quatro dos principais elementos de terras raras usados na fabricação de ímãs de alta potência: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.
Trata-se de uma combinação rara fora da Ásia. A Serra Verde é hoje a única mineradora fora do continente que produz comercialmente os quatro elementos.
Mesmo com um ativo estratégico em mãos, a companhia ainda apresentava uma situação financeira frágil: ao final de 2025, tinha apenas US$ 2,6 milhões em caixa e acumulava prejuízo operacional de US$ 60,9 milhões.
Embora extraísse e vendesse terras raras desde 2024, a Serra Verde ainda se classificava contabilmente como pré-operacional, por não ter alcançado a viabilidade econômica da mina.
A operação não havia alcançado a escala prevista e continuava dependente de novos recursos para financiar sua expansão. Foi nesse cenário que o governo americano começou a construir uma rede de apoio em torno do projeto.
Na prática, Washington passou a atuar em três frentes: financiou diretamente a mina, apoiou a expansão da firma que pretende comprá-la (a USA Rare Earth) e garantiu um destino para sua produção.
A primeira frente veio por meio do DFC, banco de desenvolvimento do governo americano. Em fevereiro, a Serra Verde anunciou um financiamento de até US$ 565 milhões, aprovado pelo órgão em dezembro de 2025. Os recursos serão usados para refinanciar dívidas, cobrir despesas operacionais e ampliar e modernizar a mina.
A segunda envolve a própria USA Rare Earth, que já mantinha uma relação com Washington antes de apresentar, em abril, a proposta de aquisição da Serra Verde. Em junho, a firma assinou os acordos definitivos que lhe deram acesso a até US$ 277 milhões em recursos federais e a uma linha de crédito de até US$ 1,3 bilhão do Departamento de Comércio.
Esses recursos, condicionados ao cumprimento de metas, destinam-se principalmente aos projetos da USA Rare Earth nos Estados Unidos – e não ao pagamento pela Serra Verde. Em troca, o governo americano receberá 16,1 milhões de ações da companhia e bônus que lhe permitirão comprar outras 17,6 milhões.
A terceira frente é o acordo anunciado nesta semana: a estrutura de US$ 1,55 bilhão montada para comprar e comercializar toda a produção da primeira fase da Serra Verde.
Terras raras ocidentais
Com o caixa reforçado e o governo americano na dupla posição de acionista e financiador, a USA Rare Earth tornou-se uma das apostas do governo Donald Trump para construir uma cadeia completa de terras raras fora da China, que domina a produção e o processamento mundial desses minerais.
Em menos de um ano, a companhia comprou a britânica Less Common Metals, fabricante de metais e ligas, e fechou acordos para consolidar o controle econômico do projeto mineral Round Top, no Texas, e adquirir a Serra Verde.
No movimento mais recente, em julho, assinou um acordo para comprar uma participação minoritária de 13,6% na francesa Carester, especializada na separação e no refino de terras raras.
Se todas as operações forem concluídas, a USA Rare Earth reunirá ativos e participações em todas as etapas da cadeia, da extração mineral à fabricação de ímãs. Veja:
EUA X China
O esforço americano tenta reduzir uma dependência latente: hoje, quase toda produção global de terras raras passa, em algum momento, pela China.
E esses minerais são essenciais porque entram na fabricação de ímãs de alta potência usados em carros elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos e equipamentos militares.
Em 2024, último ano com dados consolidados, a China respondia por 60% da extração mundial das terras raras usadas em ímãs.
Nas etapas seguintes, o domínio é ainda maior: 91% do refino e 94% da fabricação dos próprios ímãs, segundo a Agência Internacional de Energia (EIA, em inglês).
Essa dependência ganhou outra dimensão com a escalada da guerra comercial entre Washington e Pequim. Em abril de 2025, a China passou a restringir a exportação de sete terras raras, entre elas disprósio e térbio – justamente minerais que também são produzidos pela Serra Verde.
As vendas externas despencaram nos meses seguintes e chegaram a comprometer o abastecimento na indústria ocidental.
O papel brasileiro
É nesse cenário que o Brasil começou a ganhar a atenção dos Estados Unidos. Acontece que o país tem 21 milhões de toneladas de reservas mapeadas de terras raras, a segunda maior do mundo, atrás apenas das 44 milhões de toneladas da China.
Por enquanto, porém, esse potencial não se transforma em produção. A Serra Verde é a única operação comercial de terras raras do país. E o Brasil ainda não tem, em escala industrial, as etapas seguintes de separação dos elementos, produção de metais e ligas e fabricação de ímãs.
Há uma fila de projetos que tentam mudar esse cenário. Entre os mais avançados estão Caldeira, da australiana Meteoric Resources, em Minas Gerais; Carina, da canadense Aclara Resources, em Goiás; e Colossus, da australiana Viridis Mining, também em Minas.
Os três têm previsão de começar a produzir em 2028.
O SGB (Serviço Geológico do Brasil) contabiliza 37 projetos ativos de terras raras no país, em diferentes estágios de desenvolvimento.
Historicamente, projetos do tipo no país foram financiados principalmente por capital canadense e australiano. Agora, os americanos começam a disputar esse espaço.
“Hoje os Estados Unidos já entraram no jogo, e entraram muito forte”, diz Rafael Marchi, diretor da Alvarez & Marsal Brasil.
Marchi afirma que o movimento não deve parar tão cedo. “Estamos acompanhando outros casos que ainda são sigilosos e, em breve, devemos ver mais capital americano chegando”, diz. “Seja via dívida, participação acionária, compra futura da produção ou uma combinação dessas alternativas”.
O que achou dessa notícia? Deixe um comentário abaixo e/ou compartilhe em suas redes sociais. Assim deixaremos mais pessoas por dentro do mundo das finanças, economia e investimentos!
Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: Camila Alves Barros